Leão XIII – oração a São Miguel arcanjo (1886) e exorcismus in satanam (1890)

Segundo uma tradição piedosa, divulgada a partir de 1946, o Papa Leão XIII teria tido uma visão do poder do demônio contra a Igreja. Dele vêm duas orações: em 1886, a célebre «Oração a São Miguel Arcanjo» (recitada no fim de cada Missa sem canto até 1965), e em 1890 o «Exorcismo de Leão XIII» (texto em latim, com fórmulas de exorcismo solenes). Estas duas orações são referência histórica fundamental da demonologia papal.

PapaLeão XIII
Oração 1Oração a São Miguel Arcanjo (1886)
Oração 2Exorcismus in Satanam et Angelos Apostaticos (1890)
ContextoResposta ao crescimento percebido de atividade satânica anti-eclesiástica no fim do século XIX

1. Oração a São Miguel Arcanjo

Texto latino original

Sancte Michael Archangele,
defende nos in proelio,
contra nequitiam et insidias diaboli esto praesidium.
Imperet illi Deus, supplices deprecamur:
tuque, princeps militiae caelestis,
Satanam aliosque spiritus malignos,
qui ad perditionem animarum pervagantur in mundo,
divina virtute, in infernum detrude.
Amen.

Tradução portuguesa

São Miguel Arcanjo,
defendei-nos no combate,
sede o nosso amparo contra a maldade e as ciladas do diabo.
Subjugue-o Deus, instantemente o pedimos.
E vós, príncipe da milícia celeste,
pelo poder divino,
precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos
que andam pelo mundo para perder as almas.
Amen.

História da oração

Conta-se que, em 13 de outubro de 1884, Leão XIII, depois de celebrar a Missa, teria tido uma experiência mística: ouviu duas vozes, a de Cristo e a de Satanás, que pedia mais tempo e mais poder para tentar destruir a Igreja. Esta história não tem documento do tempo de Leão XIII. Os testemunhos mais antigos são de meados do século XX: a carta pastoral da Quaresma de 1946 do cardeal Giovanni Nasalli Rocca, que fala de uma visão de espíritos infernais sobre Roma, sem data, e o relato do padre Domenico Pechenino em 1947, que diz não se lembrar do ano. A data de 13 de outubro de 1884 e o diálogo entre Cristo e Satanás só aparecem em livros de devoção posteriores.

O que os documentos mostram é isto. A 6 de janeiro de 1884, por decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, Leão XIII mandou rezar em todas as igrejas do mundo, de joelhos, no fim de cada Missa celebrada sem canto («in fine cuiusque Missae sine cantu celebratae»), três Ave-Marias, a Salve-Rainha e a oração «Deus, refugium nostrum et virtus» (Acta Sanctae Sedis 16, 239-240). A oração a São Miguel foi acrescentada a estas preces em 1886.

Estas «preces leoninas» foram rezadas até 1965. A instrução Inter Oecumenici, de 26 de setembro de 1964, determinou: «preces Leonianae supprimuntur», «suprimem-se as preces leoninas» (n. 48 j, AAS 56 (1964) 888), com efeito a partir de 7 de março de 1965. Foi recuperada amplamente após 24 de abril de 1994, quando São João Paulo II, no Regina Caeli, recordou a oração e a recomendou aos fiéis para que a rezassem pessoalmente.

A oração de São Miguel na Escritura, nos Padres e na liturgia

«Imperet illi Deus»: a frase vem da Carta de Judas

O pedido central da oração, «Imperet illi Deus», «que Deus o repreenda», retoma a frase que o Novo Testamento põe na boca de São Miguel. Na disputa com o diabo sobre o corpo de Moisés, o arcanjo não ousou proferir contra ele uma sentença injuriosa e remeteu a repreensão ao Senhor:

«Ὁ δὲ Μιχαὴλ ὁ ἀρχάγγελος, ὅτε τῷ διαβόλῳ διακρινόμενος διελέγετο περὶ τοῦ Μωϋσέως σώματος, οὐκ ἐτόλμησεν κρίσιν ἐπενεγκεῖν βλασφημίας ἀλλ᾽ εἶπεν, ἐπιτιμήσαι σοι κύριος». «Miguel, o arcanjo, quando disputava com o diabo, discutindo sobre o corpo de Moisés, não ousou lançar contra ele um juízo injurioso, mas disse: Que o Senhor te repreenda» (Jd 9, Novum Testamentum Graece, 28.ª ed.).

A antiga Vulgata traduziu essas últimas palavras por «imperet tibi Dominus», vertendo o «repreender» grego pelo latim «imperare», «dar ordens», e é daí que vem, adaptado, o «Imperet illi Deus» da oração. O gesto já está no profeta Zacarias, quando o Senhor diz a Satanás: «increpet Dominus in te», «que o Senhor te repreenda» (Zc 3,2, Vulgata). Mesmo São Miguel, príncipe da milícia celeste, não profere sentença por autoridade própria, mas invoca a repreensão do Senhor. O seu combate é real (Ap 12,7), mas subordinado ao poder de Deus, e por isso a oração pede que ele aja «divina virtute», «pelo poder divino».

O combate no céu: Ap 12

O cenário do combate vem do Apocalipse:

«Καὶ ἐγένετο πόλεμος ἐν τῷ οὐρανῷ, ὁ Μιχαὴλ καὶ οἱ ἄγγελοι αὐτοῦ τοῦ πολεμῆσαι μετὰ τοῦ δράκοντος». «E houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos combateram contra o dragão» (Ap 12,7).

O dragão, «chamado Diabo e Satanás, que seduz o mundo inteiro», «foi precipitado para a terra, e os seus anjos foram precipitados com ele» (Ap 12,9). Na Vulgata, a guerra no céu é um «proelium», a mesma palavra do «defende nos in proelio». O título de «príncipe da milícia celeste» junta este combate ao «grande príncipe» de Daniel, e o pedido de lançar Satanás «in infernum» não vem de Ap 12, que fala da queda para a terra, mas da oração, que o liga ao destino final do diabo descrito mais adiante no livro (Ap 20,10).

Miguel, guardião do povo de Deus

O livro de Daniel chama a Miguel «princeps magnus, qui stat pro filiis populi tui», «o grande príncipe, que está de pé em favor dos filhos do teu povo» (Dn 12,1, Vulgata). Teodoreto de Ciro, bispo sírio do século V, comentou esse versículo com uma palavra que resume o que a Igreja pede na oração:

«Ὁ γάρ, φησίν, τὴν ὑμετέραν κηδεμονίαν πεπιστευμένος ἀρχάγγελος, εἰς ἐπικουρίαν τῶν τηνικαῦτα πολεμουμένων ἀναστήσεται». «O arcanjo a quem foi confiada a vossa tutela levantar-se-á em socorro dos que então forem atacados» (Teodoreto, Interpretatio in Danielem 12,1, PG 81, 1533).

«Defende nos in proelio» antes de Leão XIII

A primeira frase da oração já era rezada na liturgia antes de Leão XIII. O versículo do aleluia da festa de 29 de setembro, no missal romano anterior à reforma, dizia: «Sancte Michael Archangele, defende nos in proelio: ut non pereamus in tremendo iudicio», «São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, para que não pereçamos no tremendo juízo» (Missale Romanum 1962, 29 de setembro). E na missa de defuntos a Igreja pedia que «signifer sanctus Michael repraesentet eas in lucem sanctam», que «o santo porta-estandarte Miguel as apresente à luz santa» (ibid., 2 de novembro, ofertório). Leão XIII não inventou a invocação. Retomou uma fórmula da liturgia e juntou-a, em 1886, às preces que mandara rezar no fim de cada missa sem canto.

2. Exorcismus in Satanam (1890)

Em 1890, Leão XIII mandou publicar o Exorcismus in Satanam et Angelos Apostaticos (Acta Sanctae Sedis 23, 743-747), e a 18 de maio desse ano concedeu indulgências a quem o rezasse. É um exorcismo solene em latim destinado ao uso de bispos e sacerdotes designados para o ministério do exorcismo. Foi incluído no Rituale Romanum de 1925 e no apêndice de exorcismos contra Satanás.

Texto latino, exorcismo (excerto)

Exorcizamus te, omnis immundus spiritus, omnis satanica potestas, omnis incursio infernalis adversarii, omnis legio, omnis congregatio et secta diabolica, in nomine et virtute Domini Nostri Iesu + Christi, eradicare et effugare a Dei Ecclesia, ab animabus ad imaginem Dei conditis ac pretioso divini Agni Sanguine redemptis +.

Non ultra audeas, serpens callidissime, decipere humanum genus, Dei Ecclesiam persequi, ac Dei electos excutere et cribrare sicut triticum +. Imperat tibi Deus altissimus +, cui in magna tua superbia te similem haberi adhuc praesumas…

Tradução portuguesa

Exorcizamos-te, todo espírito imundo, toda potência satânica, toda incursão do adversário infernal, toda legião, toda congregação e seita diabólica, em nome e pela virtude do nosso Senhor Jesus + Cristo, sai e foge da Igreja de Deus, das almas criadas à imagem de Deus e redimidas pelo precioso Sangue do divino Cordeiro +.

Não ouses mais, serpente astutíssima, enganar o género humano, perseguir a Igreja de Deus, sacudir e crivar como o trigo os eleitos de Deus +. Manda-te o Deus altíssimo +, a quem na tua grande soberba ainda presumes ser semelhante…

O contexto histórico das orações leoninas

O fim do século XIX foi marcado por:

  • Anticlericalismo agressivo (na Itália pós-1870, em França pós-1880)
  • Crescimento da Maçonaria e do espiritismo
  • Perseguição da Igreja em múltiplos países (Kulturkampf alemão 1871-1887)
  • Modernismo teológico nascente
  • Crise das Ordens Religiosas em vários países

Leão XIII viu nestes fenômenos sinais de uma ação satânica organizada contra a Igreja. As suas orações a São Miguel e os exorcismos publicados são a sua resposta espiritual.

Relevância pastoral contemporânea

Desde 1965, a Oração a São Miguel deixou de ser obrigatória na liturgia eucarística. Mas:

  • São João Paulo II (24 de abril de 1994): recomendou a oração no Regina Caeli como devoção pessoal
  • Francisco (29 de setembro de 2018): pediu a todos os católicos que rezassem o Rosário, a Oração a São Miguel e a Sub Tuum Praesidium em cada dia de outubro de 2018, no contexto dos escândalos de abuso sexual no clero

O exorcismo de Leão XIII e o novo rito

O Exorcismus in Satanam de Leão XIII foi incorporado ao Rituale Romanum, no título dedicado aos exorcismos. Após o Vaticano II, foi reformado e substituído pelo novo De Exorcismis et Supplicationibus Quibusdam (1999), mas o texto original de Leão XIII permanece como referência histórica e fonte teológica.

Leitura complementar

IV Concílio de Latrão 1215 | CDF Fede e Demonologia 1975 | Paulo VI Confronto col Diavolo | JP2 Catequeses Anjos e Demônios

Pós-Graduação em Mariologia

Quer aprofundar a sua formação em Mariologia? Conheça a Pós-Graduação em Mariologia da Locus Mariologicus – uma formação acadêmica que une rigor teológico, vida espiritual e tradição viva da Igreja.

Entrar na lista de espera →

Ver também: O que é a Angeologia? Os anjos na Bíblia e no Magistério

Veja o nosso guia completo de Angelologia Católica.

Quer estudar angeologia e demonologia a fundo?

Este artigo nasce da biblioteca da Locus Mariologicus. A pós-graduação em Angeologia e Demonologia (especialização lato sensu, 360 horas, 100% online) estuda os anjos e os demônios na Escritura, nos Padres e no Magistério, com uma área dedicada à demonologia prática, ao exorcismo e à oração de libertação. A nova turma começa em 18 de janeiro de 2027.

Conhecer a pós em Angeologia e Demonologia

Ebook Consagração a Jesus por MariaEbook · ConsagraçãoConsagração a Jesus por MariaFundamentos bíblicos, teológicos e práticas espirituais para viver a consagração.Quero o ebook →

Artigos relacionados

Respostas