São João Eudes e o Coração de Maria: vida, obra e textos

São João eudes (m. 1680) e o imaculado coração de Maria

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Le Cœur du Fils et de la Mère ne sont qu’un Cœur par unité de sentiment, d’affection et de volonté.
«O Coração do Filho e o da Mãe não são senão um só Coração, por unidade de sentimento, de afeição e de vontade» (São João Eudes, Le Cœur admirable de la Très Sacrée Mère de Dieu, livro VI, cap. 1, em EUDES, 1907, p. 123)

São João Eudes é o santo que deu ao Coração de Maria a sua primeira festa litúrgica e a sua primeira exposição teológica sistemática. O texto que segue acompanha, e cita em tradução, a seção dedicada a ele no quinto volume dos Testi mariani del Secondo Millennio, organizado por Stefano De Fiores e Luigi Gambero, com os textos de Eudes na tradução italiana de A. Rum (DE FIORES e GAMBERO, 2003, p. 857-866).

Vida

Jean Eudes nasceu em Ri, na diocese de Sées, na Normandia, a 14 de novembro de 1601, de família camponesa (MILCENT, 1974, col. 488). O breve de beatificação registra: Ortum hic habuit xviii kal. dec. anno salutis MDCI in pago vulgo Ri, dioeceseos Sagiensis, ex Isaac et Martha Gorbin, piis honestisque parentibus, «Nasceu a 14 de novembro do ano da salvação de 1601, na aldeia chamada Ri, da diocese de Sées, de Isaac e Marta Gorbin, pais piedosos e honestos» (PIO X, 1909, p. 477). Em 1615 entrou no colégio dos jesuítas de Caen (MILCENT, 1974, col. 488), onde, como ele mesmo conta no seu Mémorial, foi recebido na Congregação de Nossa Senhora por volta de 1618 (BARBÉ, 1954, p. 166).

A 25 de março de 1623 entrou no Oratório de Pierre de Bérulle (BARBÉ, 1954, p. 167), e teve por mestres, entre 1623 e 1627, o próprio Bérulle e Charles de Condren, aos quais il n’a cessé de professer […] une admiration fervente, «nunca deixou de professar uma admiração fervorosa» (MILCENT, 1974, col. 488). A 25 de março de 1624 fez o voto de servidão a Jesus e a Maria, que Bérulle aconselhava a algumas das almas que dirigia (BARBÉ, 1954, p. 167). Foi ordenado sacerdote no fim de 1625 (PIO X, 1909, p. 478).

A partir de 1632 consagrou quase toda a sua atividade às missões populares, até 1676, e pregou ao todo mais de cem, de quatro a oito semanas cada uma, na Normandia, na Bretanha, na Île-de-France e na Borgonha, três delas em Paris e duas na corte de Luís XIV (MILCENT, 1974, col. 488). Deixou o Oratório e, a 25 de março de 1643, fundou em Caen a Congregação de Jesus e Maria, os eudistas, dont le but était d’abord la formation des prêtres, puis toute activité apostolique, en particulier celle des missions de l’intérieur, «cujo fim era primeiro a formação dos sacerdotes, depois toda a atividade apostólica, em particular a das missões no interior do país» (MILCENT, 1974, col. 489-490). Fundou também a Ordem de Nossa Senhora da Caridade (PIO XI, 1925, p. 495-496).

Morreu em Caen a 19 de agosto de 1680 (PIO XI, 1925, p. 490-491). Leão XIII declarou a heroicidade das suas virtudes a 6 de janeiro de 1903 (PIO X, 1909, p. 481). Pio X o beatificou pelo breve Divinus Magister, de 11 de abril de 1909 (PIO X, 1909, p. 477-482), e Pio XI o canonizou no domingo de Pentecostes do Ano Santo, 31 de maio de 1925 (PIO XI, 1925, p. 494-496).

Obra

Os escritos de Eudes, observa a apresentação do volume, hanno un carattere eminentemente pastorale e spirituale e si ispirano a Bérulle, ma in uno stile più adatto al popolo, «têm um caráter eminentemente pastoral e espiritual e se inspiram em Bérulle, mas num estilo mais adequado ao povo» (DE FIORES e GAMBERO, 2003, p. 857). O mais conhecido e reeditado é La vie et le royaume de Jésus dans les âmes chrétiennes (Caen, 1637), completado pelo Contrat de l’homme avec Dieu par le saint baptême (Caen, 1654) (MILCENT, 1974, col. 490-491). Neste último, Eudes apresenta o batismo como uma aliança em que Deus e o homem se comprometem a uma doação recíproca, e a fórmula «ofereço, dou e consagro» passa depois às orações a Cristo e a Maria (DE FIORES, 2006, p. 371). Daí a vocação de todos à santidade: Tutti i cristiani, a qualunque stato o condizione appartengano, sono tenuti, in qualità di cristiani e di membri di Gesù Cristo, a vivere della vita del loro capo, cioè di una vita tutta santa, «Todos os cristãos, de qualquer estado ou condição que sejam, são obrigados, como cristãos e membros de Jesus Cristo, a viver da vida da sua cabeça, isto é, de uma vida toda santa» (Royaume, 6.ª parte, 1, em DE FIORES e GAMBERO, 2003, p. 857).

A obra mariana maior foi amadurecida durante muitos anos. Eudes eut la joie de terminer quelques semaines avant sa mort: Le Cœur admirable de la Très Sacrée Mère de Dieu ou la dévotion au Très Saint Cœur de Marie, «teve a alegria de terminar algumas semanas antes da morte: O Coração admirável da Sacratíssima Mãe de Deus ou a devoção ao Santíssimo Coração de Maria» (MILCENT, 1974, col. 491-492). O livro saiu em Caen em 1681, já póstumo, e tem doze livros (MILCENT, 1974, col. 491-492, e EUDES, 1907, folha de rosto). A mesma apresentação recorda que Eudes associou esse número às doze estrelas da Mulher do Apocalipse. Recorda também que ele foi chamado profeta del cuore, «profeta do coração», expressão que dá título ao livro de Oda Schneider, Der Prophet des Herzens (MILCENT, 1974, col. 497, e ARRAGAIN, 1958, p. 1013, n. 15). E cita a análise de J. M. Alonso, que descobre na obra un certo ordine sistematico, «uma certa ordem sistemática»: a natureza do Coração de Maria no livro I, os fundamentos da devoção em referência ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo nos livros II a IX, o Cântico do Coração de Maria no livro X, as razões e os meios de honrá-lo no livro XI e, por fim, um tratado sobre o Coração de Jesus (DE FIORES e GAMBERO, 2003, p. 858).

O coração de Maria

Para Eudes, o coração é símbolo da interioridade e do amor, e também presença e vida de Deus em nós. O Dictionnaire de spiritualité resume: le cœur de notre cœur, c’est Dieu lui-même vivant en nous, «o coração do nosso coração é o próprio Deus que vive em nós» (MILCENT, 1974, col. 497-498). No primeiro livro do Cœur admirable, Eudes distingue em Maria três corações. Na tradução de A. Rum: Il primo cuore della Madre di Dio è il cuore corporeo, racchiuso nel suo petto verginale. Il secondo è il cuore spirituale, e cioè, il cuore della sua anima […]. Il terzo cuore di questa divina Vergine è quello di cui essa stessa parla, quando dice: «Io dormo e il mio cuore veglia» (Ct 5,2), «O primeiro coração da Mãe de Deus é o coração corporal, encerrado no seu peito virginal. O segundo é o coração espiritual, isto é, o coração da sua alma […]. O terceiro coração desta divina Virgem é aquele de que ela mesma fala quando diz: “Eu durmo, e o meu coração vigia” (Ct 5,2)». Esse terceiro coração è Dio stesso, perché è il Figlio di Dio, «é o próprio Deus, porque é o Filho de Deus». E os três sono un solo cuore per mezzo della più santa e intima unione che mai vi fu o sarà, dopo l’unione ipostatica, «são um só coração, pela mais santa e íntima união que jamais houve ou haverá, depois da união hipostática» (Cœur admirable I, em DE FIORES e GAMBERO, 2003, p. 862). O original francês do sexto livro diz o mesmo com outras palavras: cette Mère incomparable a un Cœur corporel, un Cœur spirituel, et un Cœur divin qui est son Fils Jésus, «esta Mãe incomparável tem um Coração corporal, um Coração espiritual e um Coração divino, que é seu Filho Jesus» (EUDES, 1907, p. 185).

Daqui nasce a leitura de Lc 2,19.51. Maria guardava todas as coisas no coração corporal, porque il cuore infatti è principio di vita e sede dell’amore, «o coração é princípio de vida e sede do amor», no coração espiritual, nella parte più nobile della sua anima, «na parte mais nobre da sua alma», e no coração divino, nel suo Figlio Gesù, che era lo spirito del suo spirito e il cuore del suo cuore, «no seu Filho Jesus, que era o espírito do seu espírito e o coração do seu coração» (Cœur admirable I, em DE FIORES e GAMBERO, 2003, p. 863).

A união entre o Coração de Jesus e o de Maria não confunde as pessoas. Eudes a precisa no último livro: non pas en unité d’essence, telle qu’est l’unité du Père et du Fils, mais en unité de sentiment, d’affection et de volonté, «não em unidade de essência, como é a unidade do Pai e do Filho, mas em unidade de sentimento, de afeição e de vontade» (Cœur admirable XII, apud GLOTIN, 2007, p. 540). O Marienlexikon nota que Eudes, percebendo que a unidade moral podia ser mal entendida como unidade física, defendeu depois a consideração separada dos dois Corações, com duas devoções e duas festas, sem deixar de ver em Maria o caminho para o Coração de Jesus (WITTKEMPER, [1989], p. 411).

Como honrar Jesus em Maria e Maria em Jesus

Na terceira parte do Royaume de Jésus, Eudes expõe o modo de honrar a Virgem. O texto completo está no primeiro tomo das Œuvres complètes (p. 337-340), segundo a indicação de De Fiores e Gambero (2003, p. 861). Algumas frases do original francês foram citadas por L. Barbé no estudo publicado no terceiro tomo da obra Maria, dirigida por Hubert du Manoir: nous ne devons point séparer ce que Dieu a uni si parfaitement, «não devemos separar o que Deus uniu tão perfeitamente», e Jésus et Marie sont si étroitement liés ensemble, que qui voit Jésus, voit Marie, qui aime Jésus, aime Marie, qui a dévotion à Jésus a dévotion à Marie, «Jesus e Maria estão tão estreitamente ligados que quem vê Jesus vê Maria, quem ama Jesus ama Maria, quem tem devoção a Jesus tem devoção a Maria» (BARBÉ, 1954, p. 168). Segue a passagem, com breves cortes assinalados, traduzida da versão italiana de A. Rum (DE FIORES e GAMBERO, 2003, p. 858-861).

> A devoção à santíssima Virgem Mãe de Deus é tão agradável ao seu Filho e tão recomendável, querida e familiar a todos os verdadeiros cristãos, que não é preciso recomendá-la a quantos desejam viver cristãmente, como é o caso daqueles a quem dirijo este livro. > > Direi apenas que não devemos separar o que Deus uniu tão perfeitamente. Jesus e Maria estão, de fato, tão estreitamente unidos que quem vê Jesus vê Maria, quem ama Jesus ama Maria e quem é devoto de Jesus é também devoto de Maria. > > Jesus e Maria são os dois primeiros fundamentos da religião cristã, as duas fontes vivas de todas as nossas bênçãos, os dois termos da nossa devoção e os dois pontos de referência para onde devemos olhar em todas as nossas ações e exercícios. Não é verdadeiro cristão quem não tem devoção à Mãe de Jesus Cristo e de todos os cristãos. Por isso Santo Anselmo e São Boaventura afirmam que não é possível que sejam bem acolhidos por Jesus Cristo aqueles que não são amados pela sua santa Mãe, assim como não podem perecer aqueles para quem ela volta o seu olhar benévolo. > > Acrescento que, devendo nós continuar [a prática d]as virtudes e alimentar em nós os sentimentos de Jesus Cristo, devemos também continuar e alimentar em nós os sentimentos de amor, de piedade filial e de devoção que o mesmo Jesus teve para com a sua bem-aventurada Mãe. Ora, ele a amou perfeitamente e a honrou de modo sublime: escolheu-a por Mãe, deu-se a ela como Filho, recebeu dela um ser e uma vida nova, quis estar em relação com ela, submeteu-se a ela, aprendeu com ela como se comportar durante a infância e a vida oculta, constituiu-a Soberana do céu e da terra, glorificou-a e quis que fosse glorificada por todos. Pois bem, para continuar na terra a mesma piedade filial e a mesma devoção que Jesus teve pela sua santíssima Mãe, devemos ter para com ela uma devoção toda particular e honrá-la de modo inteiramente singular. Ora, para honrá-la como Deus espera de nós e como ela mesma deseja, devemos fazer três coisas. > > 1. Em Maria adorar Jesus. Em Maria devemos olhar e adorar o seu Filho, olhar e adorar só a ele. Assim, de fato, ela quer ser honrada, sabendo bem que por si só não é absolutamente nada, mas que seu Filho Jesus é tudo nela: é o seu ser, a sua vida, a sua santidade, a sua glória, o seu poder e a sua grandeza. Devemos agradecer a Jesus a glória que quis receber nela e por meio dela. Devemos oferecer-nos a ele e pedir-lhe que nos dê a ela e disponha tudo para que a nossa vida e as nossas ações sejam consagradas a honrar a vida e as ações dela. Devemos pedir-lhe que nos faça participar do amor que ele teve por ela e das suas outras virtudes. Devemos pedir-lhe que se sirva de nós para honrá-la, ou antes, para honrar a si mesmo nela, do modo que lhe aprouver. > > 2. Honrar Maria. Devemos reconhecer e honrar Maria como Mãe do nosso Deus e depois como nossa Mãe e Soberana, agradecer-lhe por ter honrado, glorificado e servido Jesus Cristo, seu Filho e nosso Senhor, referir a ela, depois de Deus, o nosso ser e a nossa vida, depender dela e pedir-lhe que nos guie em tudo o que diz respeito à nossa vida, dar-nos a ela e submeter-nos a ela como escravos, suplicando-lhe que tome pleno poder sobre nós, disponha de nós segundo o seu beneplácito para a glória do seu Filho e nos una a todo o amor e a todos os louvores que ela lhe tributou e lhe tributará ainda por toda a eternidade. É bom prestar-lhe essas homenagens todos os dias, e mais particularmente uma vez por semana ou ao menos uma vez por ano. […] > > 3. Vários modos de honrá-la. De muitos modos podemos e devemos honrar a Virgem digna de toda honra: com o pensamento e a reflexão, considerando a santidade da sua vida e a perfeição das suas virtudes, com as palavras, contentes de falar dela e de ouvir falar das suas grandezas, com as ações, realizando-as em honra e em união com as dela, com a imitação, empenhando-nos em imitar as suas virtudes, particularmente a humildade, a caridade, o amor puro, o desapego de todas as coisas e a pureza toda divina. O pensamento desta virtude deverá infundir em nós o desejo vivíssimo de fugir, temer e detestar com horror, mais do que a morte, tudo o que, por mínimo que seja, for contrário à pureza, em pensamentos, palavras e obras. Podemos, enfim, honrar a santa Virgem com orações e exercícios de piedade, como o rosário, que deve ser caro a todos os cristãos, e o ofício de Nossa Senhora, a recitar em comunhão com o amor e a devoção que Jesus teve para com ela, em honra da vida do seu Filho e da dela, das virtudes e ações de ambos […]. > > Mais uma palavra. Assim como todos os anos devemos honrar um mistério particular de Jesus, como se disse acima, assim é bom escolher cada ano, no dia da Assunção da santíssima Virgem, um dos seus mistérios para honrá-lo mais particularmente durante o ano. […]

As duas autoridades que Eudes invoca são estas, nas notas da edição italiana. De Santo Anselmo, na Oração 61 à bem-aventurada Maria: «Assim como, ó beatíssima, é necessário que pereça todo aquele que se afasta de ti e é por ti desprezado, assim é impossível que pereça todo aquele que se volta para ti e é por ti olhado». De São Boaventura: «Ele [Jesus] sem ela [Maria] não te salvará. Como a criança não pode viver sem a ama, assim também sem Nossa Senhora não podes receber a salvação» (DE FIORES e GAMBERO, 2003, p. 859, n. 1-2).

O segundo ponto deste texto, Maria nada por si mesma e tudo pelo Filho, é o centro da espiritualidade mariana de Eudes. O francês, citado por Barbé, diz: d’elle-même et par elle-même, elle n’est rien, mais son Fils Jésus est tout en elle. Il est son être, sa vie, sa sainteté, sa gloire, sa puissance et sa grandeur, «de si mesma e por si mesma ela não é nada, mas seu Filho Jesus é tudo nela. Ele é o seu ser, a sua vida, a sua santidade, a sua glória, o seu poder e a sua grandeza» (BARBÉ, 1954, p. 168).

Pai, doutor e apóstolo

O título com que a Igreja reconheceu o lugar de Eudes na história desta devoção é de Pio X, no breve de beatificação: Cuius ideo suavissimae religionis tum pater existimandus est, quippe qui usque ab instituta sacerdotum congregatione solemnia sacrorum eorundem Cordium inter suos filios celebranda curavit, tum doctor, nam propria Officia et Missam in eorum honorem composuit, tum denique apostolus, toto enim est pectore nisus, ut saluberrimus ipsorum cultus in quemcumque locum evulgaretur, «Por isso deve ser tido como pai desta suavíssima devoção, porque desde a fundação da congregação de sacerdotes cuidou de que as solenidades dos mesmos Sagrados Corações fossem celebradas entre os seus filhos, como doutor, porque compôs em honra deles ofícios e missa próprios, e por fim como apóstolo, porque se esforçou com todo o peito para que o seu saudabilíssimo culto se divulgasse em toda parte» (PIO X, 1909, p. 480). A fórmula voltou na sexta lição do Ofício de São João Eudes, estendido à Igreja universal em 1928: ejusdem cultus pater, doctor et apostolus habitus est, «foi tido como pai, doutor e apóstolo desse culto» (SACRA CONGREGATIO RITUUM, 1928, p. 235).

A bula de canonização narra a primeira festa: die octava februarii anni millesimi sexcentesimi quadragesimi octavi, perdurante sacra missione, in ecclesia cathedrali Augustodunensi, approbante Episcopo, Ioannes primitus hoc Sacrum peregit, «no dia 8 de fevereiro de 1648, durante uma santa missão, na catedral de Autun, com a aprovação do bispo, João celebrou pela primeira vez esta Missa» (PIO XI, 1925, p. 489). A festa já se celebrava dentro da congregação desde cerca de 1643, e Autun foi a sua primeira celebração pública, com missa e ofício próprios (ALONSO e SARTOR, 1985, p. 453). Em 1670, em Rennes, Eudes celebrou também a festa do Sagrado Coração de Jesus, e dois anos depois mandou que fosse celebrada em todas as casas da congregação (PIO XI, 1925, p. 489-490). Por isso o Nuovo dizionario di mariologia pode dizer que com ele se têm le prime feste liturgiche, con ufficio e messa propri, le prime opere sistematiche di storia, teologia e pietà, «as primeiras festas litúrgicas com ofício e missa próprios, as primeiras obras sistemáticas de história, teologia e piedade» sobre os Sagrados Corações (ALONSO e SARTOR, 1985, p. 447).

O eudista J. Arragain, no quinto tomo da obra Maria, observa que, na devoção ao Coração de Maria, a influência eudista se reconhece mais facilmente no padre Huby, em Margarida Maria Alacoque e no padre de Gallifet do que nos jesuítas La Colombière, Croiset e Pinamonti, que parecem inteiramente independentes dele (ARRAGAIN, 1958, p. 1015). E resume a sua contribuição: la première élaboration théologique du culte du Cœur de Marie, «a primeira elaboração teológica do culto do Coração de Maria» (ARRAGAIN, 1958, p. 1014).

Da Normandia à Igreja universal

Pio XII consagrou a Igreja e o gênero humano ao Coração Imaculado de Maria na mensagem radiofônica aos fiéis portugueses de 31 de outubro de 1942 e renovou a consagração a 8 de dezembro do mesmo ano (PIO XII, 1942, p. 318-319, 345-346). Para conservar a sua memória, o decreto da Sagrada Congregação dos Ritos de 4 de maio de 1944 estendeu à Igreja universal a festa do Imaculado Coração, die 22 Augusti, loco diei Octavae Assumptionis, «a 22 de agosto, no lugar do dia da Oitava da Assunção» (SACRA CONGREGATIO RITUUM, 1945, p. 51). A reforma litúrgica pós-conciliar reduziu a celebração a memória facultativa e a transferiu para o dia seguinte à solenidade do Sagrado Coração de Jesus (ALONSO e SARTOR, 1985, p. 454). A ligação entre os dois Corações, que Eudes tinha pensado e celebrado três séculos antes, ficou assim inscrita no próprio calendário da Igreja.

Referências

ALONSO, J. M. e SARTOR, D. Cuore immacolato. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, [1985]. p. 443-455.

ARRAGAIN, J. La dévotion au Cœur de Marie. In: DU MANOIR, Hubert (dir.). Maria: études sur la Sainte Vierge. t. 5. Paris: Beauchesne, 1958. p. 1007-1048.

BARBÉ, L. La Vierge dans la Congrégation de Jésus et Marie. In: DU MANOIR, Hubert (dir.). Maria: études sur la Sainte Vierge. t. 3. Paris: Beauchesne, 1954. p. 163-179.

DE FIORES, Stefano. Consacrazione. In: DE FIORES, Stefano. Maria. Nuovissimo dizionario. v. 1. Bologna: EDB, 2006.

DE FIORES, Stefano e GAMBERO, Luigi (org.). Testi mariani del Secondo Millennio. v. 5: Autori moderni dell’Occidente (secc. XVI-XVII). Roma: Città Nuova, 2003. «Giovanni Eudes (+1680)», p. 857-866. Trad. dos textos de Eudes por A. Rum.

EUDES, Jean. Œuvres complètes du Vénérable Jean Eudes. t. 7: Le Cœur admirable de la Très Sacrée Mère de Dieu, livres V-IX. Vannes: Lafolye Frères, 1907.

GLOTIN, Édouard. La Bible du Cœur de Jésus. Paris: Presses de la Renaissance, 2007. p. 538-552.

MILCENT, Paul. Jean Eudes (saint). In: Dictionnaire de spiritualité. t. 8. Paris: Beauchesne, 1974. col. 488-501.

PIO X. Litterae apostolicae Divinus Magister, 11 abr. 1909. Acta Apostolicae Sedis, Roma, v. 1, p. 477-482, 1909.

PIO XI. Litterae decretales de canonização de João Eudes, 31 maio 1925. Acta Apostolicae Sedis, Roma, v. 17, p. 482-497, 1925.

PIO XII. Nuntius radiophonicus ad Lusitaniae Christi fideles, 31 out. 1942, e Preghiera di consacrazione al Cuore Immacolato di Maria, 8 dez. 1942. Acta Apostolicae Sedis, [Cidade do Vaticano], v. 34, p. 313-319, 345-346, 1942.

SACRA CONGREGATIO RITUUM. Decretum Urbis et Orbis [Ofício e Missa de São João Eudes], 9 maio 1928. Acta Apostolicae Sedis, [Roma], v. 20, p. 234-236, 1928.

SACRA CONGREGATIO RITUUM. Officium et Missa pro festo Immaculati Cordis Beatae Mariae Virginis, 4 maio 1944. Acta Apostolicae Sedis, [Cidade do Vaticano], v. 37, p. 44-52, 1945.

WITTKEMPER, K. Eudes, Jean. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. St. Ottilien: EOS, [1989]. p. 411-412.

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