«Misericordiam volo»: São Mateus, a mesa dos pecadores e a medida de Cristo

«Qui minor est inter omnes vos»: Zacarias, a grandeza no reino e Maria

Misericordiam volo et non sacrificium. […] Unus Dominus, una fides, unum baptisma.
Mt 9,13 e Ef 4,5

A festa de São Mateus, apóstolo e evangelista, interrompe hoje o Tempo Comum e traz consigo duas leituras que se explicam uma à outra. A carta aos Efésios descreve a unidade da Igreja e a diversidade dos ministérios que a servem. O evangelho conta a vocação do próprio Mateus, arrancado do posto de cobrança dos impostos por duas palavras. A festa celebra um homem que foi chamado do lugar de onde ninguém esperava que saísse alguma coisa boa.

I. A primeira leitura: Ef 4,1-7.11-13

Paulo escreve da prisão e começa por aí, «eu, prisioneiro pela causa do Senhor» (v.1), o que dá outro peso ao que se segue. Recomenda humildade, mansidão e paciência, e depois o essencial, «suportai-vos uns aos outros com caridade» (v.2). O verbo é duro de propósito. Não diz gostem uns dos outros, diz suportem-se, que é a forma realista da caridade dentro de uma comunidade concreta.

Segue-se a lista das sete unidades, martelada sem conjunções: um só corpo, um só Espírito, uma só esperança, «um só Senhor, uma só fé, um só batismo», um só Deus e Pai de todos (v.4-6). É a formulação mais compacta do Novo Testamento sobre a unidade da Igreja. E logo a seguir vem a diversidade, que não a contradiz: «a cada um de nós foi concedida a graça, na medida em que recebeu o dom de Cristo» (v.7). Apóstolos, evangelistas, pastores e mestres não existem para se distinguirem uns dos outros, existem «para a edificação do Corpo de Cristo» (v.12), até que todos cheguem «à medida de Cristo na sua plenitude» (v.13). A única medida legítima na Igreja é Cristo. Todas as outras são invenção.

II. O evangelho: Mt 9,9-13

A vocação de Mateus é contada em duas linhas e sem nenhum efeito dramático. Jesus vê um homem sentado no posto de cobrança, diz-lhe «segue-me», e «ele levantou-se e seguiu Jesus» (v.9). O evangelista, que é o próprio chamado, não gasta uma palavra a explicar-se nem a justificar-se. Deixa o registro seco.

Convém lembrar o que era aquele posto. O cobrador de impostos trabalhava para o ocupante, enriquecia com a diferença e era considerado impuro e traidor. Não era um pecador entre outros, era o exemplo padrão de pecador. Por isso a refeição que se segue provoca a pergunta dos fariseus, «por que motivo é que o vosso Mestre come com os publicanos e os pecadores?» (v.11), pergunta que na cultura da mesa antiga é muito mais grave do que parece, porque comer com alguém era declarar comunhão com ele.

A resposta de Jesus tem três partes. Um provérbio, «não são os que têm saúde que precisam do médico» (v.12). Uma citação profética que ele manda ir estudar, «ide aprender o que significa: prefiro a misericórdia ao sacrifício» (v.13, citando Os 6,6). E uma declaração de missão, «eu não vim chamar os justos, mas os pecadores». O «ide aprender» é dirigido a especialistas da Lei, e é quase insultuoso. Eles sabiam o versículo de cor. O que não sabiam era o que ele significa.

III. A medida de Cristo e a mesa dos pecadores

As duas leituras encontram-se num ponto que a festa torna visível. Efésios diz que a Igreja cresce até à medida de Cristo. Mateus mostra qual é essa medida na prática, e ela mede-se pela mesa a que Cristo se senta. Uma comunidade que já não consegue sentar-se com publicanos deixou de ter a medida certa, por muito ortodoxa que seja a sua doutrina.

Note-se que a misericórdia preferida ao sacrifício não abole o sacrifício. Oseias não estava a pedir o fim do culto, estava a dizer qual dos dois julga o outro. O mesmo vale hoje. A liturgia bem celebrada e a doutrina bem ensinada são bens reais, e a festa de um evangelista existe precisamente para os proteger. Mas o critério de verificação está no lado de fora do templo, e chama-se misericórdia.

IV. Maria, a medida cheia

Se a Igreja caminha «até à medida de Cristo na sua plenitude», então a mariologia tem aqui a sua pergunta própria, que é saber se essa medida já foi atingida por alguém. A resposta do Concílio é afirmativa e sóbria. Na bem-aventurada Virgem a Igreja já atingiu aquela perfeição pela qual se apresenta sem mancha nem ruga, enquanto os fiéis ainda se esforçam por crescer em santidade vencendo o pecado (LG 65).

Maria é, nesse sentido, o único membro da Igreja em quem a medida de Efésios está completa. Não por ter recebido um ministério, porque não foi apóstolo nem evangelista nem pastor, mas por ter chegado ao termo para o qual todos os ministérios existem. É por isso que a tradição a coloca no meio dos Apóstolos no Cenáculo (At 1,14) sem lhe atribuir função nenhuma. Ela não estava ali a exercer um cargo. Estava ali a ser aquilo que o cargo serve para produzir.

Quanto à misericórdia preferida ao sacrifício, o Magnificat já a tinha cantado antes de Mateus a ouvir de Jesus. «A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem» (Lc 1,50), e o cântico continua descrevendo exatamente o movimento que a mesa de Mateus torna visível, os poderosos derrubados dos seus tronos e os humildes exaltados (Lc 1,52). O publicano que se levanta do posto de cobrança e segue é um caso concreto daquilo que ela anunciou como lei geral. A Igreja invoca-a como refúgio dos pecadores, e o título não é uma cortesia devota. É a consequência lógica de tudo isto.

A festa de São Mateus deixa portanto uma pergunta que serve para examinar qualquer comunidade cristã. Quem é que hoje não conseguiríamos convidar para a mesa? Porque é precisamente aí que está a medida que nos falta.

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