O rebento de jessé e o baptismo de fogo: Is 11, rom 15 e João baptista em Mt 3

Egredietur virga de radice Iesse, et flos de radice eius ascendet.
Is 11,1

O segundo domingo do Advento do Ano A articula três textos em torno do Precursor e do Rei que ele anuncia. Is 11,1-10 proclama o rebento que sairá da raiz de Jessé: sobre ele repousará o espírito do Senhor, e no seu reino o lobo habitará com o cordeiro e a terra estará cheia do conhecimento de Deus. Rom 15,4-9 lembra que as Escrituras foram escritas para nossa instrução e pede que os fiéis se acolham uns aos outros como Cristo os acolheu. Mt 3,1-12 apresenta João Baptista no deserto da Judeia proclamando o arrependimento, anunciando o que vem atrás de si e que baptizará com o Espírito Santo e com fogo. Os três textos descrevem a mesma preparação: a profecia que configura a espera, o comportamento que corresponde à vinda, e o anúncio profético que prepara o caminho.

I. A primeira leitura: Is 11,1-10

Isaías anuncia um rebento que sairá do tronco de Jessé e um ramo que brotará das suas raízes (Is 11,1). Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor do Senhor (v.2). Não julgará segundo a aparência nem decidirá segundo o rumor, mas julgará com justiça os pobres e com equidade os humildes da terra (vv.3-4). E a visão do reino de paz: o lobo habitará com o cordeiro, o leopardo deitará com o cabrito, o novilho e o leão pascerão juntos e uma criança os conduzirá (v.6). A criança de peito brincará sobre a toca da áspide (v.8). «Não haverá mal nem corrupção em todo o meu santo monte, porque a terra estará cheia do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar» (v.9). O rebento de Jessé não é apenas um rei político: é a irrupção de uma nova criação. O Advento espera não a restauração de um passado, mas a inauguração de um mundo que ainda não existiu.

II. A segunda leitura: Rom 15,4-9

Paulo fundamenta a exortação à unidade nas Escrituras do antigo Testamento: «Tudo o que foi escrito anteriormente foi escrito para nosso ensinamento, para que, pela paciência e pelo encorajamento das Escrituras, tenhamos esperança» (Rom 15,4). Pede que o Deus da paciência e do encorajamento lhes conceda pensar uns pelos outros à maneira de Cristo, para que unânimes e a uma só voz glorifiquem o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo (vv.5-6). E a exortação central: «Acolhei-vos uns aos outros como Cristo vos acolheu, para glória de Deus» (v.7). A razão histórica: Cristo tornou-se servidor dos circuncidados para confirmar as promessas feitas aos patriarcas, e para que os gentios glorifiquem a Deus pela sua misericórdia (vv.8-9). O acolhimento mútuo dos fiéis é a forma presente do reino que Isaías descreve: o lobo e o cordeiro a conviver não é apenas uma metáfora zoológica, é a figura do judeu e do gentio, do forte e do fraco, que Paulo pede que se acolham mutuamente na comunidade.

III. O evangelho: Mt 3,1-12

João Baptista aparece no deserto da Judeia proclamando: «Arrependei-vos, porque o reino dos céus está próximo» (Mt 3,2). Mateus vê no Baptista o cumprimento de Is 40,3: a voz que clama no deserto, preparai o caminho do Senhor, endireitai os seus atalhos. João usa uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro nos rins, e alimenta-se de gafanhotos e mel silvestre (v.4): a semelhança com Elias é intencional. Fariseus e saduceus chegam para serem baptizados e João interpela-os: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que vem? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento» (vv.7-8). O apelo ao sangue de Abraão não basta: «Deus pode fazer surgir filhos de Abraão destas pedras» (v.9). O machado já está posto à raiz das árvores (v.10). João distingue o seu baptismo do que vem: «Eu baptizo-vos com água para o arrependimento, mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e eu não sou digno de lhe levar as sandálias. Ele baptizará com o Espírito Santo e com fogo» (v.11). O papel do Baptista é preparatório e temporário: ele é o dedo que aponta, não o que é apontado.

IV. Maria e o rebento de jessé

A tradição patrística e litúrgica identificou Maria com a «virga» de Is 11,1: o ramo que sai da raiz de Jessé do qual brota a flor. Ambrósio, Jerónimo e a tradição latina viram na virga a Virgem e na flor o Cristo. A imagem é botanicamente sugestiva: o ramo não é a raiz nem a flor, mas é o que liga uma à outra. Maria não é a origem (a raiz de Jessé, a linhagem davídica) nem o fruto pleno (Cristo), mas é o que os une: a criatura de quem o Filho de Deus toma a humanidade. O rebento de Is 11 sobre quem repousa o espírito do Senhor é primeiro Cristo, mas a sombra do Espírito desceu sobre Maria antes de descer sobre qualquer outro: na Anunciação, «o Espírito Santo virá sobre ti» (Lc 1,35) antecipa o baptismo de Espírito Santo que João anuncia em Mt 3. Maria recebeu o baptismo do Espírito antes do Baptista o proclamar. Rom 15 pede que os fiéis se acolham uns aos outros como Cristo os acolheu. Maria acolheu Cristo no modo mais literal possível: no seu ventre, na sua vida, na sua casa. O Advento aprende com ela o que é o acolhimento: não a recepção passiva mas o sim activo que muda tudo.

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