«Maria optimam partem elegit»: sta Teresa, a contemplação e Maria

Maria optimam partem elegit, quae non auferetur ab ea.
Lc 10,42b
A memória de Santa Teresa de Ávila (15 de Outubro, Doutora da Igreja) une 1Cor 2, onde Paulo confessa que veio a Corinto sem eloquência humana mas apenas com «Jesus Cristo, e este crucificado», e descreve a sabedoria de Deus oculta que o Espírito revela aos que amam, a Lc 10, onde Jesus defende Maria de Betânia que escolheu «a melhor parte» de se sentar aos pés de Jesus enquanto Marta se afadiava. Ambos os textos descrevem o coração da espiritualidade de Teresa: a contemplação de Cristo crucificado como o centro de toda a vida interior. Maria de Nazaré, que «guardava todas estas coisas no seu coração», é o modelo que Teresa identificou como o caminho de toda a oração autêntica.
I. A primeira leitura: 1Cor 2,1-10a
Paulo confessa a sua fraqueza como pregador: «não foi com palavras eloquentes ou sabedoria humana que vim anunciar-vos o testemunho de Deus» (v.1). A sua única sabedoria foi «Jesus Cristo, e este crucificado» (v.2). Esta concentração em Cristo crucificado é o coração da espiritualidade teresiana: no Caminho de Perfeição e no Castelo Interior, Teresa insiste que toda a vida de oração deve centrar-se em Jesus Cristo, especialmente no mistério da Cruz.
«Mas entre os perfeitos, falamos de sabedoria, não desta geração… mas uma sabedoria divina, misteriosa, oculta, que Deus desde antes dos séculos predestinou para a nossa glória» (v.6-7). A sabedoria que Teresa alcançou nas suas elevadas contemplações não é uma gnose esotérica mas o conhecimento de Cristo que Paulo anuncia: «o que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem ao coração do homem subiu» (v.9). A contemplação autêntica é sempre conhecimento de Deus dado por Deus, não conquista humana.
II. O evangelho: Lc 10,38-42
A cena de Maria e Marta é o texto evangélico que mais diretamente ilumina a vocação de Teresa. Maria de Betânia que «se sentou aos pés do Senhor e ouvia a sua palavra» (v.39) é o símbolo da contemplação: a postura de quem parou, se sentou e escuta. Marta que se «afadiava» (v.40) não é criticada pela atividade mas pelo fato de que a atividade a impediu de se sentar aos pés de Jesus.
«Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada» (v.42): a contemplação é chamada «a melhor parte» não porque a ação seja má mas porque a contemplação permanece, «não lhe será tirada». A tradição espiritual cristã, desde os Padres do deserto até Teresa de Ávila, reconhece neste versículo a justificação da vida contemplativa: o conhecimento de Deus obtido na contemplação é o único que permanece para além da morte.
III. Teresa: a sabedoria da cruz na contemplação
Teresa de Ávila é Doutora da Igreja porque o seu ensinamento sobre a oração integra as duas leituras de hoje. Como Paulo, Teresa conheceu «Jesus Cristo e este crucificado» como o centro de toda a oração: o Castelo Interior tem como habitante o Cristo crucificado e ressuscitado, não um ideal abstracto. Como Maria de Betânia, Teresa escolheu a melhor parte: renunciou ao que podia ser tirado para obter o que permanece.
A reforma carmelita que Teresa iniciou é a concretização institucional de Lc 10,42: criar espaços onde «a melhor parte» é possível, onde as lâmpadas ficam acesas e os olhos se fixam em Cristo. A sabedoria que Paulo descreve como «oculta, misteriosa» e que «seria revelada pelo Espírito» é a sabedoria que Teresa descreveu nas suas obras: o conhecimento de Deus que só se alcança por Deus.
IV. Maria de Nazaré: o modelo de Teresa
Teresa identificou Maria de Nazaré como o modelo supremo da vida contemplativa. No Livro da Vida e no Caminho de Perfeição, Teresa descreve Maria como a que «guardava todas estas coisas no seu coração» (Lc 2,51), a contemplativa que não precisava de palavras porque a Palavra vivia nela. A Maria de Betânia de Lc 10 encontra o seu modelo mais perfeito em Maria de Nazaré: ambas se sentam aos pés de Jesus e ouvem.
A memória de Teresa de Ávila convida a reconhecer em Maria o caminho de «a melhor parte». Maria que recebeu a Palavra na Anunciação que «guardava» no coração o que não compreendia (Lc 2,19.51), que permaneceu em silêncio ao pé da Cruz enquanto o mistério se cumpria, esta Maria é o modelo de Teresa e o modelo de toda a contemplação cristã: a criatura que parou, se sentou e escolheu a parte que não lhe será tirada.
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