São José padroeiro da Igreja universal: o decreto de 1870 e o que ele declarou
São José foi proclamado padroeiro da Igreja universal a 8 de dezembro de 1870, pelo beato Pio IX, através do decreto «Quemadmodum Deus» da Congregação dos Ritos, enquanto decorria o Concílio Vaticano I. A data é a da festa da Imaculada Conceição, e a coincidência foi deliberada.
A resposta é documental, e as obras da biblioteca da Locus permitem ir bem além da data. Elas mostram o que o decreto declarou, qual o precedente de 1847 que o preparou, quem pediu a proclamação dentro do Concílio e como o magistério posterior a desenvolveu, de Leão XIII até a carta apostólica «Patris Corde». Divergem também num ponto de vocabulário que vale a pena assinalar.
Quando São José foi declarado padroeiro da Igreja universal?
O papa João XXIII, em «São José na voz dos Papas dos cem últimos anos» (1961), narra o episódio a partir de dentro do Concílio. Entre os postulados que os Padres do Concílio Vaticano I apresentaram a Pio IX, escreve, os dois primeiros diziam respeito a São José: um pedia que o seu culto tivesse lugar mais elevado na sagrada liturgia e «trazia a assinatura de 153 bispos», o outro, «assinado por 43 superiores gerais de ordens religiosas, suplicava a solene proclamação de S. José como Padroeiro da Igreja Universal».
Pio IX acolheu os dois. E, ainda segundo João XXIII, quando o concílio foi «suspenso … pelos acontecimentos políticos», o papa «escolheu a feliz coincidência da festa da Imaculada Conceição para a proclamação mais solene e oficial de s. José como padroeiro da Igreja universal e para a elevação da festa de 19 de março à celebração de rito duplo de 1ª classe». Ou seja: no mesmo ato, o patrocínio universal e a subida de categoria litúrgica do dia 19 de março.
Aqui as fontes da biblioteca divergem num pormenor. Rodrigo Alvarez, em «A importância do esposo de Maria» (2025), situa o Concílio Vaticano I entre 8 de dezembro de 1869 e 18 de dezembro de 1870 e diz que Pio IX proclamou São José «Padroeiro da Igreja Católica». João XXIII, ao contrário, escreve que o concílio ficou suspenso e usa a fórmula «padroeiro da Igreja universal», a mesma que Marcionei Miguel da Silva emprega em «José no mistério da encarnação» (2008). Éderson José, em «A paternidade de São José» (2023), volta a escrever «padroeiro da Igreja Católica». As duas expressões circulam lado a lado nas obras, e o leitor que procura uma delas encontra a outra.
O que diz o decreto Quemadmodum Deus?
O texto do decreto é uma tipologia. Rodrigo Alvarez reproduz assim a sua abertura: «Assim como Deus tinha estabelecido José, aquele descendente do Patriarca Jacó, como governador de toda a terra do Egito, para preservar o grão para o povo, assim também, na plenitude dos tempos, quando estava prestes a enviar seu Filho Unigênito, o Salvador do mundo, à terra, escolheu outro José, que havia sido prefigurado pelo primeiro, e o fez Senhor e Príncipe de sua casa e posse, e guardião de seus principais tesouros.»
A mesma passagem aparece, em tradução diferente, em Ángel Peña, «São José, o mais santo dos santos», que a abre com as palavras «De maneira semelhante a como Deus colocou à frente de toda a terra do Egito aquele». Duas obras independentes da biblioteca, portanto, testemunham o mesmo texto e o mesmo argumento. Peña tira dele a consequência que ficou célebre na devoção: assim como José foi vice-rei do Egito, «assim José é o vice-rei da Igreja».
Marcionei Miguel da Silva confirma o conteúdo e acrescenta o essencial para quem quer entender o alcance do decreto: no «Quemadmodum Deus», escreve, José do Egito é apresentado como modelo de José de Nazaré e, quanto ao poder de intercessão, José «é o segundo, depois de Maria». É uma afirmação de hierarquia, não de concorrência. O patrocínio de José não se sobrepõe à mediação de Maria, ordena-se a ela.
O precedente de 1847: o decreto Inclytus Patriarcha Joseph
A proclamação de 1870 não caiu do céu. Rodrigo Alvarez data de 10 de setembro de 1847 o decreto da Congregação dos Ritos «Inclytus Patriarcha Joseph», pelo qual Pio IX estendeu à Igreja universal a festa do Patrocínio de São José. Segundo o mesmo autor, é aí que pela primeira vez o magistério expõe os princípios de uma teologia de São José. O documento abre com estas palavras: «O ilustre Patriarca José, a quem o Pai Onipotente enriqueceu com graças singulares e abundantemente acumulou com carismas celestiais». E desce ao detalhe litúrgico, fixando a celebração no terceiro domingo depois da Páscoa e determinando que, se impedida por outro ofício de rito mais elevado, «concede-se que o Ofício do Patrocínio de São José seja transferido para o primeiro dia livre, conforme as rúbricas».
Marcionei Miguel da Silva confirma o mesmo movimento de forma independente: Pio IX «estende para toda a Igreja a festa do Patrocínio de São José e apresenta pela primeira vez os princípios da teologia de São José». Vinte e três anos separam a festa universal da proclamação do patrocínio universal. Quem lê 1870 sem 1847 perde o que estava a amadurecer.
De Leão XIII a Francisco: o que o magistério fez com o título
Leão XIII, segundo Marcionei Miguel da Silva, colocou José como protetor do seu pontificado logo no primeiro discurso ao colégio dos cardeais, a 28 de março de 1878, precisamente por ser padroeiro da Igreja. A doutrina veio depois, na encíclica «Quamquam pluries», que João XXIII descreve como «o documento mais amplo e copioso até então publicado por um papa» em honra do pai putativo de Jesus, apresentado para a festa da Assunção de 1889. Dela vem, recorda o mesmo papa, a oração «A vós, ó Bem-aventurado s. José».
O argumento de Leão XIII, resumido por Silva, é de três razões: José é esposo de Maria, pai de Jesus e padroeiro universal da Igreja. E tem uma consequência que o autor faz questão de citar: a missão de José «não termina com sua vida terrena, porque a sua autoridade de pai reveste toda a Igreja por vontade do próprio Deus». Bento XV, ainda segundo Silva, insistirá na devoção a José como remédio necessário e eficaz para os problemas do pós-guerra, e João Paulo II retomará o tema na exortação apostólica «Redemptoris Custos».
O ciclo fecha-se em 2020. Éderson José recorda que foi «por ocasião do 150º aniversário da declaração de São José como padroeiro universal da Igreja» que o papa Francisco publicou a carta apostólica «Patris Corde» e convocou o ano de São José. Rodrigo Alvarez data o ato de 8 de dezembro de 2020, de novo a festa da Imaculada Conceição, e cita o objetivo declarado da carta: «aumentar o amor por este grande Santo, para nos sentirmos impelidos a implorar a sua intercessão e para imitarmos as suas virtudes e o seu desvelo». Cento e cinquenta anos depois, o mesmo dia do calendário.
Padroeiro da Igreja e a mediação de Maria
Uma obra mariológica da biblioteca dá ao título a sua medida teológica exata. José María Bover, em «Maria medianeira de todas as graças» (tradução de Manuel Baptista, Porto, 1957), escreve que entre todos os santos aquele que está mais intimamente associado à mediação universal de Maria é sem dúvida São José, e arrisca: «É até provável, que, padroeiro e protector que é da Igreja Universal, participe também, ainda que em menor grau, da mediação universal de Maria.» Note-se a prudência do autor, que escreve «é até provável» e não afirma mais do que isso.
É essa a lógica que atravessa os documentos desde 1847: o patrocínio de José define-se sempre por relação, ao lado de Maria e em segundo lugar depois dela. Para continuar, veja São José patrono da Igreja, o conjunto de estudos de josefologia, o dossiê sobre a consagração a São José e o texto São José, servo sábio e fiel.
Perguntas frequentes
Quando São José foi declarado padroeiro da Igreja universal?
A 8 de dezembro de 1870, por decreto da Congregação dos Ritos, o «Quemadmodum Deus», promulgado por Pio IX. Segundo João XXIII, no mesmo ato a festa de 19 de março foi elevada a rito duplo de 1ª classe.
Por que São José é padroeiro da Igreja universal?
Pela razão que o próprio decreto dá: como José do Egito foi posto por Deus a governar o Egito para guardar o trigo do povo, assim José de Nazaré foi feito «Senhor e Príncipe de sua casa» e guardião dos seus principais tesouros. Leão XIII, segundo Marcionei Miguel da Silva, acrescenta três razões: ser esposo de Maria, pai de Jesus e padroeiro da Igreja.
Qual é a diferença entre padroeiro da Igreja Católica e padroeiro da Igreja universal?
Na prática, nenhuma: as obras da biblioteca usam as duas fórmulas para o mesmo ato de 1870. João XXIII e Marcionei Miguel da Silva escrevem «Igreja universal», Rodrigo Alvarez e Éderson José escrevem «Igreja Católica».
Quem pediu que São José fosse proclamado padroeiro da Igreja universal?
Os Padres do Concílio Vaticano I. João XXIII precisa que o postulado sobre o culto litúrgico levava 153 assinaturas de bispos e que o pedido da proclamação solene foi assinado por 43 superiores gerais de ordens religiosas.
Qual foi o documento do papa Francisco sobre São José?
A carta apostólica «Patris Corde», de 8 de dezembro de 2020, publicada no 150º aniversário da declaração de 1870 e acompanhada da convocação do ano de São José.
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