Orações marianas: de onde vem cada uma e o seu texto latino

Orações marianas: Ave-Maria, Ângelus, Lembrai-vos, antífonas e Ladainha

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Gratiam tuam, quaesumus Domine, mentibus nostris infunde, ut qui, Angelo nuntiante, Christi Filii tui incarnationem cognovimus, per passionem eius et crucem ad resurrectionis gloriam perducamur.
«Infundi, Senhor, pedimos, a vossa graça em nossas mentes, para que, tendo conhecido pelo anúncio do Anjo a encarnação de Cristo, vosso Filho, sejamos conduzidos pela sua paixão e cruz à glória da ressurreição» (MANUALE DELLE INDULGENZE, 2008, p. 73)

Cada oração mariana tem a sua história, e as fontes nem sempre concordam sobre ela. A seguir, as orações que a Igreja nomeia, um quadro das origens e o Ângelus, o Memorare e a Ladainha de Loreto.

A lista que a Igreja nomeia

O Manuale delle indulgenze é a versão italiana do Enchiridion indulgentiarum, promulgado por decreto da Penitenciária Apostólica de 16 de julho de 1999. A concessão 17, «Preghiere alla Beatissima Vergine Maria», trata das orações à Virgem (MANUALE DELLE INDULGENZE, 2008, p. 71-76). O parágrafo 1 concede indulgência plenária a quem reza devotamente o Rosário em igreja ou oratório, em família, em comunidade religiosa ou em associação de fiéis, ou se une à recitação feita pelo Sumo Pontífice e transmitida pela televisão ou pelo rádio. O parágrafo 2 concede indulgência parcial a quem:

1. recita piamente o cântico Magnificat, 2. de manhã, ao meio-dia ou à tarde, recita o Angelus Domini, ou, no Tempo Pascal, a antífona Regina caeli, ou 3. dirige à Virgem uma oração aprovada, dada como exemplo: «Maria, Madre di grazia», o Ricordati (o Memorare), a Salve, Regina, «Santa Maria, soccorri i miseri» e «Sotto la tua protezione» (o Sub tuum praesidium).

A lista é exemplificativa, porque o texto diz «per esempio». Para a Alma Redemptoris Mater, a Ave Regina caelorum e o Ave maris stella, a versão italiana do Enchiridion não traz texto nem concessão própria.

De onde vem cada oração

OraçãoOrigem segundo as fontesDivergênciasPágina do site
Ave MariaSaudações de Lc 1,28 e Lc 1,42, unidas cedo na liturgia. Por volta de 1200, sínodos mandam que seja ensinada. Petições acrescentadas aparecem desde os séculos XIII-XIV, e a forma «Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus» está em breviários de 1514 (BÄUMER, SCHEFFCZYK, 1988-1994, v. 1, p. 309-311)Sínodos datados de 1195, 1197 e 1198. «Iesus» atribuído a Urbano IV, sem documentoAve Maria
MagnificatCântico de Lc 1,46-55, rezado nas Vésperas (INSTITUTIO GENERALIS, [s.d.], n. 50)Sem divergência registrada nas fontes consultadasMagnificat
Sub tuum praesidiumPapiro Rylands 470, em grego. Desde o século XII, antífona do Nunc dimittis no Pequeno Ofício (MAGGIONI, 2000, p. 125)Datação do papiro disputada, do século III ao VI-VIISub tuum praesidium
Ave maris stellaHino transmitido desde o século IX, em uso litúrgico desde o X (BÄUMER, SCHEFFCZYK, 1988-1994, v. 1, p. 317)A autoria de Ambrósio Autperto, proposta por Lausberg, é contestada por Weber (BÄUMER, SCHEFFCZYK, 1988-1994, v. 1, p. 317)Ave maris stella
Alma Redemptoris MaterManuscritos desde o século XII, talvez conhecida já na França carolíngia (BÄUMER, SCHEFFCZYK, 1988-1994, v. 1, p. 104)Atribuída a Hermano de Reichenau, o que o Marienlexikon chama de falso. Selner a dá a ele «beyond doubt», «sem dúvida» (SELNER, 1961, p. 403). Sloyan, no mesmo volume, só refere a nota de Migne (SLOYAN, 1961, p. 79)As antífonas marianas
Ave Regina caelorumDo século XII, na origem antífona de Noa da Assunção (BÄUMER, SCHEFFCZYK, 1988-1994, v. 1, p. 321)Autor desconhecido (SLOYAN, 1961, p. 85). Nenhuma das fontes consultadas a liga a São FranciscoAve Regina caelorum
Salve ReginaSéculo XI ou XII. Cluny por volta de 1135, dominicanos por volta de 1230, Gregório IX em 1239 (MAGGIONI, 2000, p. 134-135)Atribuída a Hermano Contrato, Ademar de Monteil, Pedro de Mezonzo e Bernardo de Claraval. Questão abertaSalve Rainha
Regina caeliAtestada por volta de 1200 em antifonário romano, de autor desconhecido (BÄUMER, SCHEFFCZYK, 1988-1994, verbete «Regina caeli», p. 436)Atribuída a Gregório V (996-998), ou de autor desconhecidoAs antífonas marianas
Ladainha de LoretoFormulário de Paris por volta de 1190-1200, ligado a Loreto no século XVI (BÄUMER, SCHEFFCZYK, 1988-1994, verbete «Lauretanische Litanei», p. 33-41)AnônimaSeção abaixo
MemorareAtestado no fim do século XV, parte de uma oração mais longa (ROUSSEAU, 2003, p. 484)Atribuído a São Bernardo por equívocoSeção abaixo
ÂngelusSaudação da tarde recomendada pelos franciscanos em 1263 (NUOVO DIZIONARIO, 1986, p. 29)João XXII em 1318 e 1327, ou só em 1327Seção abaixo
RosárioForma atual lançada por Alain de la Roche em 1470, sancionada por Pio V em 1569 (MAGGIONI, 2000, p. 147-148)Atribuído a São Domingos, sem comprovaçãoO Rosário

O Ângelus

O texto oficial é feito de três versículos com resposta, cada um seguido de uma Ave-Maria, de um quarto versículo, Ora pro nobis, sancta Dei Genetrix, com a resposta Ut digni efficiamur promissionibus Christi, e de uma oração final. O primeiro é V. Angelus Domini nuntiavit Mariae, R. Et concepit de Spiritu Sancto, «V. O Anjo do Senhor anunciou a Maria, R. e ela concebeu do Espírito Santo». O segundo é Ecce ancilla Domini, e o terceiro Et Verbum caro factum est. A oração final é a coleta Gratiam tuam, quaesumus Domine, do IV domingo do Advento (MANUALE DELLE INDULGENZE, 2008, p. 73). No Tempo Pascal, se reza o Regina caeli em lugar do Ângelus.

A origem exata não se conhece. Paulo VI disse: «non è facile stabilire come, dove e quando questa pia e popolare preghiera cominciò a diffondersi: essa sembra essere un fiore spontaneo della pietà medioevale», «não é fácil estabelecer como, onde e quando esta piedosa e popular oração começou a difundir-se: ela parece ser uma flor espontânea da piedade medieval» (PAULO VI, 1975, p. 504). Os passos documentados são estes. Em 1263, o capítulo franciscano de Pisa, presidido por São Boaventura, mandou exortar o povo a saudar Maria ao toque das Completas. João XXII louvou o uso em 1318 e o introduziu em Roma em 1327. A saudação do meio-dia se liga provavelmente à bula de Calisto III de 1456. Bento XIV, em 1742, mandou rezar o Regina caeli em lugar do Ângelus no Tempo Pascal (NUOVO DIZIONARIO, 1986, p. 29-31). Só no século XVII o Ângelus se impôs como observância geral (MAGGIONI, 2000, p. 146-148).

O Memorare

Eis a forma do De exorcismis et supplicationibus quibusdam, edição típica de 2005: Memorare, o piissima Virgo Maria, non esse auditum a saeculo quemquam ad tua recurrentem praesidia, tua implorantem auxilia, tua petentem suffragia esse derelictum. Ego tali animatus confidentia, ad te, Virgo virginum, Mater, curro, ad te venio, coram te gemens peccator assisto. Noli, Mater Verbi, verba mea despicere, sed audi propitia et exaudi, «Recorda, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer, desde sempre, que alguém que recorresse à tua proteção, implorasse o teu auxílio, pedisse o teu socorro, tenha sido abandonado. Animado por tal confiança, a ti, Virgem das virgens, Mãe, eu corro, a ti venho, diante de ti me apresento, pecador, gemendo. Não queiras, Mãe do Verbo, desprezar as minhas palavras, mas escuta com bondade e atende» (DE EXORCISMIS, 2005, p. 83).

A autoria é desconhecida, e a tradição manuscrita só pode ser seguida até o século XV. A oração aparece como parte de outra mais longa no Antidotarius animae de Nicolau Salicetus, de 1489, e entra também no Hortulus animae, de 1503 (ROUSSEAU, 2003, p. 484-485). A oração mais longa de que fazia parte começava «Ad sanctitatis tuae pedes, dulcissima Virgo Maria», «Aos pés da tua santidade, dulcíssima Virgem Maria» (ROSCHINI, 1958, p. 663). Quem a divulgou foi o «Pobre Padre» Claude Bernard (1588-1641), de Paris. O bispo Hefele supôs que a semelhança dos nomes levou a trocar o padre Bernard por São Bernardo de Claraval (ROUSSEAU, 2003, p. 485). Passagens dos sermões de Bernardo ecoam o tema, mas nenhuma se aproxima da letra do Memorare. Segundo Sloyan, «history cannot trace it back farther than the late fifteenth century», «a história não consegue fazê-la recuar além do fim do século XV» (SLOYAN, 1961, p. 80-81). A atribuição a São Bernardo é, portanto, um equívoco.

A Ladainha de Loreto

A edição de 1997 das Orationes traz o título Litaniae Lauretanae B. Mariae Virginis. Depois do Kyrie, eleison e das invocações à Trindade, vêm as invocações a Maria: Sancta Maria, ora pro nobis. Sancta Dei Genetrix, Sancta Virgo virginum, Mater Christi, Mater Ecclesiae, […] Ianua caeli, […] Auxilium christianorum, […] Regina familiae, Regina Pacis, «Santa Maria, rogai por nós. Santa Mãe de Deus, Santa Virgem das virgens, Mãe de Cristo, Mãe da Igreja, […] Porta do céu, […] Auxílio dos cristãos, […] Rainha da família, Rainha da Paz» (ORATIONES, 1997, p. 21). «Mater Ecclesiae» e «Regina familiae» já constam desta edição.

O essencial da história é este. A ladainha nasceu da ladainha de Todos os Santos, e o formulário mais antigo vem de Paris, por volta de 1190-1200. Segundo o Marienlexikon, «Auxilium christianorum» foi inserido oficialmente por Pio V depois de Lepanto (1571), mas já constava do impresso de Pedro Canísio de 1558. Clemente VIII, em 1601, proibiu qualquer alteração e o uso público de ladainhas não aprovadas. «Regina pacis» entrou por ordem de Bento XV, em carta de 5 de maio de 1917 (BÄUMER, SCHEFFCZYK, 1988-1994, verbete «Lauretanische Litanei», p. 33-41). A bula Reddituri, de Sisto V, de 1587, concedeu indulgências às ladainhas apenas aos Carmelitas Descalços (CALABUIG, PERRELLA, 2008, p. 133-137).

As outras orações, em poucas linhas

Ave Maria. A saudação do anjo é, em grego, χαῖρε, κεχαριτωμένη, ὁ κύριος μετὰ σοῦ, «Alegra-te, cheia de graça, o Senhor é contigo» (Lc 1,28, NESTLE, ALAND, [2012], p. 179). O nome «Maria» não está aí, é acréscimo da oração. A de Isabel, na Vulgata, é benedicta tu inter mulieres et benedictus fructus ventris tui, «bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre» (Lc 1,42, BIBLIA SACRA VULGATA, 2003, p. 869). A forma in mulieribus é a da oração. Ver Ave Maria.

Magnificat. O cântico de Maria é rezado todos os dias nas Vésperas (INSTITUTIO GENERALIS, [s.d.], n. 50). Ver Magnificat.

Sub tuum praesidium. Costuma ser chamado de oração mariana mais antiga, mas a datação do papiro é disputada. Lobel, citado por Giamberardini, não o põe depois do século III, e Giamberardini concorda, enquanto Roberts, editor do papiro, o levava à última parte do IV (GIAMBERARDINI, 1969, p. 348-349). Förster, citado por Shoemaker, o põe no VI-VII ou mais tarde, e Shoemaker defende o fim do III (SHOEMAKER, 2016, p. 68-72, 246). Ver Sub tuum praesidium.

Salve Regina. Autoria em aberto. Ver Salve Rainha.

As antífonas finais. Pela rubrica tradicional, a Alma Redemptoris Mater se rezava do Advento à Candelária, a Ave Regina caelorum da Candelária (2 de fevereiro) ao fim da Semana Santa, o Regina caeli no tempo pascal e a Salve Regina da Santíssima Trindade ao Advento. As fontes divergem sobre o último dia da Ave Regina: o Marienlexikon diz Quinta-feira Santa (BÄUMER, SCHEFFCZYK, 1988-1994, v. 1, p. 321), Sloyan diz Quarta-feira Santa (SLOYAN, 1961, p. 84). A Liturgia das Horas atual não fixa estações: no fim das Completas se diz uma das antífonas marianas, e no Tempo Pascal será sempre o Regina caeli (INSTITUTIO GENERALIS, [s.d.], n. 92). O Regina caeli é, portanto, antífona litúrgica. Ver As antífonas marianas e Ave Regina caelorum.

Ave maris stella. É hino, não antífona. Ver Ave maris stella.

Rosário. Ver O Rosário e A história do Rosário.

Referências

BÄUMER, Remigius, SCHEFFCZYK, Leo (Hrsg.). Marienlexikon. St. Ottilien: EOS, 1988-1994. 6 v. V. 1: AA-Chagall, 1988, verbetes «Alma redemptoris mater» (p. 104), «Ave Maria» (p. 309-311), «Ave maris stella» (p. 317), «Ave, regina coelorum» (p. 321). Verbetes «Lauretanische Litanei» (p. 33-41) e «Regina caeli» (p. 436).

BIBLIA SACRA VULGATA. The Holy Bible: Vulgate translation. [S.l.: s.n.], 2003. Edição eletrônica sem pontuação.

CALABUIG, Ignazio M., PERRELLA, Salvatore M. Le litanie della Beata Vergine: storia, teologia, significato. Marianum, Roma, v. 70, n. 173-174, p. 133-137, 2008.

DE EXORCISMIS ET SUPPLICATIONIBUS QUIBUSDAM. Editio typica altera. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2005.

GIAMBERARDINI, Gabriele. Il «Sub tuum praesidium» e il titolo «Theotokos» nella tradizione egiziana. Marianum, Roma, v. 31, p. 324-362, 1969.

INSTITUTIO GENERALIS DE LITURGIA HORARUM. [Edição consultada, dados não confirmados]. [s.l.]: [s.n.], [s.d.].

MAGGIONI, Corrado. Benedetto il frutto del tuo grembo: due millenni di pietà mariana. Casale Monferrato: Portalupi, 2000.

MANUALE DELLE INDULGENZE: norme e concessioni. 4. ed. (reimpr.). Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2008. (Versão italiana do Enchiridion indulgentiarum, 1999).

NESTLE, Eberhard, ALAND, Kurt. Novum Testamentum Graece. 28. ed. [Stuttgart]: [Deutsche Bibelgesellschaft], [2012].

NUOVO DIZIONARIO DI MARIOLOGIA. DE FIORES, Stefano, MEO, Salvatore (a cura di). 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. Verbete «Angelus» (MAGGIANI, S.), p. 25-36.

ORATIONES. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1997.

PAULO VI. [Alocução do Angelus], 15 ago. 1975. Marianum, Roma, v. 37, p. 504, 1975. (Documenta Magisterii Ecclesiastici. Texto de L’Osservatore Romano, 18-19 ago. 1975).

ROSCHINI, Gabriel M. La Madre de Dios según la fe y la teología. 2. ed. española preparada por Eduardo Espert. Madrid: Editorial Apostolado de la Prensa, 1958. v. 2.

ROUSSEAU, M. I. J. Memorare. In: NEW CATHOLIC ENCYCLOPEDIA. 2. ed. Farmington Hills: Gale, 2003. v. 9, p. 484-485.

SELNER, John C. Our Lady in music. In: CAROL, Juniper B. (ed.). Mariology. Milwaukee: Bruce, 1961. v. 3, p. 403.

SHOEMAKER, Stephen J. Mary in early Christian faith and devotion. New Haven: Yale University Press, 2016.

SLOYAN, Gerard S. Marian prayers. In: CAROL, Juniper B. (ed.). Mariology. Milwaukee: Bruce, 1961. v. 3, p. 79-85.

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