Os dois grandes mandamentos: Ex 22, 1Ts 1 e Mt 22

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo et in tota anima tua et in tota mente tua.
Mt 22,37
O trigésimo domingo do Tempo Comum do Ano A articula três textos em torno do duplo mandamento do amor que estrutura toda a relação com Deus e com o próximo. Ex 22,20-26 traduz o amor ao próximo em obrigações concretas de justiça: não oprimir o estrangeiro, não afligir a viúva nem o órfão, não explorar o pobre com juros. 1Ts 1,5c-10 celebra a conversão dos Tessalonicenses dos ídolos ao Deus vivo e a sua espera do Filho dos céus. Mt 22,34-40 sintetiza toda a lei e os profetas nos dois mandamentos: amar a Deus com todo o coração, alma e mente, e amar o próximo como a si mesmo. Os três textos convergem: o amor a Deus que não se traduz em amor concreto ao pobre, ao estrangeiro e ao órfão não é amor a Deus. E o amor que não espera o Filho dos céus não tem o horizonte adequado.
I. A primeira leitura: Ex 22,20-26
A lei do Êxodo traduz o amor ao próximo em protecções concretas para os mais vulneráveis. «Não maltratarás o estrangeiro nem o oprimirás, pois também vós fostes estrangeiros na terra do Egipto» (Ex 22,20). O argumento é memorial: a experiência da opressão deve gerar compaixão, não reprodução do ciclo. «Não afligireis a viúva nem o órfão. Se os afligires e eles clamarem para mim, escutarei o seu grito» (vv.21-22). Deus escuta os que não têm defensor humano: a viúva e o órfão têm Deus como advogado. E a proibição do juro ao pobre: «Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que habita contigo, não te comportarás com ele como credor, não lhe exigirás juro» (v.24). E a devolução do manto antes do pôr do sol: é o único cobertor do pobre, e retê-lo durante a noite é deixá-lo morrer de frio. A lei não é abstracta: protege corpos concretos de pessoas concretas.
II. A segunda leitura: 1Ts 1,5c-10
Paulo recorda a sua chegada a Tessalónica: «Vós sabeis bem o que fomos para vós durante o tempo em que estivemos convosco» (1Ts 1,5c). A comunidade tornou-se imitadora de Paulo e do Senhor, recebendo a palavra no meio de grande tribulação com a alegria do Espírito Santo (v.6). E o resultado: «A vossa fé em Deus espalhou-se por toda a parte, de tal modo que não temos necessidade de falar dela» (v.8). A conversão é visível: «Como vos convertestes dos ídolos a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro, e para esperardes dos céus o seu Filho, Jesus, que ele ressuscitou dos mortos e que nos salva da ira que vem» (vv.9-10). A conversão tem dois movimentos: o abandono dos ídolos e a espera do Filho. Não é apenas ética: é escatologia. Viver bem é possível porque o Filho que se espera já ressuscitou e salva.
III. O evangelho: Mt 22,34-40
Os fariseus, sabendo que Jesus havia silenciado os saduceus, reúnem-se e um doutor da lei interroga-o: «Mestre, qual é o maior mandamento da lei»? (Mt 22,36). Jesus cita o Deuteronómio: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente: este é o maior e o primeiro mandamento» (vv.37-38). E acrescenta imediatamente: «O segundo é semelhante: amarás o teu próximo como a ti mesmo» (v.39). A palavra «semelhante» é decisiva: os dois mandamentos não são simplesmente equivalentes, mas o segundo é da mesma natureza do primeiro. Amar o próximo é semelhante a amar a Deus porque o próximo é imagem de Deus. A conclusão: «Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas» (v.40). Jesus não aboliu a lei: revelou o princípio que a unifica e do qual deriva. Ex 22 é o segundo mandamento em ação: proteger o estrangeiro, a viúva, o órfão e o pobre é amar o próximo como a si mesmo.
IV. Maria e o amor total
O primeiro mandamento pede o amor com «todo o coração, toda a alma e toda a mente»: a totalidade da pessoa, sem reservas. A tradição mariológica reconheceu em Maria a criatura que mais completamente viveu esta totalidade. O Fiat da Anunciação não foi uma resposta parcial: foi a entrega de tudo o que Maria era ao que Deus queria. O Magnificat é o canto do coração que ama com toda a alma. E o silêncio sob a Cruz é o amor com toda a mente: não o entendimento que compreende, mas o amor que permanece quando o entendimento não chega. 1Ts 1 descreve os que «esperam dos céus o Filho». Maria já recebeu o Filho dos céus, já o gerou, já o viu ressuscitar, já o viu ascender. A sua espera agora é diferente: é a espera da Parusia, da consumação final, no seio da qual intercede pelos que ainda esperam pela primeira vez. Ex 22 protege a viúva: Maria, que perdeu José e depois o Filho, é protegida por Deus com uma proteção que transcende toda a lei humana, a Assunção que não a deixou no abandono da morte.
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