«Superaedificati super fundamentum apostolorum»: Simão, judas e Maria, mãe da Igreja

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Superaedificati super fundamentum apostolorum et prophetarum, ipso summo angulari lapide Christo Iesu.
Ef 2,20
A festa de Santos Simão e Judas (28 de Outubro) une Ef 2, onde Paulo descreve a Igreja como «um edifício construído sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Cristo Jesus como pedra angular», a Lc 6, onde Jesus passa a noite em oração antes de escolher os doze apóstolos, entre os quais Simão, chamado Zelota, e Judas, filho de Tiago. Ambos os textos descrevem a mesma fundação: a Igreja que nasce da noite de oração de Jesus (Lc 6) e que tem os apóstolos como fundamento eterno (Ef 2). Maria que estava presente com os apóstolos no Cenáculo (Ac 1,14) e que é a Mãe da Igreja é o centro desta fundação apostólica.
I. A primeira leitura: Ef 2,19-22
Paulo apresenta a identidade da Igreja como comunidade de «concidadãos dos santos e familiares de Deus» (v.19): não mais estrangeiros nem peregrinos mas membros da família. O fundamento desta comunidade é duplo: os apóstolos e os profetas (v.20). A pedra angular é Cristo Jesus. A imagem arquitectónica é precisa: o fundamento suporta todo o edifício, e Cristo como «pedra angular» é a que une as duas paredes do edifício, judeus e gentios, o Israel antigo e o povo novo.
«Em quem toda a estrutura, bem ordenada, cresce para se tornar um templo santo no Senhor» (v.21): o edifício não está acabado, cresce. A Igreja não é um monumento estático mas um templo em construção, «morada de Deus no Espírito» (v.22). O Espírito que habita no templo é o mesmo Espírito que Jesus prometeu aos apóstolos e que sobre eles desceu no Pentecoste, com Maria no centro (Ac 1,14; 2,1-4).
II. O evangelho: Lc 6,12-16
A eleição dos doze começa com uma noite de oração: «Jesus foi ao monte para orar e passou a noite em oração a Deus» (v.12). A manhã seguinte é a manhã da Igreja: Jesus chama os seus discípulos e escolhe doze, o número das tribos de Israel, o número do novo povo de Deus. A lista inclui Simão Pedro, André, Tiago, João, e «Simão chamado Zelota» e «Judas filho de Tiago» (v.15-16).
Simão Zelote e Judas Tadeu são os apóstolos mais silenciosos dos Evangelhos: não têm palavras registadas, não têm episódios próprios. A sua grandeza é a grandeza do fundamento: não se vê, mas suporta todo o edifício. A oração de Jesus na noite que precede a sua eleição (Lc 6,12) é a origem de toda a fundação apostólica; o fundamento foi escolhido na oração antes de ser nomeado.
III. A noite de oração e o fundamento eterno
Ef 2 e Lc 6 descrevem a mesma fundação de dois momentos. Lc 6 descreve o momento histórico: uma noite de oração de Jesus gera os doze que serão o fundamento. Ef 2 descreve a realidade teológica permanente: a Igreja é edificada sobre esse fundamento apostólico de forma definitiva. O fundamento de Ef 2 é o resultado da oração de Lc 6.
Simão Zelote e Judas Tadeu, os mais silenciosos do grupo, ensinam que o fundamento não precisa de ser visível para ser real. A força do fundamento está em suportar o edifício, não em aparecer. «Em quem toda a estrutura… cresce para se tornar um templo» (Ef 2,21): o crescimento do templo glorifica os fundamentos invisíveis tanto como a pedra angular visível.
IV. Maria: mãe da Igreja apostólica
Maria é a «concidadã dos santos e familiar de Deus» (Ef 2,19) mais perfeita. Estava presente quando os apóstolos foram escolhidos, seguia o grupo de discípulos. Estava com eles no Cenáculo enquanto aguardavam o Espírito (Ac 1,14), e recebeu o Espírito no Pentecoste como membro da comunidade apostólica. A «morada de Deus no Espírito» (Ef 2,22) tinha em Maria o seu primeiro cumprimento: o Espírito habitou nela antes de habitar no templo da Igreja.
A festa de Simão e Judas é a festa dos fundamentos silenciosos, e Maria é o modelo de quem serviu silenciosamente o edifício da Igreja. Não fundou nenhuma comunidade, não escreveu nenhuma carta, não pregou em praça pública. Mas o edifício da Igreja repousa sobre o seu «Fiat» tanto como sobre o fundamento dos apóstolos: sem a sua aceitação, a pedra angular não teria podido ser colocada. A quarta-feira da Semana XXXI convida a honrar os fundamentos silenciosos, Simão, Judas e Maria, sobre os quais o templo do Espírito continua a crescer.
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