A Apresentação do Senhor (Lc 2,21-40)

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Nunc dimittis servum tuum Domine secundum verbum tuum in pace, quia viderunt oculi mei salutare tuum.
«Agora, Senhor, deixas o teu servo partir em paz, segundo a tua palavra, porque os meus olhos viram a tua salvação» (Lc 2,29-30)
Lucas conta que, quarenta dias depois do nascimento, Maria e José levaram o Menino ao Templo de Jerusalém. A cena, que a liturgia celebra em 2 de fevereiro, reúne três ritos da lei de Moisés, o encontro com Simeão e Ana e uma profecia sobre a Mãe que marcou toda a tradição cristã. Este artigo segue o texto de Lucas e as suas leituras, com o auxílio sobretudo dos estudos do servita Aristide Serra.
Três ritos da lei
O texto de Lc 2,21-24 reúne três costumes distintos (SERRA, 1986, p. 261).
O primeiro é a circuncisão, ao oitavo dia (Lv 12,3). Nessa ocasião o Menino recebeu o nome de Jesus, que o anjo tinha indicado (Lc 2,21).
O segundo é o resgate do primogênito. Todo primeiro filho varão pertencia ao Senhor, em memória da noite em que Deus fez morrer os primogênitos do Egito: «sanctifica mihi omne primogenitum quod aperit vulvam in filiis Israhel […]», «consagra-me todo primogênito que abre o seio materno entre os filhos de Israel […]» (Ex 13,2). Como só os levitas ficavam a serviço do santuário (Nm 3,12, 8,16-18), os outros primogênitos eram resgatados, a partir de um mês de idade, por cinco siclos de prata (Nm 18,15-16).
O terceiro é a purificação da mãe. A lei previa que a mulher que dera à luz um filho varão ficasse em estado de impureza legal durante quarenta dias, sete mais trinta e três, e não podia tocar em nada sagrado nem entrar no santuário. Depois oferecia um cordeiro de um ano em holocausto e um pombinho ou uma rola pelo pecado. Se fosse pobre, «sumet duos turtures vel duos pullos columbae», «tomará duas rolas ou dois pombinhos» (Lv 12,2-8). Serra explica que, na mentalidade do tempo, o sangue era a sede da vida e pertencia a Deus, e qualquer perda de sangue, incluindo a do parto, deixava a mulher «impura», isto é, não em perfeita comunhão com Deus (SERRA, 2020, p. 358-359).
Lucas diz que os pais ofereceram «par turturum aut duos pullos columbarum», «um par de rolas ou dois pombinhos» (Lc 2,24), a oferta que a lei previa para quem não podia dar um cordeiro. O Concílio Vaticano II diz que Maria apresentou o Filho no Templo «dono pauperum oblato», «com a oferta dos pobres» (Lumen gentium 57), e Serra chama-lhe «l’offerta dei poveri» (SERRA, 2020, p. 359). Raymond Brown lembra, porém, que não sabemos se essa alternativa ainda era prática corrente no tempo de Jesus (BROWN, 1993, p. 448, nota 12).
As imprecisões de Lucas
O relato tem algumas particularidades que os exegetas discutem. Lucas fala da purificação «deles», «τοῦ καθαρισμοῦ αὐτῶν» (Lc 2,22), quando a lei só a exigia à mãe. A Vulgata lê «purgationis eius», mas Brown mostra que «deles» é a lição mais bem atestada e que «dela» e «dele» são tentativas de copistas de corrigir o texto (BROWN, 1993, p. 436). Lucas liga as aves ao resgate, quando pertenciam à purificação da mãe, e não menciona os cinco siclos (SERRA, 1986, p. 261-262).
Brown conclui que o resultado é «a strange combination of a general knowledge of Judaism with an inaccurate knowledge of details», «uma estranha combinação de um conhecimento geral do judaísmo com um conhecimento inexato dos pormenores» (BROWN, 1993, p. 448-449). Outros autores procuram razões teológicas. Para René Laurentin, a «purificação deles» refere-se a todo o povo de Israel, que esperava a sua libertação. Os evangelhos usam às vezes «deles» para falar dos judeus, como nas «sinagogas deles» (Mc 1,39, Mt 4,23, 9,35, 10,17, 13,54) (SERRA, 1986, p. 262). Outros, como Brown, veem por trás do relato a história de Samuel, que Elcana e Ana levaram ao santuário de Siló para o consagrar ao Senhor (1Sm 1,24-28), e de quem se diz que crescia e agradava a Deus e aos homens (1Sm 2,26), como depois se diz de Jesus (Lc 2,40 e 2,52). A diferença é que Samuel fica no santuário e Jesus volta com os pais para Nazaré (SERRA, 1986, p. 262, BROWN, 1993, p. 450).
Uma oferta ao Senhor
Lucas não diz que Jesus foi resgatado. Diz que os pais o levaram a Jerusalém «ut sisterent eum Domino», «para o apresentar ao Senhor» (Lc 2,22). Serra observa que nenhum documento obrigava a fazer o resgate no Templo, que o pai podia fazê-lo junto de qualquer sacerdote, e que o silêncio do evangelista sobre o preço «pare sia intenzionale», «parece ser intencional»: Lucas quereria dizer que Jesus fica para sempre consagrado a Deus. Mais do que um primogênito a resgatar, o Menino aparece como uma oferta apresentada ao Senhor, e o gesto de Maria tem o valor de uma consagração do Filho, à qual ela se associa (SERRA, 2020, p. 360-361).
É uma leitura sugestiva, e Serra apresenta-a como hipótese. Brown pensa, ao contrário, que os cinco siclos se pagavam no santuário, embora não houvesse obrigação de levar a criança (BROWN, 1993, p. 447), e julga que reflexões deste tipo podem convir à teologia cristã posterior, mas dificilmente correspondem à intenção de Lucas (BROWN, 1993, p. 449).
Simeão
Em Jerusalém vivia Simeão, «homo iste iustus et timoratus expectans consolationem Israhel, et Spiritus Sanctus erat in eo», «homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele» (Lc 2,25). O Espírito revelara-lhe que não morreria sem ver o Cristo do Senhor. Movido pelo Espírito, veio ao Templo, tomou o Menino nos braços e bendisse a Deus com o cântico que a Igreja reza todas as noites nas Completas: «Νῦν ἀπολύεις τὸν δοῦλόν σου, δέσποτα, κατὰ τὸ ῥῆμά σου ἐν εἰρήνῃ», «agora, Senhor, deixas o teu servo partir em paz, segundo a tua palavra» (Lc 2,29). O velho servo pode partir porque viu a salvação que Deus preparou diante de todos os povos, «luz para iluminar as nações e glória de Israel, teu povo» (Lc 2,32).
A espada
Depois Simeão volta-se para Maria: «ecce positus est hic in ruinam et resurrectionem multorum in Israhel et in signum cui contradicetur, et tuam ipsius animam pertransiet gladius, ut revelentur ex multis cordibus cogitationes», «eis que este menino está posto para queda e ressurreição de muitos em Israel e para sinal de contradição, e a ti mesma uma espada trespassará a alma, para que se revelem os pensamentos de muitos corações» (Lc 2,34-35). Serra vê neste oráculo um presságio, logo no início do Evangelho, da contradição que Jesus vai provocar no seu ministério (SERRA, 1986, p. 264).
Que espada é esta? Os Padres responderam de modos diferentes, e Serra distingue as tradições do Oriente e do Ocidente (SERRA, 2020, p. 376-380). No Oriente, a maior parte dos autores fez da espada a palavra de Deus, que penetra até o íntimo (Hb 4,12). Orígenes, nas homilias sobre Lucas que conhecemos pela tradução latina de São Jerônimo, aplicou-a à palavra de Jesus sobre o escândalo dos apóstolos na Paixão (Mt 26,31), e chegou a dizer que também a Maria «pertransibit infidelitatis gladius», «a espada da infidelidade a atravessará», e «ambiguitatis mucrone ferieris», «serás ferida pela ponta da dúvida» (ORÍGENES, In Lucam homiliae 17, em ALVAREZ CAMPOS, 1970, p. 82). No Ocidente, Santo Ambrósio é o representante mais autorizado da leitura da espada como palavra de Deus, alargada a toda a vida de Maria, e corrige Orígenes. Vários autores latinos juntam a palavra e a dor, e a dor da Mãe junto da Cruz tornou-se o «simbolismo principe», o símbolo principal (SERRA, 2020, p. 376-379). Santo Agostinho escreve que a Paixão do Senhor, «quae multis ruina fuit […]», «que foi ruína para muitos […]», «et ipsam eius matrem graviter carnali orbitate percussam sine dubio contristavit», «sem dúvida entristeceu também a sua própria mãe, ferida gravemente pela perda carnal» (AGOSTINHO, Enarrationes in Psalmos 104, 13, PL 37, 1397).
Serra prefere ver na espada a palavra de Deus, mas sem excluir as outras leituras: a palavra do Filho atravessa toda a vida de Maria e chega ao auge no Calvário, e por isso não se pode restringir a profecia à compaixão junto da Cruz (SERRA, 1986, p. 265-266). Ele próprio sublinha que uma parte da tradição uniu as duas leituras, palavra de Deus e dor da Mãe (SERRA, 2020, p. 378-380).
A leitura da espada como dor materna foi um dos pontos de partida da devoção medieval às Sete Dores de Maria, cuja lista começa pela profecia de Simeão. Essa devoção não é patrística: formou-se entre os séculos XII e XV, precisada sobretudo pelos Servos de Maria (MAGGIONI, 2000, p. 168), e o primeiro documento explícito de uma festa litúrgica da Senhora das Dores é o decreto do sínodo provincial de Colônia, de 2 de abril de 1423 (ROSCHINI, [1969?], p. 351-352).
Ana
Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Depois de sete anos de casamento ficara viúva, «et haec vidua usque ad annos octoginta quattuor», «e permanecia viúva até os oitenta e quatro anos», e não se afastava do Templo, servindo a Deus noite e dia com jejuns e orações (Lc 2,36-37). O texto deixa em aberto se Ana tinha oitenta e quatro anos ou se estava viúva há oitenta e quatro anos (CRIMELLA, 2015, p. 84). Chegando naquela mesma hora, dava graças a Deus e falava do Menino «omnibus qui expectabant redemptionem Hierusalem», «a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém» (Lc 2,38).
A festa de 2 de fevereiro
A festa nasceu em Jerusalém. A peregrina Egéria, por volta de 380, conta que ali se celebrava com grande solenidade o quadragésimo dia depois da Epifania, e que todos os presbíteros e o bispo pregavam «de eo loco tractantes evangelii ubi quadragesima die tulerunt Dominum in templo Ioseph et Maria et viderunt eum Symeon vel Anna prophetissa filia Fanuhel», «sobre a passagem do Evangelho em que, ao quadragésimo dia, José e Maria levaram o Senhor ao Templo e o viram Simeão e a profetisa Ana, filha de Fanuel» (EGÉRIA, 1991, p. 172). Como a Epifania era então a festa do Natal em Jerusalém, a celebração caía em 14 de fevereiro.
No Oriente a festa recebeu o nome de Hypapante, o «Encontro» do Senhor com Simeão. Chegou a Constantinopla sob Justiniano e a Roma pouco antes de meados do século VII. No Ocidente tornou-se a Purificatio sanctae Mariae, e o papa Sérgio I (687-701) estendeu a outras três festas marianas a procissão que já se fazia nesta (MONTAGNA, 1962, p. 94-97). A bênção das velas, ligada ao nome popular de Candelária, só aparece entre o fim do século IX e o princípio do X, embora as velas acesas na procissão romana sejam anteriores (MEAOLO, 1986, p. 1150-1151). Com o Missal Romano reformado e promulgado por Paulo VI em 1969, a festa recebeu de novo o nome de Apresentação do Senhor, porque o centro do Evangelho é Cristo apresentado no Templo (SERRA, 2020, p. 358 e 362).
Referências
AGOSTINHO DE HIPONA. Enarrationes in Psalmos 104. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Latina. Paris: J.-P. Migne, 1845. v. 37, col. 1397.
ALVAREZ CAMPOS, Sergio (ed.). Corpus Marianum Patristicum. Burgos: Ediciones Aldecoa, 1970. v. 1, p. 82.
BROWN, Raymond E. The birth of the Messiah: a commentary on the infancy narratives in the Gospels of Matthew and Luke. New updated edition. New York: Doubleday, 1993. (Anchor Bible Reference Library).
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Lumen gentium, n. 57. Acta Apostolicae Sedis, v. 57, p. 5-75, 1965.
CRIMELLA, Matteo. Luca: introduzione, traduzione e commento. Cinisello Balsamo: San Paolo, 2015. (Nuova versione della Bibbia dai testi antichi).
EGÉRIA. Pellegrinaggio in Terra Santa: itinerarium Egeriae. Organização de Nicoletta Natalucci. Firenze: Nardini, 1991. (Biblioteca Patristica).
MAGGIONI, Corrado. Benedetto il frutto del tuo grembo: due millenni di pietà mariana. Casale Monferrato: Portalupi, 2000.
MEAOLO, G. Presentazione del Signore. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo Dizionario di Mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 1148-1155.
MONTAGNA, Davide M. La liturgia mariana primitiva: saggio di orientamento. Marianum, Roma, v. 24, n. 1-2, p. 84-128, 1962.
ROSCHINI, Gabriele M. Maria Santissima nella storia della salvezza. Isola del Liri: Tipografia Editrice M. Pisani, [1969?]. v. 4: Il culto mariano.
SERRA, Aristide. Bibbia. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo Dizionario di Mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 231-311.
SERRA, Aristide. Testimonianze bibliche su Maria di Nazaret. Sotto il Monte: Servitium, 2020.
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