Litania lauretana (Ladainha de Loreto): história e adições magisteriais (1571-2020)

A Litania Lauretana (Ladainha de Loreto) é a oração mariana mais difundida da Igreja católica latina, com origens que remontam ao século XII e codificação oficial pelos papas a partir do século XVI. Ao longo dos séculos, vários papas adicionaram novas invocações que refletem o desenvolvimento da mariologia. Este post sintetiza a história e os critérios das adições magisteriais à Ladainha de Loreto.

TemaLitania Lauretana, história e desenvolvimento das invocações
OrigemLadainha de Loreto (Itália), séculos XII-XV
Aprovação oficialSisto V (bula Reddituri, 11 de julho de 1587)
Línguas oficiaisLatim (oficial). Traduções vernáculas autorizadas

História da ladainha de Loreto

Origens (séculos XII-XV)

A Litania Lauretana evoluiu de várias ladainhas medievais marianas, especialmente as recitadas no Santuário da Santa Casa de Loreto em Itália (transferida, segundo a tradição, da Palestina em 1294). O texto definitivo cristaliza-se nos séculos XV-XVI.

Aprovação oficial, Sisto V (1587)

Em 1571 (motu proprio de 20 de março), São Pio V reformou o Ofício da Bem-Aventurada Virgem Maria e suprimiu os ofícios marianos então em uso, com as orações que traziam, de modo que o novo Ofício saiu sem nenhuma ladainha. A aprovação formal da Ladainha de Loreto veio de Sisto V, pela bula Reddituri de 11 de julho de 1587, que recomendou aos pregadores que difundissem o seu uso entre os fiéis.

Estrutura tradicional da ladainha

A Ladainha de Loreto organiza-se em quatro grupos temáticos:

I. Invocações trinitárias

  • «Senhor, tende piedade» (Kyrie eleison)
  • «Cristo, ouvi-nos» / «Cristo, atendei-nos»
  • «Pai do Céu, que sois Deus, tende piedade de nós»
  • «Filho Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós»
  • «Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós»
  • «Santa Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós»

II. Invocações marianas maternais (Mater)

  • Santa Maria, Santa Maria
  • Santa Dei Genitrix, Santa Mãe de Deus
  • Santa Virgo virginum, Santa Virgem das virgens
  • Mater Christi, Mãe de Cristo
  • Mater Ecclesiae, Mãe da Igreja (adicionada em 1980)
  • Mater divinae gratiae, Mãe da graça divina
  • Mater misericordiae, Mãe de misericórdia (adicionada em 2020)
  • Mãe puríssima, Mãe puríssima
  • Mãe castíssima, Mãe castíssima
  • Mãe inviolada, Mãe inviolada
  • Mãe intemerata, Mãe intemerata
  • Mãe amável, Mãe amável
  • Mãe admirável, Mãe admirável
  • Mãe do bom conselho, Mãe do bom conselho
  • Mãe do Criador, Mãe do Criador
  • Mãe do Salvador, Mãe do Salvador
  • Mãe da esperança, Mãe da esperança (adicionada em 2020)

III. Invocações virginais (Virgo)

  • Virgem prudentíssima, Virgem prudentíssima
  • Virgem venerável, Virgem venerável
  • Virgem que se deve louvar, Virgem que se deve louvar
  • Virgem poderosa, Virgem poderosa
  • Virgem clemente, Virgem clemente
  • Virgem fiel, Virgem fiel

IV. Títulos tipológicos

  • Espelho da justiça, Espelho da justiça
  • Trono da sabedoria, Trono da sabedoria
  • Causa da nossa alegria, Causa da nossa alegria
  • Vaso espiritual, Vaso espiritual
  • Vaso honorável, Vaso honorável
  • Vaso insigne de devoção, Vaso insigne de devoção
  • Rosa mística, Rosa mística
  • Torre de David, Torre de David
  • Torre de marfim, Torre de marfim
  • Casa de ouro, Casa de ouro
  • Arca da Aliança, Arca da Aliança
  • Porta do céu, Porta do céu
  • Estrela da manhã, Estrela da manhã

V. Invocações da saúde e auxílio

  • Saúde dos enfermos, Saúde dos enfermos
  • Refúgio dos pecadores, Refúgio dos pecadores
  • Consolação dos migrantes, Consolação dos migrantes (adicionada em 2020)
  • Consoladora dos aflitos, Consoladora dos aflitos
  • Auxílio dos cristãos, Auxílio dos cristãos

VI. Invocações da realeza (Regina)

  • Regina Angelorum, Rainha dos Anjos
  • Regina Patriarcharum, Rainha dos Patriarcas
  • Regina Prophetarum, Rainha dos Profetas
  • Regina Apostolorum, Rainha dos Apóstolos
  • Regina Martyrum, Rainha dos Mártires
  • Regina Confessorum, Rainha dos Confessores
  • Regina Virginum, Rainha das Virgens
  • Regina Sanctorum omnium, Rainha de todos os Santos. Essa invocação ecoa a Solenidade de Todos os Santos, em 1º de novembro.
  • Regina sine labe originali concepta, Rainha concebida sem o pecado original (concedida por Pio IX à diocese de Malines em 1846 e generalizada depois de Ineffabilis Deus, de 1854)
  • Regina in caelum assumpta, Rainha assunta ao Céu (adicionada em 1950 após Munificentissimus Deus)
  • Regina sacratissimi Rosarii, Rainha do Santíssimo Rosário (de uso dominicano, impressa pela primeira vez num breviário dominicano de 1614, e prescrita para toda a Igreja por Leão XIII em 24 de dezembro de 1883)
  • Regina familiae, Rainha da Família (adicionada em 1995 por João Paulo II)
  • Regina pacis, Rainha da Paz (adicionada em 1917 por Bento XV durante a I Guerra Mundial)

Adições magisteriais cronológicas

AnoPapaInvocação adicionadaContexto
1846 / 1854Pio IXRegina sine labe originali conceptaConcedida à diocese de Malines (1846) e generalizada após Ineffabilis Deus (definição da Imaculada)
1883Leão XIIIRegina sacratissimi RosariiUso dominicano desde 1614, prescrita para toda a Igreja em 24 de dezembro de 1883
1903Leão XIIIMater boni consiliiDecreto de 22 de abril de 1903
1917Bento XVRegina pacisDurante a I Guerra Mundial
1950Pio XIIRegina in caelum assumptaApós Munificentissimus Deus (definição da Assunção)
1980João Paulo IIMater EcclesiaeApós a proclamação de Paulo VI em 1964
1995João Paulo IIRegina familiaeAno da Família
2020FranciscoMater misericordiae, Mater spei, Solacium migrantiumApós a pandemia de COVID-19 e Jubileu da Misericórdia

A ladainha como compêndio da mariologia

A Ladainha de Loreto é simultaneamente:

  1. Síntese teológica: cada invocação expressa uma verdade mariológica.
  2. Catálogo dogmático: cada novo dogma mariano (1854 Imaculada, 1950 Assunção) gerou nova invocação.
  3. Espelho do tempo: as adições contemporâneas (Mãe da Igreja, Rainha da Família, Mãe de misericórdia) refletem as preocupações pastorais do nosso tempo.
  4. Ecúmene mariana: o núcleo básico é comum a todos os ritos católicos e tem paralelos em ladainhas marianas ortodoxas.

Leitura complementar

Marialis Titulus 1980 – Mater Ecclesiae | Proclamação Mater Ecclesiae 1964 | São Pio V e o Rosário de Lepanto | Ineffabilis Deus | Munificentissimus Deus

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