A sentinela, o amor e a correcção fraterna: Ez 33, rom 13 e Mt 18

Ubi enim sunt duo vel tres congregati in nomine meo, ibi sum in medio eorum.
Mt 18,20
O vigésimo terceiro domingo do Tempo Comum do Ano A articula três textos em torno da responsabilidade pelo outro e da presença de Cristo que torna possível essa responsabilidade. Ez 33,7-9 constitui Ezequiel sentinela de Israel: se não advertir o ímpio, o profeta será responsável pelo seu sangue. Rom 13,8-10 declara que toda a lei se resume no amor ao próximo: quem ama cumpriu a lei. Mt 18,15-20 descreve o processo de correcção fraterna: ir ao irmão em privado, depois com testemunhas, depois pela Igreja. E a promessa que fundamenta tudo: onde dois ou três estiverem reunidos em nome de Jesus, ele está no meio. Os três textos convergem: a comunidade cristã tem responsabilidade activa pelo bem dos seus membros, e essa responsabilidade é possível porque Cristo está presente no meio de quem se reúne em seu nome.
I. A primeira leitura: Ez 33,7-9
O Senhor dirige-se ao profeta: «Filho do Homem, constituí-te sentinela da casa de Israel. Ouve, pois, a minha palavra e adverte-os da minha parte» (Ez 33,7). A metáfora da sentinela é precisa: é quem vigia enquanto os outros dormem, quem vê o perigo antes que chegue. E a responsabilidade é pesada: «Se eu disser ao ímpio: Ímpio, tu morrerás!, e tu não falares para dissuadir o ímpio do seu caminho, ele morrerá por causa do seu pecado, mas pedirei o seu sangue à tua mão» (v.8). Não advertir é cumplicidade. Mas advertir é suficiente: «Se advertires o ímpio do seu caminho para que ele se converta, e ele não se converter, morrerá por causa do seu pecado, mas tu salvaste a tua alma» (v.9). A sentinela não é responsável pela conversão do ímpio: apenas pela advertência. Deus respeita a liberdade humana: não força a conversão, mas exige o aviso.
II. A segunda leitura: rom 13,8-10
Paulo sintetiza toda a ética cristã numa frase: «Não deveis nada a ninguém, excepto o amor mútuo. Porque quem ama o outro cumpriu a lei» (Rom 13,8). Os mandamentos específicos, não adulterarás, não matarás, não roubarás, não cobiçarás, «e qualquer outro mandamento» resumem-se neste: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (v.9). E a conclusão: «O amor não faz mal ao próximo. Por isso o amor é o pleno cumprimento da lei» (v.10). O amor não substitui a lei: cumpre-a. Quem ama não precisa de uma lista de proibições para não matar: não mata porque ama. A sentinela de Ezequiel que adverte o ímpio não o faz por obrigação legal: age por amor ao irmão que está em perigo. A correcção fraterna de Mt 18 tem a mesma raiz: vai ao irmão não para o condenar mas porque o ama.
III. O evangelho: Mt 18,15-20
Jesus descreve um processo gradual de correcção fraterna. Primeiro passo: «Se o teu irmão pecar, vai corrigi-lo entre tu e ele, a sós» (Mt 18,15). Se escutar, ganhou-se o irmão. Se não escutar, segundo passo: levar uma ou duas testemunhas, para que tudo seja estabelecido por duas ou três testemunhas. Se ainda não escutar, terceiro passo: dizer à Igreja. Se não escutar à Igreja, «seja para ti como pagão ou publicano» (v.17). O processo não é punitivo: é médico. Começa pelo mínimo possível (conversa privada), e só escala quando os passos anteriores falham. A excomunhão é o último recurso, não o primeiro. E a autoridade que sustenta o processo é a mesma que foi dada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes na terra ficará ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra ficará desligado nos céus» (v.18). E a promessa que transforma a reunião mais pequena: «Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, estou no meio deles» (v.20). A presença de Cristo não exige multidões: basta a reunião em seu nome.
IV. Maria e a sentinela do amor
Ezequiel é constituído sentinela: vê o perigo e adverte. A tradição mariológica reconheceu em Maria uma função análoga: nas aparições marianas aprovadas pela Igreja, Maria aparece frequentemente com mensagens de advertência sobre perigos espirituais, pedindo oração e penitência. Não porque queira assustar: porque ama e vê o que os que dormem não vêem. É a sentinela que age por amor, na linha de Rom 13,8. A correcção fraterna de Mt 18 começa sempre com o mais discreto: ir a sós, sem publicidade, sem tribunal. Maria interpelou Jesus a sós em Caná, sem publicidade, sem forçar a sua mão: foi ao irmão em privado. A promessa de Mt 18,20, «onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, estou no meio deles», encontra a sua realização mais bela no Cenáculo antes do Pentecostes: «estavam todos perseverando unanimemente na oração, com Maria, mãe de Jesus» (Act 1,14). Dois ou três reunidos em nome de Jesus, com Maria no centro: Cristo estava no meio, e o Espírito desceu.
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