Theotokos: Maria, mãe de Deus, no concílio de Éfeso (431)

Ícone bizantino da Theotokos de Vladimir, a Virgem Maria Mãe de Deus com o Menino Jesus encostado ao seu rosto (pormenor)

Em resumo

Theotokos, título grego atribuído à Virgem Maria, significa Mãe de Deus ou Portadora de Deus, de theos (Deus) e tikto (gerar, dar à luz). Definido dogmaticamente no Concílio de Éfeso (431), afirma sobretudo que Jesus Cristo é uma única Pessoa divina. Como o Verbo eterno assumiu a natureza humana no seio de Maria, ela é verdadeiramente Mãe de Deus.

Theotokos, que em grego significa “Portadora de Deus” ou “Mãe de Deus“, é o título mais antigo e mais preciso atribuído à Virgem Maria pela tradição cristã. Definido dogmaticamente no Concílio de Éfeso (431 d.C.), este título não é primariamente uma afirmação sobre Maria, mas sobre Jesus Cristo: afirmar que Maria é Mãe de Deus é afirmar que Aquele que nasceu dela é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, uma única Pessoa divina.

Θεοτόκος: etimologia grega, deipara latina e a unidade pessoal de Cristo

O termo grego Theotokos (Θεοτόκος) é composto por theos (Deus) e tikto (gerar, dar à luz). Na tradição oriental, o título também se exprime como Богородица em eslavo (Bogoroditsa, Mãe de Deus) e Deipara em latim. A sua força reside precisamente na afirmação da unidade pessoal de Cristo: como o ser humano nascido de Maria é o mesmo Filho eterno de Deus, Maria é verdadeiramente Mãe de Deus no sentido estritamente teológico e ontológico.

Esta afirmação não implica que Maria seja anterior a Deus ou que tenha gerado a natureza divina. Significa que a Pessoa divina do Verbo assumiu a natureza humana no seu seio, de tal modo que ela é a mãe desta Pessoa singular. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica (§495): “Maria é verdadeiramente Mãe de Deus, porque é mãe do Filho eterno de Deus feito homem, que é Ele mesmo Deus.”

Ícone encáustico bizantino, a Virgem Maria sentada no trono com o Menino ao colo, entre São Teodoro e São Jorge, com dois anjos atrás do trono a olhar para o alto
Autor bizantino anônimo, «Virgem com o Menino entronizada entre São Teodoro e São Jorge», século VI ou início do VII, Mosteiro de Santa Catarina, Sinai

A controvérsia nestoriana e o Concílio de Éfeso (431)

O título Theotokos esteve no centro de uma das maiores controvérsias cristológicas da Antiguidade. Nestório, patriarca de Constantinopla desde 428, preferia o título Christotokos (“Mãe de Cristo”), argumentando que Maria havia gerado apenas a natureza humana de Cristo e não a sua Pessoa divina. Esta posição, que tendia a separar em Cristo as duas naturezas como se fossem dois sujeitos distintos, foi condenada pelo Concílio de Éfeso em 431.

O Concílio de Éfeso, presidido por São Cirilo de Alexandria, definiu que em Cristo existe uma única Pessoa divina em duas naturezas. Por conseguinte, Maria é verdadeiramente Theotokos: mãe da Pessoa do Verbo encarnado. A recepção desta definição foi entusiástica: segundo os relatos históricos, o povo de Éfeso celebrou a decisão conciliar com procissões de archotes durante a noite. Nenhum outro título mariano tem uma definição dogmática tão explícita e tão central para a cristologia.

A Theotokos nas fontes: antes, durante e depois de Éfeso

Um século antes de Éfeso: o título já estava na boca dos bispos

O título não foi inventado em 431. Alexandre, bispo de Alexandria, escrevendo contra Ário nos primeiros anos da crise ariana, confessa numa carta que Teodoreto conservou na sua História eclesiástica que Cristo

«σῶμα φορέσας ἀληθῶς καὶ οὐ δοκήσει ἐκ τῆς θεοτόκου Μαρίας». «tomou um corpo verdadeiramente, e não em aparência, da Mãe de Deus Maria» (Alexandre de Alexandria, em Teodoreto, Historia ecclesiastica I,3, PG 82, 908).

O historiador Sócrates, escrevendo poucos anos depois de Éfeso, acrescenta dois testemunhos que mostram como o título era antigo. Orígenes, diz ele, no primeiro livro do comentário à Carta aos Romanos, explicou longamente em que sentido Maria se chama Theotokos, e Eusébio de Cesareia, na Vida de Constantino, escreve que a imperatriz Helena honrou com monumentos admiráveis «τῆς Θεοτόκου τὴν κύησιν», «a gestação da Mãe de Deus», em Belém (Sócrates, Historia ecclesiastica VII,32, PG 67, 812). E conclui com uma frase que resume a controvérsia inteira:

«Τοῦτο θαρροῦντες οἱ παλαιοὶ Θεοτόκον τὴν Μαρίαν λέγειν οὐκ ὤκνησαν». «Confiados nisto, os antigos não hesitaram em chamar a Maria Mãe de Deus» (ibid.).

«Ninguém chame a Maria Mãe de Deus»: como começou a crise

A crise começou num púlpito. Nestório, chegado de Antioquia para ser bispo de Constantinopla em 428, trouxe consigo um presbítero chamado Anastásio, que um dia pregou na igreja:

«Θεοτόκον τὴν Μαρίαν καλείτω μηδείς. Μαρία γὰρ ἄνθρωπος ἦν· ὑπὸ ἀνθρώπου δὲ Θεὸν τεχθῆναι ἀδύνατον». «Ninguém chame a Maria Mãe de Deus. Maria era um ser humano, e é impossível que Deus nasça de um ser humano» (Sócrates, Historia ecclesiastica VII,32, PG 67, 808).

O escândalo foi imediato, conta Sócrates, porque clérigos e leigos tinham aprendido desde há muito a confessar Cristo como Deus (ibid.). Nestório tomou a defesa do seu presbítero. Num dos sermões que a tradução latina de Mário Mercator conservou, argumenta: «Non peperit creatura eum qui est increabilis», «a criatura não deu à luz aquele que é incriado» (Nestório, Sermo I, PL 48, 761).

O juízo de Sócrates, que não era partidário de Cirilo, é severo e sóbrio ao mesmo tempo: Nestório não negava a divindade do Verbo, mas recuava diante de uma palavra, e isso por desconhecer a tradição. «Φαίνεται τοίνυν ὁ Νεστόριος ἀγνοήσας τὰς πραγματείας τῶν παλαιῶν», «vê-se, pois, que Nestório ignorava os escritos dos antigos» (Sócrates, Historia ecclesiastica VII,32, PG 67, 812).

Em Constantinopla, nesses mesmos anos, Proclo, que viria a ser bispo da cidade, pregou sobre a Mãe de Deus com uma das fórmulas mais densas da teologia mariana grega:

«Συνεκάλεσε γὰρ ἡμᾶς νῦν ἐνταῦθα ἡ ἁγία Θεοτόκος Παρθένος Μαρία, τὸ ἀμόλυντον τῆς παρθενίας κειμήλιον, ὁ λογικὸς τοῦ δευτέρου Ἀδὰμ παράδεισος, τὸ ἐργαστήριον τῆς ἑνώσεως τῶν φύσεων». «Reuniu-nos aqui a santa Mãe de Deus, a Virgem Maria, tesouro imaculado da virgindade, paraíso espiritual do segundo Adão, oficina da união das naturezas» (Proclo de Constantinopla, Homilia I, PG 65, 680).

O que o título diz e o que não diz: São Cirilo

A resposta de São Cirilo de Alexandria esclarece de uma vez o sentido do título. Na segunda carta a Nestório, que o Concílio de Éfeso leu e aprovou, explica que os santos Padres

«οὕτω τεθαρσήκασι Θεοτόκον εἰπεῖν τὴν ἁγίαν Παρθένον, οὐχ ὡς τῆς τοῦ Λόγου φύσεως ἤτοι τῆς θεότητος αὐτοῦ τὴν ἀρχὴν τοῦ εἶναι λαβούσης ἐκ τῆς ἁγίας Παρθένου, ἀλλ᾿ ὡς γεννηθέντος ἐξ αὐτῆς τοῦ ἁγίου σώματος […], ᾧ καὶ καθ᾿ ὑπόστασιν ἑνωθεὶς ὁ Λόγος, γεγεννῆσθαι λέγεται κατὰ σάρκα». «assim ousaram chamar à santa Virgem Mãe de Deus, não porque a natureza do Verbo, isto é, a sua divindade, tenha recebido da santa Virgem o princípio do seu ser, mas porque dela nasceu o santo corpo […] ao qual o Verbo se uniu segundo a hipóstase, e por isso se diz que nasceu segundo a carne» (Cirilo de Alexandria, Epistula IV, PG 77, 48, DS 251).

É a mesma distinção que o artigo faz acima: Maria não gerou a divindade, gerou segundo a carne a Pessoa divina do Verbo. Cirilo fixou-a depois no primeiro dos seus doze anátemas:

«Εἴ τις οὐχ ὁμολογεῖ Θεὸν εἶναι κατὰ ἀλήθειαν τὸν Ἐμμανουὴλ καὶ διὰ τοῦτο Θεοτόκον τὴν ἁγίαν Παρθένον (γεγέννηκε γὰρ σαρκικῶς σάρκα γεγονότα τὸν ἐκ Θεοῦ Λόγον), ἀνάθεμα ἔστω». «Se alguém não confessa que o Emanuel é verdadeiramente Deus, e que por isso a santa Virgem é Mãe de Deus (pois deu à luz segundo a carne o Verbo de Deus feito carne), seja anátema» (Cirilo de Alexandria, Epistula XVII, PG 77, 120, DS 252).

Em Éfeso e depois: a saudação de Cirilo e a Fórmula de União

A tradição atribui a Cirilo, e situa em Éfeso, na igreja dedicada a Santa Maria onde os bispos se reuniram, uma homilia contra Nestório que é ao mesmo tempo um hino:

«Χαίροις παρ᾿ ἡμῶν, Μαρία Θεοτόκε, τὸ σεμνὸν κειμήλιον ἁπάσης τῆς οἰκουμένης, ἡ λαμπὰς ἡ ἄσβεστος, ὁ στέφανος τῆς παρθενίας, τὸ σκῆπτρον τῆς ὀρθοδοξίας, ὁ ναὸς ὁ ἀκατάλυτος». «Salve, Maria, Mãe de Deus, tesouro venerável de toda a terra, lâmpada que não se apaga, coroa da virgindade, cetro da reta fé, templo indestrutível» (Cirilo de Alexandria, Homilia IV, «Ephesi in Nestorium», PG 77, 991).

A paz entre Alexandria e Antioquia chegou dois anos depois, em 433, com a chamada Fórmula de União, que Cirilo, como ele próprio diz, inseriu palavra por palavra na carta Laetentur caeli. Nela os orientais ligados a João de Antioquia, muitos dos quais tinham defendido Nestório, confessam:

«Κατὰ ταύτην τὴν τῆς ἀσυγχύτου ἑνώσεως ἔννοιαν ὁμολογοῦμεν τὴν ἁγίαν Παρθένον Θεοτόκον, διὰ τὸ τὸν Θεὸν Λόγον σαρκωθῆναι καὶ ἐνανθρωπῆσαι, καὶ ἐξ αὐτῆς τῆς συλλήψεως ἑνῶσαι ἑαυτῷ τὸν ἐξ αὐτῆς ληφθέντα ναόν». «Segundo este conceito da união sem confusão, confessamos que a santa Virgem é Mãe de Deus, porque o Verbo de Deus se encarnou e se fez homem, e desde a própria concepção uniu a si o templo que dela tomou» (Fórmula de União, em Cirilo de Alexandria, Epistula XXXIX, PG 77, 177).

O título que um presbítero quisera proibir no púlpito de Constantinopla ficou, assim, como confissão comum das duas grandes escolas teológicas do Oriente. É essa confissão que Calcedónia retoma em 451, e que a Igreja reza até hoje.

De Calcedónia (451) a Lumen gentium §53: Theotokos nos concílios e no Magistério

O título Theotokos foi confirmado e aprofundado em todos os grandes concílios cristológicos posteriores. O Concílio de Calcedónia (451) reafirmou a dupla natureza de Cristo e, com ela, a legitimidade do título Theotokos. O Concílio Vaticano II, na constituição Lumen Gentium §53, declara: “A Virgem Maria que, ao anúncio do anjo, recebeu no coração e no corpo o Verbo de Deus e deu ao mundo a Vida, é reconhecida e venerada como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor.”

O Papa João Paulo II consagrou uma encíclica inteira a este tema: a Redemptoris Mater (1987). Nela, o Papa meditou profundamente sobre a maternidade divina de Maria como fundamento de toda a Teologia mariana. Esta encíclica, estudada na Mariologia acadêmica, tornou-se um dos documentos de referência para compreender a relação entre Maria e o mistério da Redenção.

Theotokos na tradição católica, ortodoxa e anglicana: o único título mariano de consenso ecumênico

O título Theotokos é um dos poucos elementos marianos partilhados pelas tradições católica, ortodoxa e algumas correntes anglicanas e luteranas. A Igreja Ortodoxa mantém uma devoção profundíssima à Theotokos, que ocupa no seu calendário litúrgico um lugar de primeira importância. Para o diálogo ecumênico, este título representa uma base de entendimento: todas as tradições que aceitam o Concílio de Éfeso reconhecem Maria como Mãe de Deus.

Na perspectiva da mariologia das aparições, nota-se que em muitas destas manifestações Nossa Senhora se apresenta precisamente como Mãe de Deus e Mãe da Igreja, confirmando o título Theotokos na experiência espiritual do povo cristão. A formação acadêmica rigorosa sobre este tema está disponível na Pós-Graduação em Mariologia do Instituto Locus Mariologicus.

Dos mosaicos de Ravena (séc. VI) aos ícones bizantinos: Theotokos na iconografia e na liturgia oriental

O título Theotokos modelou profundamente a arte e a liturgia cristãs. A iconografia mariana oriental, desde os mosaicos de Ravena (século VI) até aos ícones bizantinos, representa frequentemente Maria como Theotokos, sentada no trono com o Menino Jesus nos joelhos, sublinhando simultaneamente a sua maternidade humana e divina. No Ocidente, a imagem da Virgem em Majestade (Maestà) cumpre função semelhante.

Na liturgia latina, o Cânon Romano (Oração Eucarística I) invoca Maria como “gloriosa sempre-Virgem Maria, Mãe do nosso Deus e Senhor Jesus Cristo”. O rezo do Ângelus, três vezes por dia, recita as palavras do arcanjo Gabriel e recorda a maternidade divina de Maria. Estas formas litúrgicas são expressões vivas do dogma definido em Éfeso, integradas na oração cotidiana da Igreja universal.

O que significa Theotokos?

Theotokos é um título grego que significa Mãe de Deus ou Portadora de Deus. Foi definido dogmaticamente no Concílio de Éfeso (431 d.C.) para afirmar que Jesus Cristo é uma única Pessoa divina em duas naturezas. Como a Pessoa do Verbo eterno nasceu de Maria, ela é verdadeiramente Mãe de Deus.

Porque é que o Concílio de Éfeso definiu o título Theotokos?

O Concílio de Éfeso (431) foi convocado para responder à heresia nestoriana, que tendia a separar em Cristo duas pessoas distintas. Ao definir que Maria é Theotokos, o Concílio afirmou que Cristo é uma única Pessoa divina e humana ao mesmo tempo, e que Maria é mãe desta Pessoa única.

O título Theotokos é aceite por outras confissões cristãs?

Sim. O título Theotokos é aceite pela Igreja Católica, pela Igreja Ortodoxa e por muitas comunidades anglicanas e luteranas que reconhecem o Concílio de Éfeso. É por isso um ponto de encontro no diálogo ecumênico: todas estas tradições afirmam que Maria é Mãe de Deus no sentido cristológico definido em Éfeso.

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Para aprofundar: as fontes conciliares

Perguntas frequentes

O que significa Theotokos? «Aquela que gera Deus» – ou seja, Mãe de Deus.

Onde foi definido? No Concílio de Éfeso, em 431, contra Nestório.

Maria é Mãe de Deus ou Mãe de Cristo? As duas – mas «Mãe de Deus» é mais exata, porque gerou a Pessoa que é Deus.

Theotokos é um dogma mariano ou cristológico? É os dois: ao afirmar Maria Mãe de Deus, confessa-se que Jesus é uma só Pessoa divina.

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