Natividade de Maria: qual o mistério celebrado em 8 de setembro

Natividade de Maria, qual o mistério celebrado?

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Exsultet Ecclesia tua, Domine, […] de beatae Mariae Virginis Nativitate congaudens, quae universo mundo spes fuit et aurora salutis.
«Exulte a tua Igreja, Senhor, […] alegrando-se com o nascimento da bem-aventurada Virgem Maria, que foi para o mundo inteiro esperança e aurora da salvação» (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 693)

Em 8 de setembro, a Igreja celebra o nascimento da Virgem Maria. A Escritura não narra esse nascimento. Por isso, a melhor maneira de saber que mistério se celebra é ler o que a própria liturgia diz nesse dia, e depois ver de onde veio a festa.

O que diz a missa de 8 de setembro

A coleta pede: Famulis tuis, quaesumus, Domine, caelestis gratiae munus impertire, ut, quibus beatae Virginis partus exstitit salutis exordium, Nativitatis eius festivitas pacis tribuat incrementum, «concede, Senhor, te pedimos, aos teus servos o dom da graça celeste, para que, a quantos o parto da bem-aventurada Virgem foi princípio da salvação, a festa do seu nascimento aumente a paz» (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 689). A oração liga duas coisas. O nascimento de Maria é celebrado porque dela nasceria Cristo, e o parto da Virgem foi o princípio da salvação. A tradução do Missal publicada em Portugal fala aqui de «maternidade divina» (MISSAL ROMANO, 1992, p. 927), mas o latim diz partus, o parto.

A antífona de entrada dá a mesma razão: Cum iucunditate Nativitatem beatae Mariae Virginis celebremus, ex qua ortus est sol iustitiae, Christus Deus noster, «celebremos com alegria o nascimento da bem-aventurada Virgem Maria, da qual nasceu o sol de justiça, Cristo, nosso Deus» (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 689). E a oração depois da comunhão diz que Maria universo mundo spes fuit et aurora salutis, «foi para o mundo inteiro esperança e aurora da salvação» (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 693). Paulo VI cita esta mesma expressão ao apresentar a festa entre as que recordam acontecimentos da salvação em que Maria está estreitamente unida ao Filho (PAULO VI, 1974, n. 7, p. 121).

O nascimento de Maria é, portanto, celebrado como aurora: não é ainda o dia, mas já o anuncia.

As leituras

A primeira leitura é a profecia de Miqueias sobre Belém, de onde sairá aquele que há de governar Israel, e do tempo em que dará à luz a que há de dar à luz (Mq 5,1-4a), ou, em alternativa, a passagem de Paulo sobre os que Deus de antemão conheceu e predestinou (Rm 8,28-30). O Evangelho é a genealogia de Jesus e o anúncio a José (Mt 1,1-16.18-23) (MISSALE ROMANUM, 1977, p. 689-693). A genealogia termina com Jacó que «gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo» (Mt 1,16). O nascimento de Maria é lido dentro da longa história que prepara o nascimento do Filho.

A primeira das festas

Santo André de Creta († c. 740) pregou mais de uma homilia sobre esta festa (KELLNER, 1908, p. 231). Na primeira, chama a festa πρώτη τῶν ἑορτῶν ἡμέρα, na versão latina de Combefis primaque haec festa dies, «o primeiro dos dias de festa», e diz que o nascimento da Mãe de Deus é o início, e a união do Verbo com a carne o termo: προοίμιον ἔχουσα τῆς Θεοτόκου τὴν γέννησιν, συμπέρασμα δὲ τῆς τοῦ Λόγου πρὸς σάρκα συμπήξεως τὴν ἀπόταξιν, «tendo por início o nascimento da Mãe de Deus e por conclusão a união predestinada do Verbo com a carne» (ANDRÉ DE CRETA, PG 97, col. 807-808, na versão latina: cui exordium Deiparae nativitas est, conclusio autem et terminus Verbi cum carne destinata compactio). E diz que a festa está na fronteira entre o antigo e o novo: ἡ παροῦσα πανήγυρις μεθόριος ἵσταται, τὴν ἀλήθειαν τῶν τυπικῶν συμβόλων ἀντιπαραζευγνῦσα, καὶ τὰ νέα τῶν παλαιῶν ἀντεισφέρουσα, «a presente festa está como fronteira, contrapondo a verdade aos símbolos que a prefiguravam e trazendo o novo em lugar do antigo» (ANDRÉ DE CRETA, PG 97, col. 809-810). Esta homilia é lida no Ofício das Leituras do dia (ROSSO, 2000, p. 48).

De onde veio a festa

A festa nasceu, ao que tudo indica, em Jerusalém, no século V. Junto à piscina chamada Probática, uma tradição local conservava a memória da casa onde Maria teria nascido, e ali se ergueu uma igreja de Santa Maria. O que se pode afirmar com segurança é que se trata de uma memória mariana do século V (ROSSO, 2000, p. 25-28). O Marienlexikon fala do lugar onde «se supunha» a casa dos pais de Maria (HEISER, MAAS-EWERD, 1989, p. 602).

Em Constantinopla, a festa é celebrada no século VI, e Romano, o Melodista, compôs para ela um hino (kontákion) (HEISER, MAAS-EWERD, 1989, p. 602). No Oriente, o 8 de setembro fica poucos dias depois do início do ano litúrgico bizantino, em 1º de setembro (ROSSO, 2000, p. 30). Por que se escolheu o 8 de setembro, não há certeza. O Marienlexikon vê nele a oitava do início do ano bizantino (HEISER, MAAS-EWERD, 1989, p. 602), e Rosso julga que a proximidade com esse início não é casual (ROSSO, 2000, p. 30). Mas Kellner escreve que faltam provas que expliquem a escolha (KELLNER, 1908, p. 231), e Rosso diz que não há argumentos para a ligar ao dia da dedicação da igreja (ROSSO, 2000, p. 30).

Em Roma, a festa está atestada no século VII. O Liber Pontificalis conta que o papa Sérgio I (687-701) ordenou que nos dias da Anunciação do Senhor, da Dormição e da Natividade da santa Mãe de Deus, e no de São Simeão, a que os gregos chamam Hypapante, letania exeat a sancto Hadriano et ad sanctam Mariam populus occurrat, «saia a procissão de Santo Adriano e o povo acorra a Santa Maria» (LIBER PONTIFICALIS, 1898, p. 215). Sérgio I não instituiu a festa, ordenou uma procissão para uma festa que já se celebrava (KELLNER, 1908, p. 229).

Há uma consequência pouco lembrada. Não foi o 8 de setembro que se calculou a partir da Imaculada Conceição. Foi a data da Natividade que determinou depois a da Imaculada Conceição (ROSSO, 2000, p. 46): a concepção ficou em 8 de dezembro, nove meses antes do nascimento celebrado em 8 de setembro. Sobre o dogma, ver A Imaculada Conceição.

Joaquim e Ana

Os Evangelhos não dão os nomes dos pais de Maria. Os nomes Joaquim e Ana vêm do Protoevangelho de Tiago, um texto apócrifo do século II (ROSSO, 2000, p. 23), que conta o nascimento de Maria: καὶ ὠνόμασεν τὸ ὄνομα αὐτῆς Μαρία, «e [Ana] lhe deu o nome de Maria» (Protoevangelho de Tiago 5,2, SCHNEIDER, 1995, p. 104-105). A Igreja não recebeu este livro entre as Escrituras, mas a liturgia e a arte guardaram muitos dos seus nomes e cenas, e é dele que vêm os pormenores narrativos da festa (HEISER, MAAS-EWERD, 1989, p. 602). Ver O Protoevangelho de Tiago e Sant’Ana e São Joaquim.

Referências

ANDRÉ DE CRETA. In Nativitatem B. Mariae I. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologiae cursus completus: series Graeca. t. 97. Paris: Migne, 1865.

HEISER, Lothar, MAAS-EWERD, Theodor. Geburt Mariens. II. Liturgie Ost. III. Liturgie West. In: BÄUMER, Remigius, SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. St. Ottilien: EOS, 1989. v. 2, p. 602-603.

KELLNER, K. A. Heinrich. Heortology: a history of the Christian festivals from their origin to the present day. London: Kegan Paul, Trench, Trübner & Co., Limited, 1908.

LIBER PONTIFICALIS. Pars prior. Edição de Theodor Mommsen. Berlin: Weidmann, 1898. (Monumenta Germaniae Historica. Gesta pontificum Romanorum, 1).

MISSAL ROMANO reformado por decreto do Concílio Ecumênico Vaticano II e promulgado por autoridade de S. S. o Papa Paulo VI. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1992.

MISSALE ROMANUM cum lectionibus ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum. Editio iuxta typicam alteram. [Città del Vaticano]: Libreria Editrice Vaticana, 1977. v. 4.

PAULO VI. Adhortatio apostolica Marialis cultus, 2 fev. 1974. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 66, p. 113-168, 1974.

ROSSO, Stefano. La festa della Natività di Maria: storia, celebrazione, teologia. Marianum, Roma, v. 62, p. 17-62, 2000.

SCHNEIDER, Gerhard (ed.). Evangelia infantiae apocrypha: Apokryphe Kindheitsevangelien. Freiburg: Herder, 1995. (Fontes Christiani, 18).

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