A verdadeira mensagem de Guadalupe no Nican Mopohua

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
¿No estoy yo aquí, que soy tu madre?
«Não estou eu aqui, que sou tua mãe?» (Nican Mopohua 119)
A mensagem de Guadalupe não se encontra em códigos escondidos na imagem, mas num texto: o Nican Mopohua, o relato em língua náuatle das aparições de dezembro de 1531 ao indígena Juan Diego, na colina do Tepeyac, ao norte da Cidade do México. O nome vem das primeiras palavras do texto, «aqui se conta». Escrito em meados do século XVI, foi transcrito em alfabeto latino por Antonio Valeriano (1520-1605), indígena convertido, e Luis Lasso de la Vega o publicou em 1649 (LAURENTIN e SBALCHIERO, 2007, p. 405). O texto é citado pela tradução castelhana de Mario Rojas (Los Ángeles, 1994), dividida por ele em 218 versículos e reproduzida na íntegra por Osorio Villaseñor (2017, p. 58-64).
O contexto
Eduardo Chávez Sánchez descreve no verbete «Guadalupe» do dicionário Mariologia (2009, p. 597-598) o México de 1531: dez anos depois da conquista de Tenochtitlan, a população indígena devastada pelas epidemias, os primeiros missionários franciscanos com poucos frutos, e um conflito duro entre o bispo, frei Juan de Zumárraga, e as autoridades espanholas da Primeira Audiência. Em 1529, Zumárraga escreveu ao rei dizendo que, se Deus não interviesse, aquela terra estava prestes a ruir por completo (CHÁVEZ SÁNCHEZ, 2009, p. 598).
Quatro dias de dezembro
O relato começa num sábado, 9 de dezembro de 1531, muito de madrugada (v. 3-6, CHÁVEZ SÁNCHEZ, 2009, p. 598). Juan Diego, vecino de Cuauhtitlan, «morador de Cuautitlán» (v. 4), ia à doutrina quando ouviu um canto de pássaros no Tepeyac e uma voz que o chamava pelo nome. Uma jovem senhora apresentou-se: la perfecta siempre Virgen Santa María, Madre del verdaderísimo Dios por quien se vive, «a perfeita sempre Virgem Santa Maria, Mãe do veracíssimo Deus por quem se vive» (v. 26). E pediu que ali lhe fosse construída uma casa, onde mostraria o seu amor e escutaria o choro e as tristezas de todos os que a invocassem (v. 26-33).
Juan Diego foi ao bispo, que o ouviu sem acreditar. Voltou ao Tepeyac e pediu à Senhora que enviasse alguém mais importante, porque era apenas um homem do campo: soy mecapal, soy parihuela, soy cola, soy ala, «sou corda de carga, sou padiola, sou cauda, sou asa» (v. 55). A Senhora insistiu que fosse ele. No domingo, o bispo pediu um sinal (v. 68-87).
Na segunda-feira, Juan Diego não voltou, porque o tio, Juan Bernardino, estava gravemente doente. Na terça-feira, 12 de dezembro (v. 99, CHÁVEZ SÁNCHEZ, 2009, p. 599), ia buscar um sacerdote para o tio e tentou passar pelo Tepeyac por outro caminho, para não encontrar a Senhora. Ela saiu-lhe ao encontro e disse-lhe as palavras que são o centro da mensagem:
¿No estoy yo aquí, que soy tu madre? ¿No estás bajo mi sombra y resguardo? ¿No soy yo la fuente de tu alegría? ¿No estás en el hueco de mi manto, en el cruce de mis brazos? ¿Tienes necesidad de alguna otra cosa?, «Não estou eu aqui, que sou tua mãe? Não estás à minha sombra e sob a minha proteção? Não sou eu a fonte da tua alegria? Não estás no regaço do meu manto, no cruzar dos meus braços? Tens necessidade de mais alguma coisa?» (v. 119).
Assegurou-lhe que o tio já estava curado e mandou-o colher flores no alto da colina (v. 120-126). Juan Diego encontrou ali rosas de Castilla, em pleno inverno (v. 128-133, 170), recolheu-as na sua tilma e levou-as ao bispo. Quando abriu o manto diante dele, as flores caíram e apareceu de repente a imagem da Virgem (v. 181-190). O bispo pôs a imagem no seu oratório e, no dia seguinte, foi com Juan Diego ver o lugar onde a igreja deveria ser construída (v. 191-194). O tio contou que a Senhora também lhe tinha aparecido e lhe pedira que a imagem fosse chamada Santa Maria de Guadalupe (v. 195-208).
O que a mensagem diz
O relato não traz revelações sobre o futuro nem pedidos de penitência. Maria apresenta-se como mãe, pede uma casa para mostrar o seu amor e escolhe como mensageiro um indígena pobre, que ela trata com ternura e que insiste em mandar ao bispo. O pedido passa pela Igreja: é o bispo quem tem de construir a casa. Laurentin e Sbalchiero, no Dictionnaire des «apparitions», lembram que o manuscrito original do Nican Mopohua se perdeu e registram a expansão do culto nascido no Tepeyac: um primeiro santuário concluído em 1533, a aprovação indireta das aparições por dom Alonso de Montúfar em 1555 e o ofício litúrgico próprio autorizado por Bento XIV em 1754 (LAURENTIN e SBALCHIERO, 2007, p. 405-406).
João Paulo II viu em Guadalupe um modelo de evangelização inculturada. Na exortação Ecclesia in America, escreveu: El rostro mestizo de la Virgen de Guadalupe fue ya desde el inicio en el Continente un símbolo de la inculturación de la evangelización, de la cual ha sido la estrella y guía, «o rosto mestiço da Virgem de Guadalupe foi já desde o início, no Continente, um símbolo da inculturação da evangelização, da qual tem sido a estrela e a guia» (JOÃO PAULO II, 1999, n. 70, p. 806). Juan Diego foi canonizado pelo mesmo papa, na Basílica de Guadalupe, em 31 de julho de 2002 (CHÁVEZ SÁNCHEZ, 2009, p. 602).
Os documentos pontifícios sobre Guadalupe, de Bento XIV a João Paulo II, estão em As aparições marianas no Magistério.
Referências
CHÁVEZ SÁNCHEZ, Eduardo. Guadalupe. In: DE FIORES, Stefano, FERRARI SCHIEFER, Valeria e PERRELLA, Salvatore M. (org.). Mariologia. Cinisello Balsamo: San Paolo, 2009. (I Dizionari San Paolo). p. 596-602.
JOÃO PAULO II. Exhortación apostólica postsinodal Ecclesia in America, 22 jan. 1999. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 91, p. 737-815, 1999.
LAURENTIN, René e SBALCHIERO, Patrick. Guadalupe (Mexique, diocèse de Mexico). In: LAURENTIN, René e SBALCHIERO, Patrick (org.). Dictionnaire des «apparitions» de la Vierge Marie. Paris: Fayard, 2007. p. 402-408.
OSORIO VILLASEÑOR, J. Roel. María en la Evangelii gaudium de papa Francisco: síntesis de un camino teológico. 2017. Tesina (Licencia en Teología con especialización en Mariología) – Pontificia Facultad Teológica «Marianum», Roma, 2017.
Pós-Graduação em Mariologia
Quer aprofundar a sua formação em Mariologia? Conheça a Pós-Graduação em Mariologia da Locus Mariologicus – uma formação acadêmica que une rigor teológico, vida espiritual e tradição viva da Igreja.
Veja a lista completa das aparições marianas reconhecidas pela Igreja.
Quer estudar mariologia a sério?
Este artigo nasce das obras da biblioteca da Locus Mariologicus. A Pós-Graduação em Mariologia leva-o à mesma fonte, com acompanhamento acadêmico: Escritura, Padres da Igreja e Magistério, do primeiro dogma às questões contemporâneas.
Respostas