Misit ad eos filium suum dilectum: Maria e o Filho enviado pelo Pai

Adhuc ergo unum habens filium dilectum, misit illum quoque ad eos novissimum, dicens: Reverebuntur filium meum.
Mc 12,6
Misit filium suum: a parábola dos vinheiros homicidas (Mc 12,1-12) é uma das mais dramáticas de toda a tradição sinóptica: o dono de uma vinha envia sucessivos servos, todos maltratados ou mortos, e por último «envia-lhes o seu filho amado», esperando que o respeitem. Os vinheiros matam-no. Jesus conta esta parábola poucos dias antes da sua própria Paixão, fazendo-se a si mesmo o personagem central: ele é o «filho amado» enviado pelo Pai, a quem os responsáveis de Israel rejeitarão e matarão. A mariologia encontra nesta parábola uma das suas afirmações mais radicais sobre o papel de Maria: ela que tornou possível o «ser enviado» do Filho eterno ao mundo, ela é a que abriu a porta da «vinha» da história humana ao Filho que o Pai enviou.
I. Misit filium suum: a parábola e o seu horizonte cristológico
A parábola baseia-se na imagem da vinha, profundamente enraizada na tradição profética de Israel: Is 5,1-7 canta a vinha que o Senhor plantou com amor e que deu uvas silvestres. Marcos retoma esta imagem, mas com uma densidade cristológica que Isaías não podia antecipar: o «dono da vinha» é o Pai. Os «vinheiros» são os líderes religiosos de Israel. Os «servos» são os profetas. E o «filho amado» (huion agapēton) é o próprio Jesus. O título «filho amado» ecoa o da Transfiguração (Mc 9,7) e do Baptismo (Mc 1,11): é o título com que o Pai identifica Jesus como o Filho único, o predilecto.
A lógica do Pai na parábola é paradoxal: depois de todos os servos terem sido maltratados, ele ainda envia o filho. «Respeitarão o meu filho», a esperança do Pai é irracional do ponto de vista humano, mas é a lógica do amor que não desiste. Esta esperança do Pai é precisamente o que a teologia da Encarnação afirma: Deus não desistiu da humanidade apesar da sua rejeição continuada. O envio do Filho é o acto definitivo de uma esperança que ultrapassa toda a lógica humana.
O «últimamente» (novissimum) do envio do Filho é central: após os profetas, após toda a história da Aliança, o Pai envia o Filho como gesto definitivo e irrepetível. A história da salvação tem a sua estrutura própria: da Criação à Aliança, da Aliança aos Profetas, dos Profetas ao Filho. Maria está neste «novissimum»: ela que concebeu o Filho na plenitude dos tempos (Gl 4,4) é o ponto de inflexão da história onde o «último» envio do Pai se torna realidade histórica e concreta.
O desfecho da parábola aponta para a Cruz e para a Ressurreição: os vinheiros matam o filho, mas o Senhor da vinha fará dos rejeitadores dos rejeitados. «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular» (Mc 12,10, citando Sl 118,22), a parábola termina com uma inversão: o Filho rejeitado torna-se o fundamento definitivo da nova vinha. Maria, que esteve presente nesta rejeição (junto da Cruz) e na inversão (pela Ressurreição), é a testemunha por excelência desta lógica pascal.
II. Misit filium suum: a Encarnação como missão do Pai
Misit filium suum: o verbo mittere, «enviar», é estrutural na teologia joânica (Jo 3,16-17; 5,36; 20,21) e está presente também em Paulo (Gl 4,4: «Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher»). O «ser enviado» do Filho não é um movimento externo, como quem recebe uma ordem de fora: é a expressão da relação eterna entre o Pai e o Filho, que no tempo assume a forma de «missão». O Filho «enviado» não é menos Filho, é Filho que age como tal na obediência amorosa ao Pai. O «misit filium suum» da parábola é a fórmula condensada da Encarnação no horizonte trinitário.
Maria está no coração desta «missão». Gl 4,4 é lapidar: «Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei». O «nascido de mulher» não é um detalhe biográfico, é a condição da missão: para que o Filho seja «enviado» ao mundo de modo real e eficaz, para que a sua missão toque a humanidade de dentro, é necessário que ele seja «nascido de mulher». Maria é a condição histórica do cumprimento da missão que o Pai confiou ao Filho.
A teologia patrística explorou este ponto com grande fecundidade. Ireneu de Lião, na sua polémica com o Gnosticismo, que negava a realidade da carne de Jesus, insistia que a «missão do Filho» implica o «nascimento de Maria». Não um nascimento aparente, não uma carne «adoptada» passageiramente, um nascimento real, que fez do Filho eterno um homem concreto com uma mãe concreta, uma história concreta, uma carne concreta que poderia ser oferecida em sacrifício real. Maria é a garantia da realidade da missão.
A consequência mariológica é directa: honrar Maria é honrar a missão do Filho. Negar a importância de Maria, como se o «nascimento de mulher» fosse um detalhe dispensável, equivale a enfraquecer a seriedade da «missão» que o Pai confiou ao Filho. O Pai que enviou o «filho amado» quis que esse filho viesse como «filho de Maria»: e esta vontade do Pai não é periférica mas constitutiva do plano de salvação.
III. Misit filium suum: Maria e a «Vinha» do novo testamento
No horizonte de Misit filium suum, João 15,1 declara: «Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai é o agricultor». A imagem da vinha que Marcos usa na parábola dos vinheiros reaparece no Evangelho de João, desta vez com Jesus como a própria videira. Maria, que é simultaneamente a «filha de Israel» (a vinha do Antigo Testamento em sentido tipológico) e a «Mãe da Igreja» (que cresce a partir da videira que é Cristo), ocupa um lugar único na história desta «vinha». O «misit filium suum» do Pai encontra em Maria o solo histórico onde o Filho enviado pode dar fruto.
A mariologia identificou em Maria o «ramo» mais fecundo da videira verdadeira que é Cristo: ela que «deu fruto» em sentido primordial, o Fruto da Encarnação, é o modelo de toda a fecundidade espiritual que a vinha produz. Os «vinheiros» da parábola que rejeitam o filho são o oposto de Maria: onde eles negam a missão, ela acolhe-a. Onde eles expulsam o filho da vinha, ela o introduz na vinha da história humana.
A tipologia do «Jardim» atravessa toda a Escritura: do Jardim do Éden ao Jardim da Ressurreição (Jo 20,15, Maria Madalena pensa que Jesus é o «jardineiro»). Maria, que é associada ao «jardim fechado» do Cântico dos Cânticos (Ct 4,12), é a «vinha» que o Senhor cultivou com cuidado particular desde a Imaculada Conceição. A parábola dos vinheiros homicidas termina com a certeza de que o Senhor da vinha retomará a sua vinha e a confiará a outros, e Maria, que nunca foi «vinheiro homicida» mas sempre «servo fiel», é o modelo da nova comunidade que receberá a vinha depois da rejeição dos primeiros.
A dimensão eclesial desta figura é importante: a Igreja que recebeu a vinha após a rejeição dos primeiros gestores é a «nova vinha» que o Senhor planta a partir do Filho ressuscitado. Maria, como Mãe da Igreja, está no coração desta nova plantação: ela que gerou o Filho que é a «videira verdadeira» é também a Mãe dos ramos que nessa videira crescem. A parábola dos vinheiros homicidas aponta, no seu final, para a «nova criação» onde a vinha do Senhor produz afinal o fruto que sempre esperou.
IV. Misit filium suum: a esperança do Pai e a fé de Maria
Misit filium suum: «Respeitarão o meu filho», esta esperança do Pai na parábola é confirmada, paradoxalmente, não pelos grandes de Israel, mas pela fé de Maria. Ela que disse «fiat» ao anúncio do anjo foi a primeira a «respeitar» o Filho enviado pelo Pai, não com o respeito exterior de quem cumpre uma obrigação, mas com o amor total de quem reconhece na missão do Filho a expressão da vontade mais profunda de Deus. No «misit filium suum» da parábola, Maria é a única que verdadeiramente «respeitou» o Filho enviado.
A fé de Maria, que a liturgia e a teologia sempre associaram à fé de Abraão como os dois grandes actos de fé da história da salvação, é precisamente este «respeitar o Filho enviado». Abraão acreditou na promessa e foi justificado (Rm 4,3). Maria acreditou no anúncio e gerou o cumprimento da promessa (Lc 1,45). Em ambos os casos, é a fé que «recebe» o Filho enviado pelo Pai e que abre o espaço histórico onde a missão pode cumprir-se.
O Magnificat (Lc 1,46-55) é, nesta perspectiva, o cântico de quem «respeitou» o Filho enviado pelo Pai e viu nele o cumprimento de toda a história de Israel. Maria que proclama «o Omnipotente fez em mim maravilhas» não está apenas a descrever o que lhe aconteceu, está a interpretar theologicamente a missão do Filho: esta missão não é uma novidade arbitrária, mas o cumprimento do que Deus prometeu «a Abraão e à sua descendência para sempre» (Lc 1,55).
A devoção cristã a Maria tem, nesta lógica, uma dimensão fundamentalmente cristológica: venerar Maria é reconhecer que o «Filho amado enviado pelo Pai» chegou ao mundo através dela, que a missão que o Pai confiou ao Filho encontrou nela o seu ponto de entrada. Honrar Maria é honrar a lógica do amor do Pai que «esperou» que a humanidade respeitasse o seu Filho, e viu essa esperança cumprida, de modo exemplar, numa filha de Israel chamada Maria de Nazaré.
Maria, que recebeu com fé total o Filho amado enviado pelo Pai, é o primeiro e mais perfeito cumprimento da esperança paterna: a criatura que «respeitou» o Filho e abriu à missão divina as portas da história humana.
Referências
- Ireneu de Lião, Adversus Haereses, III, 22 (séc. II).
- João Paulo II, Redemptoris Mater, n. 12-14 (1987).
- Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 56 (1964).
- R. Pesch, Das Markusevangelium, vol. II (1977).
- A. Serra, Maria e la Parola di Dio (1984).
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