«Nolite tollere quidquam in via»: Padre Pio, o alimento necessário e a bagagem de Maria

Nolite tollere quidquam in via. […] Da mihi nec mendicitatem nec divitias, tribue tantum victum necessarium.
Lc 9,3 e Pr 30,8
A quarta-feira da Semana XXV do Tempo Comum, dia em que a Igreja celebra a memória de são Pio de Pietrelcina, junta uma oração antiga sobre o suficiente e um mandato de missão sem bagagem. Agur, o sábio dos Provérbios, pede a Deus que não lhe dê nem pobreza nem riqueza, apenas o alimento necessário. Jesus envia os Doze sem cajado, sem alforge, sem pão e sem dinheiro. Um texto pede a medida justa. O outro tira ao missionário até essa medida.
I. A primeira leitura: Pr 30,5-9
O trecho começa por um princípio sobre a Palavra e termina numa oração pessoal, e as duas partes estão ligadas. «Toda a palavra de Deus é comprovada, é um escudo para quem nele se refugia» (v.5), diz o sábio, e acrescenta imediatamente a advertência: «não acrescentes nada às suas palavras» (v.6). A tentação religiosa mais antiga não é abandonar a revelação, é aumentá-la, juntando-lhe exigências e certezas que ela não deu.
Vem depois uma das poucas orações pessoais do livro, e é notável pela sua modéstia calculada. «Duas coisas vos peço, Senhor» (v.7). A primeira é a verdade, «afastai de mim a fraude e a mentira». A segunda é a medida material: «não me deis pobreza nem riqueza, concedei-me apenas o alimento necessário» (v.8). E o motivo não é o conforto, é a lucidez sobre si mesmo: na abundância, poderia renegar a Deus perguntando «afinal, quem é o Senhor?», e na miséria poderia roubar e profanar o nome de Deus (v.9). Agur conhece as duas ameaças e sabe que a segunda não o torna mais virtuoso do que a primeira. A pobreza não santifica automaticamente. Também tenta.
II. O evangelho: Lc 9,1-6
Jesus dá aos Doze «poder e autoridade sobre todos os demônios e para curarem todas as doenças» (v.1) e, logo a seguir, retira-lhes tudo o resto. A lista das proibições é minuciosa: «nem cajado, nem alforge, nem pão, nem dinheiro, e não leveis duas túnicas» (v.3). Nenhuma dessas coisas era supérflua para quem andava a pé pela Galileia. O cajado servia para o caminho e para os cães, a túnica sobressalente servia para as noites frias.
A instrução seguinte é igualmente prática. «Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali» (v.4), o que proíbe a procura de melhor hospedagem e obriga o missionário a aceitar aquilo que primeiro lhe for dado. E o gesto final, sacudir o pó dos pés diante de quem não recebe (v.5), não é uma maldição, é uma constatação. Nem tudo depende do enviado. Há recusas diante das quais a única resposta é seguir caminho.
O sentido de todo este despojamento é claro. Quem chega sem nada depende de quem o recebe, e essa dependência é parte da mensagem. Um enviado autossuficiente anunciaria um Reino que não precisa de ninguém.
III. Padre Pio e o alimento necessário
A memória de hoje encaixa nestas leituras melhor do que parece. Francesco Forgione (1887-1968), capuchinho de Pietrelcina, é conhecido pelos fenômenos extraordinários que acompanharam a sua vida, e é precisamente por isso que convém olhar para o que ele fazia todos os dias. Passava horas seguidas no confessionário, celebrava a Missa, e fundou em San Giovanni Rotondo uma casa de alívio para os doentes. Foi canonizado por João Paulo II em 2002.
Há um dado que interessa mais do que os prodígios. Durante anos foi proibido de celebrar publicamente e de confessar, por decisão da própria autoridade eclesiástica que investigava os fenômenos, e obedeceu sem se defender. É o gesto de quem sacode o pó dos pés sem amargura, e é a única prova sólida de que aquilo que lhe acontecia vinha de Deus. Os dons extraordinários não se verificam pela sua espetacularidade, verificam-se pela obediência de quem os recebe. Agur pedia para não ter demais nem de menos. Padre Pio recebeu muito e viveu como se não tivesse nada.
IV. Maria, a que só levou o necessário
A oração de Agur encontra na Escritura uma realização que a devoção nem sempre associa a ela. Quando Maria e José apresentam o Menino no Templo, oferecem «um par de rolas ou dois pombinhos» (Lc 2,24), que era a oferta prevista na Lei para quem não podia pagar um cordeiro. Não é uma pobreza escolhida por ascese, é a condição real de uma família de artesãos, e Lucas registra-a sem comentário.
Maria pertence àquilo a que o Concílio chama os humildes e pobres do Senhor, que dele esperam confiadamente a salvação (LG 55). Não teve riqueza que a fizesse perguntar «quem é o Senhor?», nem miséria que a levasse a profanar o seu nome. Teve o alimento necessário, e cantou por isso: «encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias» (Lc 1,53). É a oração de Agur transformada em cântico, com uma diferença decisiva. Agur pede para ser poupado às duas tentações. Maria anuncia que Deus já está a inverter a ordem que as produz.
E há o mandato de partir sem bagagem. Lucas mostra-a a levantar-se e a ir apressadamente para a montanha logo depois da Anunciação (Lc 1,39), sem que o texto mencione preparativos. Depois em Belém, sem casa. Depois no Egito, sem pátria. Depois em Nazaré, sem nome. A vida inteira dela é o itinerário de quem não levou cajado nem alforge, e chegou onde tinha de chegar.
A quarta-feira da Semana XXV deixa portanto uma pergunta desconfortável para quem já tem tudo organizado. O que é que, na nossa vida, existe sobretudo para nos dispensar de depender de alguém? Porque é provavelmente isso que Jesus mandaria deixar em casa.
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