Orígenes – Peri archon I, 5: de contrariis virtutibus (Sources chrétiennes 252)

Orígenes – Peri archon I, 5: de contrariis virtutibus (Sources chrétiennes 252)

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O Peri Archon (De Principiis) de Orígenes (185-253), livro I capítulo 5 «De contrariis virtutibus», é a primeira sistematização patrística do problema das «potências contrárias» (anjos rebeldes e demônios). Texto na edição crítica Sources Chrétiennes 252 (1978), com o texto latino de Rufino e tradução francesa. Orígenes foi mais tarde parcialmente condenado pelo II Concílio de Constantinopla (553) pela apocatástase, mas grande parte da sua angeologia foi recebida na tradição posterior.

AutorOrígenes de Alexandria (185-253)
ObraPeri Archon (De Principiis) – Livro I, cap. 5
Edição críticaSources Chrétiennes 252 (1978), ed. Crouzel-Simonetti
Língua originalGrego (perdido); texto latino de Rufino de Aquileia (séc. IV-V)
Composiçãocerca de 220-225 em Alexandria

Texto latino – Peri Archon I, 5, 2 (Rufino)

«Tum deinde sciendum est quia omne quod rationabile est et rationis terminos statutaque declinat, sine dubio per praevaricationem recti iustique efficitur in peccato. Est ergo omnis creatura rationabilis laudis et culpae capax: laudis, si secundum rationem, quam in se habet, ad meliora proficiat, culpae, si rationem recti tenoremque declinet, propter quod recte etiam poenis ac suppliciis subiacet.

Quod etiam de ipso diabolo et his, qui cum ipso sunt et dicuntur eius angeli, sentiendum est.»

Tradução portuguesa – Peri Archon I, 5, 2

«Em seguida, deve-se saber que tudo o que é racional e se desvia dos limites e das normas da razão, sem dúvida pela transgressão do que é reto e justo, fica em pecado. Toda criatura racional é, portanto, capaz de louvor e de culpa: de louvor, se progredir para o melhor segundo a razão que tem em si, de culpa, se se desviar da norma do que é reto e do seu curso. Por isso, com razão, está também sujeita a penas e suplícios.

O mesmo se deve pensar também do próprio diabo e daqueles que estão com ele e são chamados seus anjos.»

Texto latino – I, 5, 2 (continuação – os nomes do diabo)

«Diaboli igitur nomen et Satanae et maligni in multis scripturae locis designatur, qui et inimicus Dei esse describitur. Necnon et quidam angeli diaboli nominantur, sed et princeps mundi huius, qui utrum ipse sit diabolus an alius quis, nondum manifeste declaratum est. Principes quoque huius mundi quidam dicuntur sapientiam quandam habentes quae destruetur; sed utrum ipsi sint isti principes, qui et illi sunt principatus, adversum quos nobis est conluctatio, an alii sint, non facile mihi ab aliquo pronuntiandum videtur.»

Tradução portuguesa – I, 5, 2 (continuação)

«O nome de diabo, de Satanás e de maligno é indicado em muitos lugares da Escritura, e ele é descrito também como inimigo de Deus. São nomeados também certos anjos do diabo, e ainda o príncipe deste mundo, do qual ainda não foi declarado claramente se é o próprio diabo ou algum outro. Diz-se também de certos príncipes deste mundo que têm uma sabedoria que será destruída. Mas se esses príncipes são os mesmos que também são aqueles principados contra os quais é a nossa luta, ou se são outros, não me parece que alguém o possa declarar facilmente.»

I, 5, 3 – O carácter acidental das criaturas racionais

Latino (Rufino): «Igitur tot et tantis ordinum officiorumque nominibus cognominatis, quibus certum est subesse substantias, requirendum est, utrum conditor et creator omnium deus quosdam quidem ex his ita sanctos fecerit ac beatos, ut nihil possint recipere omnino contrarium, et quosdam ita fecerit, ut possint tam virtutis quam malitiae effici capaces…»

Português: «Tendo sido, pois, mencionados tantos e tão grandes nomes de ordens e de ofícios, sob os quais é certo que existem substâncias, deve-se investigar se Deus, fundador e criador de todas as coisas, fez alguns deles tão santos e bem-aventurados que não possam receber absolutamente nada de contrário, e fez outros de tal modo que possam tornar-se capazes tanto de virtude como de malícia…»

I, 5, 3 – A conclusão da liberdade original

Latino (Rufino): «Quodsi haec ita de malis contrariisque virtutibus intellegi videtur absurdum, sicut certe absurdum est, ut causa malitiae ipsarum, remota ab arbitrii sui proposito, conditori earum necessario adscribatur: quomodo non etiam de bonis sanctisque virtutibus cogimur similia confiteri, id est quia non substantiale sit in ipsis bonum, quod utique in solo Christo et in spiritu sancto evidenter ostendimus, sine dubio utique et in patre. Non enim trinitatis natura habere aliquid conpositionis ostensa est, ut haec ei consequenter videantur accidere. Unde superest ut in omni creatura sui operis suorumque motuum fuerit quod virtutes istae, quae vel principatum agere in aliis vel potestatem exercere vel dominationem videntur, ex merito, et non per conditionis praerogativam praelatae sint et superpositae his, quibus praeesse vel his, in quos potestatem exercere dicuntur.»

Português: «Se, porém, parece absurdo entender assim estas coisas a respeito das potências más e contrárias, como certamente é absurdo que a causa da malícia delas, afastada da escolha do seu próprio arbítrio, seja atribuída necessariamente ao seu criador, como não seremos forçados a confessar algo semelhante também a respeito das potências boas e santas, isto é, que o bem não é nelas substancial, como mostramos com evidência que o é só em Cristo e no Espírito Santo, e sem dúvida também no Pai? Pois não se mostrou que a natureza da Trindade tenha alguma composição, de modo que estas coisas lhe pareçam acontecer por consequência. Resta, portanto, que em toda criatura tenha dependido da sua própria obra e dos seus próprios movimentos que estas potências, que parecem exercer o principado sobre outras, ou exercer o poder, ou o domínio, tenham sido preferidas e postas acima daqueles a quem se diz que presidem ou sobre os quais se diz que exercem o poder, por mérito, e não por prerrogativa da sua condição.»

As cinco teses centrais de Orígenes em Peri Archon I, 5

  1. Todas as criaturas racionais são livres, capazes de louvor ou culpa
  2. A diferença entre anjos bons e maus não é substancial mas resultado de escolha livre
  3. O Diabo e os seus anjos seguem a mesma lei da liberdade que os outros seres racionais
  4. Os «Príncipes deste mundo» (1Cor 2,6) são potências angélicas em luta contra Cristo
  5. A apocatástase final (restauração de tudo), tese problemática que será condenada no II Concílio de Constantinopla (553)

O que foi condenado no II Concílio de Constantinopla (553)

Os 15 anátemas anti-origenistas do II Concílio de Constantinopla (553) condenaram especificamente:

  • Anátema 1: Pré-existência das almas
  • Anátema 2: Anjos como almas pré-existentes
  • Anátema 14 (cf. anátema 1): Apocatástase, a reunião final de todos os seres racionais numa unidade

Estes pontos específicos do Peri Archon foram rejeitados, mas a doutrina geral da liberdade dos anjos e da bondade original da criação foi recebida e aprofundada por:

  • São Atanásio
  • São João Crisóstomo
  • São Agostinho, De Civitate Dei XI-XII
  • Pseudo-Dionísio Areopagita
  • São Tomás de Aquino, Suma Teológica I, qq. 50-64

Influência posterior

Apesar das condenações parciais, Orígenes permaneceu como referência patrística fundamental para a angeologia. A sua tese central, que os anjos são livres e a sua condição (boa ou má) é fruto da sua escolha, foi consagrada como dogma no Concílio Lateranense IV (1215) e retomada pelo Catecismo da Igreja Católica (1992).

Leitura complementar

Constantinopla II – Anátemas anti-origenistas | Angeologia Patrística | Latrão IV – Firmiter | São Tomás – Tratado dos Anjos

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