Da escuta da fé à oração perseverante em Gálatas 3

Quis vos fascinavit non obedire veritati?
Gl 3,1
A liturgia desta quinta-feira da 27ª Semana do Tempo Comum coloca diante de nós dois textos que, à primeira vista distantes, confessam uma só verdade sobre a vida cristã. O Espírito que recebemos não é conquista da carne nem salário da Lei, é dom que se acolhe pela escuta fiel e se guarda pela oração que não desiste. São Paulo, em Gl 3,1-5, arranca os fiéis da Galácia da ilusão de se justificarem por si mesmos. Lucas, em Lc 11,5-13, ensina que ao Pai se pede com a insistência de quem já foi amado primeiro. Entre a repreensão do Apóstolo e a parábola do Senhor corre a mesma seiva, a graça que precede, sustenta e coroa toda a nossa peregrinação da fé.
I. A escuta da fé contra o fascínio da Lei
A Carta aos Gálatas é o manifesto ardente da liberdade cristã contra toda a recaída na servidão da Lei. Paulo abre o capítulo terceiro com uma interpelação que fere para curar, O insensati Galatae, quis vos fascinavit non obedire veritati?, ó gálatas insensatos, quem vos enfeitiçou para não obedecerdes à verdade. O verbo é grave. O fascínio não é engano leve, é feitiço que cega os olhos diante dos quais Jesus Cristo fora anunciado como crucificado. Quem recebeu a cruz como fonte da justificação e regressa às obras da Lei não corrige a fé, atraiçoa-a. Voltar à Lei depois da cruz é apagar a cruz.
A pergunta decisiva vem no versículo seguinte e Paulo quer dela uma só resposta. Recebestes o Espírito ex operibus legis an ex auditu fidei, pelas obras da Lei ou pela escuta da fé. A expressão grega, ex akoēs písteōs, não designa um saber teórico, designa o ouvido que se rende à Palavra e nela se entrega. A Lei, santa e espiritual, revela o pecado e desperta a sede do Salvador, mas não possui o poder de justificar aquilo que apenas sabe acusar. Foi a pregação do Evangelho, acolhida na fé, que fez descer sobre os gálatas o Espírito e nele operou prodígios. Aquilo que começou no Espírito não se pode consumar na carne. A vida nova não se produz, recebe-se, e recebe-se ouvindo.
II. A oração que ousa insistir
O Evangelho prolonga a lição de Paulo no registro da oração, porque a fé que escuta é também a fé que pede. Jesus narra o homem que, à meia-noite, bate à porta do amigo em busca de três pães para o hóspede inesperado. O amigo já se deitara, mas cede, e cede não pela amizade e sim pela importunação. A palavra grega é forte, anaídeia, a ousadia sem pudor de quem não teme insistir. O Senhor não retrata um Deus relutante que se dobra ao cansaço. Ensina, por contraste, que se um coração humano cede à insistência, o Pai dos céus não fará esperar quem a Ele recorre com a mesma audácia fiel.
Segue-se a tríplice promessa que sustenta toda a vida orante da Igreja, pedi e recebereis, buscai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á. Os verbos estão no presente contínuo, aiteite, pedi e continuai a pedir, porque orar não é ato isolado, é respiração permanente da alma. E Jesus fecha com o argumento do menor para o maior. Se um pai terreno, mau enquanto pecador, sabe dar coisas boas aos filhos, quanto mais o Pai celeste dará o Espírito Santo aos que Lho pedirem. Note-se o vértice do texto. Onde Mateus escreve coisas boas, Lucas escreve Spiritum Sanctum, o Espírito Santo. O dom supremo que a oração alcança não é este ou aquele benefício, é o próprio Deus que se comunica.
III. A graça que precede e a fé que persevera
As duas leituras convergem no coração da doutrina da graça. A fé que justifica os gálatas e a oração que obtém o Espírito são o mesmo movimento visto de dois ângulos, o da origem e o da duração. Paulo afirma que o Espírito se recebe pela escuta, Lucas mostra que essa escuta amadurece em súplica perseverante. Vale aqui a palavra do próprio Apóstolo aos Romanos, fides ex auditu, auditus autem per verbum Christi, a fé vem da escuta e a escuta se dá pela palavra de Cristo, em Rm 10,17. Primeiro Deus fala, depois o fiel ouve, e desse ouvir nasce o pedir. A iniciativa é sempre da graça.
Compreende-se então por que a insistência da parábola nada tem de mérito que force a mão divina. A perseverança na oração não é obra da Lei disfarçada, é a própria fé que se dilata no tempo, que se recusa a tratar o silêncio de Deus como ausência de Deus. Santo Agostinho ensinou-o com precisão ao dizer que Deus difere o dom para alargar o desejo, e alarga o desejo para poder encher aquilo que dilatou. Orar não é vencer a resistência do Pai, é deixar que o Pai vença a estreiteza do nosso coração. A fé que salva, portanto, não é crença passiva nem confiança que dispensa a Lei do amor, é entrega viva que ouve, pede e espera contra toda a esperança.
IV. Maria, a orante que perseverou até o Espírito
Nenhuma das leituras nomeia a Virgem, e todavia ambas a descrevem. Maria é a criatura em quem a escuta da fé e a oração perseverante alcançaram plenitude perfeita. Diante do anjo, não invocou obras nem títulos, ouviu a Palavra e respondeu com o fiat, faça-se em mim segundo a tua palavra, em Lc 1,38. Naquele instante realizou-se em pessoa aquilo que Paulo exige dos gálatas, receber o Espírito pela pura anuência da fé. Não por acaso o mesmo Lucas que hoje nos ensina a pedir o Espírito Santo é o evangelista que a apresenta como kecharitomene, a cheia de graça, aquela sobre quem o Espírito desceu antes de todo pedido nosso.
A tradição contemplou nela o rosto acabado da oração da Igreja. Terminada a Ascensão, os discípulos perseveraram unânimes na súplica, cum Maria matre Iesu, com Maria, mãe de Jesus, segundo At 1,14. A Theotokos está no Cenáculo, no centro da comunidade que, obediente à palavra de hoje, bate à porta do céu pedindo o Espírito prometido. E o Espírito desce em Pentecostes. A mãe que primeiro O recebeu na Anunciação torna-se o modelo orante de quem O implora para a Igreja nascente. O Concílio Vaticano II recolheu esta certeza ao invocá-la, em Lumen Gentium 62, sob os títulos de Advocata, Auxiliatrix, Adiutrix, Mediatrix, Advogada, Auxiliadora, Cooperadora e Medianeira, sem que tal ofício obscureça a única mediação de Cristo, antes dela recebendo toda a sua força.
Em Caná, quando faltou o vinho, não impôs soluções, apresentou a carência e confiou, fazei tudo o que Ele vos disser, em Jo 2,5. Esta é a anaídeia dos santos, a ousadia humilde que insiste sem impor. A Virgem ensina-nos hoje a distinguir a fé que salva da agitação que se cansa. Não nos contentemos com respostas fáceis nem tratemos a oração como fórmula que arranca favores. Peçamos, com ela, o dom que resume todos os dons. Quem pede o Espírito recebe o próprio Deus. E quem, como Maria, persevera na escuta da fé, verá cumprir-se em si a palavra que a graça sempre precede e a perseverança nunca envergonha.
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