Maria medianeira de todas as graças: o que o título significa e o que as fontes dizem
Maria medianeira de todas as graças é o título que afirma que toda graça concedida por Deus aos homens chega acompanhada da intercessão da Virgem. Não é uma quarta pessoa entre Deus e o homem, e as próprias obras que o defendem tratam-no como mediação subordinada à única mediação de Cristo. Nenhuma das fontes da biblioteca da Locus o apresenta como dogma definido.
É um título antigo, com um clássico em português que lhe deu nome, e continua a ser discutido pela teologia contemporânea. Este artigo mostra o que ele afirma, desde quando é usado, que texto de magistério o sustenta, e apresenta também as objeções, incluindo a de Lutero, que atacou a raiz da questão.
O que significa Maria medianeira de todas as graças?
O sentido do título está fixado na obra que lhe deu nome em português: José María Bover, jesuíta, «Maria medianeira de todas as graças», na tradução de Manuel Baptista, publicada pela Livraria Apostolado da Imprensa, no Porto, em 1957. O opúsculo traz o «Imprimi potest» de Lisboa, de 1 de abril de 1956, assinado por Josephus Craveiro, provincial dos jesuítas em Portugal, e a licença «Pode imprimir-se», do Porto, de 18 de abril de 1956, de Mons. Pereira Lopes, vigário-geral. São dados de edição, mas dizem alguma coisa: o título tinha aprovação eclesiástica formal em meados do século XX.
Bover explica no prólogo por que insiste no assunto: «Muitas e admiráveis são as prerrogativas que se enlaçam na auréola da Mãe de Deus, cimentadas todas na sua única, suprema, e em certo modo infinita dignidade; mas parece que essa auréola não refulge tanto, e uma sombra lhe anuvia o resplendor, se a não esmalta com seus fulgores o excelso apanágio da mediação universal.» A mediação, para ele, não é um acréscimo devocional, é o que dá unidade às outras prerrogativas.
E explica em que sentido a chama universal. Universal, primeiro, quanto às pessoas, porque o seu influxo se estende a todos. Bover cita a esse propósito o Idiota, no prólogo do «De contemplatione Virginis»: «assim como de todos é Rainha, assim de todos é Advogada e Protectora, e de todos tem cuidado». E São Bernardo: «A extensão da sua misericórdia cinge toda a terra». Universal, depois, quanto aos bens, porque «por ela, nela, com ela, e dela tem e há-de ter o mundo todo o bem».
O fundamento último que o autor invoca é tomista. Em nota, cita Tomás de Aquino: «Beata Virgo ex hoc quod est Mater Dei, habet quandam dignitatem infinitam, ex bono infinito quod est Deus» (Suma Teológica, I, q. 25, a. 6, ad 4), isto é, à letra: a bem-aventurada Virgem, por ser Mãe de Deus, tem uma certa dignidade infinita, a partir do bem infinito que é Deus. Note-se o «quandam», uma certa: Tomás qualifica, não absolutiza.
Desde quando Maria é chamada medianeira de todas as graças?
Áurea Silva dos Santos, em «O papel da Virgem Maria na economia da salvação» (2024), situa o desenvolvimento do título no Oriente patrístico e bizantino. Segundo a autora, os atributos de medianeira de todas as graças e de mãe espiritual dos homens «ressaltaram-se durante esse período com expressivo dinamismo», no tempo dos teólogos que ela nomeia com as respetivas datas: Germano de Constantinopla (740), André de Creta (740) e sobretudo João Damasceno (749).
A mesma autora faz uma observação que responde a uma pergunta muito procurada: o atributo da mediação «não estivesse ligado a nenhuma festa litúrgica particular», embora o seu desenvolvimento tenha coincidido com as celebrações marianas. Ou seja, ao contrário da Imaculada Conceição ou da Assunção, a mediação universal não nasceu de uma festa. Há indícios, acrescenta, de que a mediação da Virgem tenha sido reconhecida em tempos mais remotos, pelo papel de intermediária que exerceu entre Deus e os homens na encarnação do Verbo.
É dogma? O que o magistério efetivamente disse
O texto de magistério mais forte que a biblioteca documenta é a bula «Ineffabilis Deus», de Pio IX, de 1854, com a qual foi definida a Imaculada Conceição. Ao exprimir a esperança que deposita na Virgem, o papa chama-lhe, no elenco de títulos que acumula, «Medianeira sobre todas poderosa do universo inteiro» junto do seu Filho Unigénito. O volume «De cultu mariano saeculis XIX et XX», que reproduz a passagem, comenta que a partir da definição de 1854 Maria aparece à Igreja como cooperadora de Cristo na obra da redenção e medianeira de todas as graças.
É preciso ser exato quanto ao alcance disto. A bula de 1854 define a Imaculada Conceição, não a mediação. O título aparece nela como invocação, dentro de um elogio, e não como objeto da definição. Nenhuma das obras consultadas apresenta a mediação universal como dogma definido, e é justamente essa a distinção que o leitor apressado costuma perder.
As objeções: de Lutero ao debate contemporâneo
A objeção mais antiga ataca a raiz. Martinho Lutero, na «Explicação da Ave-Maria» (edição de 1979 na biblioteca), sustenta que a saudação angélica não é uma invocação. Escreve que «não é apropriado estender demais essas palavras além do que elas significam claramente» e propõe dois sentidos legítimos: «(1) como uma contemplação, vendo as graças que Deus lhe concedeu; (2) como um assombro nosso diante do fato de que ela é colocada acima de todas as outras criaturas.» Contemplação e assombro, portanto, mas não pedido. Quem defende a mediação universal tem de responder a isto, e não apenas repetir o título.
A objeção contemporânea é outra e vem de dentro da teologia católica. Lenice Heloísa da Silva Arruda e Fernando Ferreira Cesar, ao estudarem a função salvífica de Maria, observam que o uso da categoria de mediação em termos absolutos «é, portanto, contestado pelo confronto com as religiões, que sustentam a existência de outras mediações», e que esse debate abre uma frente de problematização no discurso mariológico «especialmente se forem expressas fórmulas de extensão universal, como Maria “mediadora de todas as graças”». A dificuldade, nesta leitura, não é a devoção, é a extensão absoluta da fórmula.
Confrontadas, as duas posições delimitam bem o terreno. Bover afirma a mediação universal e chama-lhe expressamente uma prerrogativa da Mãe de Deus. Arruda e Cesar não a negam, assinalam que a formulação universal é o ponto atacado no diálogo inter-religioso. As fontes da biblioteca, portanto, não falam a uma só voz, e o artigo honesto tem de o dizer.
Como a devoção recebeu o título
Na piedade, o título entrou pela oração antes de entrar pelo tratado. São Luís Maria Grignion de Montfort, no «Ato de Consagração a Nossa Senhora», dirige-se a Cristo dizendo: «Recorro, pois, à intercessão e à misericórdia de Vossa Mãe Santíssima, que me destes por medianeira junto de Vós.» A estrutura é exata e vale a pena notá-la: o pedido é dirigido a Jesus, e Maria é dada por Ele como medianeira. Não há substituição, há ordem.
O próprio livro de Bover termina com uma «Ladainha da Santíssima Virgem Medianeira de todas as graças», em latim e português, o que explica por que tantos leitores procuram hoje uma oração com esse nome. E João Marcos de Oliveira Silva, num estudo sobre a relação entre assembleianos e Maria de Nazaré (2019), regista que entre os títulos populares da Virgem estão «Rainha», «Mãe», «Medianeira», «Advogada», «Esperança» e «Consolação», e recorda que na liturgia de São João Crisóstomo, usada nas igrejas ortodoxas na maior parte do ano, a Virgem é invocada várias vezes. O título não é uma curiosidade ocidental.
Para continuar, veja Maria corredentora e medianeira, o estudo sobre a maternidade espiritual de Maria e a mediação, a questão quem distribui a graça, Maria ou o Espírito Santo e o artigo sobre Maria e sua intercessão.
Perguntas frequentes
O que significa Maria medianeira de todas as graças?
Significa que toda graça que Deus concede aos homens chega acompanhada da intercessão de Maria. José María Bover chama-lhe mediação universal em dois sentidos: quanto às pessoas, porque se estende a todos, e quanto aos bens, porque «por ela, nela, com ela, e dela tem e há-de ter o mundo todo o bem».
Maria medianeira de todas as graças é dogma?
Nenhuma das obras consultadas o apresenta como dogma definido. Pio IX chama à Virgem «Medianeira sobre todas poderosa do universo inteiro» na bula «Ineffabilis Deus» (1854), mas o que essa bula define é a Imaculada Conceição, não a mediação.
Por que Maria é chamada medianeira de todas as graças?
Pela maternidade divina. Bover apoia-se em Tomás de Aquino, para quem a Virgem, por ser Mãe de Deus, «habet quandam dignitatem infinitam», tem uma certa dignidade infinita a partir do bem infinito que é Deus (Suma Teológica, I, q. 25, a. 6, ad 4).
Existe uma festa de Maria medianeira de todas as graças?
Áurea Silva dos Santos observa que o atributo da mediação não esteve ligado a nenhuma festa litúrgica particular, ao contrário da Imaculada Conceição e da Assunção, ainda que o seu desenvolvimento tenha coincidido com as celebrações marianas.
Existe uma oração a Maria medianeira de todas as graças?
Sim. O opúsculo de José María Bover inclui uma ladainha da Santíssima Virgem Medianeira de todas as graças. E São Luís Maria Grignion de Montfort, no ato de consagração, dirige-se a Cristo dizendo que recorre à Mãe «que me destes por medianeira junto de Vós».
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Este artigo nasce das obras da biblioteca da Locus Mariologicus. A Pós-Graduação em Mariologia leva-o à mesma fonte, com acompanhamento académico: Escritura, Padres da Igreja e Magistério, do primeiro dogma às questões contemporâneas.
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