«Nihil sub sole novum»: Coélet, a curiosidade de Herodes e a única novidade

«Messis multa, operarii autem pauci»: nemias, o envio dos setenta e dois e Maria

Nihil sub sole novum. […] Quis est autem iste, de quo audio ego talia? Et quaerebat videre eum.
Ecl 1,9 e Lc 9,9

A quinta-feira da Semana XXV do Tempo Comum coloca frente a frente o livro mais desencantado da Bíblia e um rei que não consegue perceber o que se passa no seu território. Coélet declara que tudo é vaidade e que nada há de novo debaixo do sol. Herodes ouve falar de Jesus, fica perplexo, e a frase com que Lucas o despede é uma das mais tristes do evangelho: «e procurava ver Jesus» (v.9). Um texto diz que não há novidade. O outro mostra um homem diante da novidade absoluta, incapaz de a reconhecer.

I. A primeira leitura: Ecl 1,2-11

A palavra hebraica que a tradição traduziu por vaidade é hebel, que significa literalmente sopro, vapor, aquilo que se dissipa mal se forma. «Vaidade das vaidades, tudo é vaidade» (v.2) não é um insulto moral ao mundo, é uma constatação sobre a sua consistência. Nada daquilo que o homem constrói tem peso suficiente para durar.

Coélet demonstra-o com uma série de ciclos naturais que não vão a lado nenhum. O sol nasce e põe-se e volta ao ponto de partida. O vento sopra do Sul e depois do Norte, «num vaivém constante» (v.6). Os rios correm para o mar e o mar nunca se enche. E daqui a conclusão: «o que foi será outra vez e o que se deu voltará a acontecer, nada de novo debaixo do sol» (v.9). O golpe final é o esquecimento: «nenhuma memória ficou dos tempos antigos, nem haverá lembrança dos acontecimentos futuros entre aqueles que vierem depois» (v.11).

Convém não domesticar este texto. Ele está na Escritura como está, e a Igreja lê-o sem lhe acrescentar consolação. A sua função é destruir a esperança que o homem deposita naquilo que faz debaixo do sol, para que a esperança verdadeira não seja construída sobre areia.

II. O evangelho: Lc 9,7-9

Herodes Antipas, o tetrarca, ouve os relatos e fica perplexo. As hipóteses que circulam são todas do mesmo tipo: João Batista ressuscitado, Elias reaparecido, um dos antigos profetas que voltou (v.7-8). Todas elas são, no fundo, a tese de Coélet aplicada à religião. Nada de novo. É sempre alguém que já cá esteve a voltar.

A objeção de Herodes é de uma frieza notável: «a João mandei-o eu decapitar» (v.9). Ele sabe o que fez e menciona-o sem qualquer sinal de remorso, como quem elimina uma explicação por razões técnicas. E termina com a pergunta certa, «quem é este homem, de quem ouço dizer tais coisas?», seguida daquilo que anula tudo: «e procurava ver Jesus».

Lucas guardará o desfecho para a Paixão. Herodes acabará por ver Jesus, e alegrar-se-á muito, porque «esperava vê-lo fazer algum milagre» (Lc 23,8). Interrogou-o longamente e Jesus não lhe respondeu nada. Quem procura ver por curiosidade acaba diante do silêncio, e o silêncio é a resposta exata àquela procura.

III. Curiosidade que não chega a ser fé

A distância entre Herodes e um discípulo não se mede pela informação. Herodes estava bem informado, ouvia tudo o que se dizia, formulou a pergunta cristológica correta e até quis ver com os próprios olhos. Faltava-lhe apenas aquilo que transforma a curiosidade em fé, e que é a disposição de ser mudado por aquilo que se vai encontrar.

É por isso que o cinismo de Coélet e a perplexidade de Herodes se parecem tanto. Quem já decidiu que nada de novo pode acontecer debaixo do sol organizará todas as informações que receber dentro desse pressuposto. As hipóteses da corte, João ressuscitado ou Elias reaparecido, são exatamente isso, tentativas de encaixar o inédito em categorias já existentes. E o inédito, quando aparece, nunca cabe nelas.

IV. Maria e a única novidade debaixo do sol

Se «nada de novo debaixo do sol» descreve com exatidão a história humana entregue a si mesma, então convém dizer onde é que a Escritura afirma o contrário. E o lugar é uma casa de Nazaré. Aquilo que ali aconteceu não é um ciclo que se repete nem um profeta que volta. É o Verbo que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14), e não tem precedente nenhum na série dos acontecimentos.

A tradição patrística encontrou a formulação certa para esta novidade ao chamar a Maria a nova Eva. O Concílio recolhe-a e recorda que os Padres antigos afirmam que o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, e que o que a virgem Eva ligou pela incredulidade a Virgem Maria desatou pela fé (LG 56, citando santo Ireneu). Não é um novo ciclo. É um nó desfeito, e um nó desfeito não volta a ser o que era.

Há ainda o contraste com Herodes, que Lucas parece construir de propósito ao longo do seu evangelho. Os dois ouvem falar de coisas que não compreendem. Herodes procura ver e permanece de fora. Maria, diante do que também não compreende, faz outra coisa: «guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração» (Lc 2,19). Guardar não é entender. É aceitar carregar por dentro aquilo cuja explicação ainda não chegou. Foi assim que a novidade encontrou alguém em quem coubesse.

A quinta-feira da Semana XXV deixa portanto uma pergunta que separa duas atitudes muito parecidas por fora. Procuramos ver, ou procuramos ser mudados? Porque a primeira coisa Herodes também a quis, e ficou com o silêncio.

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