Miserére nobis, fili David: s. maximiliano kolbe, a compaixão e Maria Imaculada

Miserére nobis, fili David: s. maximiliano kolbe, a compaixão e Maria Imaculada
Et ecce duo caeci sedentes secus viam, audientes quia Iesus transiret, clamaverunt dicentes: Domine, miserere nostri, fili David! […] Misertus autem eis Iesus, tetigit oculos eorum. Et confestim viderunt et secuti sunt eum.
Mt 20,30-34

Mt 20,29-34, a cura dos dois cegos de Jericó, é o último milagre de Mateus antes da entrada triunfal em Jerusalém. A posição é teologicamente significativa: Jesus que acabou de ensinar o serviço como lei do Reino (Mt 20,28) realiza imediatamente o serviço mais concreto, a cura da cegueira de dois anónimos à beira da estrada. O «miserere nostri», «tem misericórdia de nós», é o clamor que atravessa séculos de oração cristã: a consciência da própria fragilidade que implora a compaixão de Jesus.

A 14 de agosto celebra-se a Memória de S. Maximiliano Maria Kolbe (1894-1941), sacerdote franciscano polaco, martirizado no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Maximiliano ofereceu voluntariamente a sua vida em substituição de um companheiro de prisão condenado à morte por fome, Francisco Gajowniczek, pai de família. Esta oferta é o «miserere nostri» mais radical: não apenas o clamor da própria necessidade mas a entrega da própria vida pela necessidade do outro.

I. «Miserere nostri»: o clamor dos cegos e a resposta de Jesus

Os dois cegos de Jericó gritam «Senhor, tem misericórdia de nós, Filho de David»! e a multidão repreende-os para que se calem. A repreensão da multidão, que quer ver Jesus passar em silêncio, sem interrupções, é a tentação de silenciar o clamor dos que sofrem: o anónimo, o marginal, o que não tem voz institucional. Mas os cegos «gritavam ainda mais» (Mt 20,31), a persistência do desespero que não cede à pressão social. Jesus para, chama-os e pergunta: «Que quereis que Eu vos faça»? (Mt 20,32), a pergunta que respeita a especificidade de cada necessidade.

«Senhor, que se abram os nossos olhos» (Mt 20,33), a resposta dos cegos é a oração mais elementar do ser humano: a consciência da própria cegueira e o pedido de ver. «Jesus, comovido de compaixão, tocou-lhes nos olhos» (Mt 20,34), o verbo «comovido de compaixão» (ἐσπλαγχνίσθη, literalmente «entranhou-se») descreve a reação mais visceral de Jesus perante o sofrimento humano. A cura não é um gesto distante mas um toque, o contacto físico que comunica a compaixão divina.

Os curados «seguiram-No» (Mt 20,34), a cura não é fim em si mesma mas abertura ao discipulado. Ver com os olhos abertos significa ver Jesus, seguir Jesus, percorrer o caminho que Jesus percorre, que vai à Cruz. O discípulo que recebeu a cura é convidado a ver o que antes não via: que o caminho do Messias passa pelo sofrimento, e que a misericórdia recebida é chamado a exercer pelos outros.

II. S. maximiliano kolbe: o «Miserere» vivido até à morte

Maximiliano Kolbe nasceu em 1894 na Polónia e entrou na Ordem Franciscana Conventual. Em 1917, em Roma, fundou a «Militia Immaculatae» (MI), movimento de apostolado mariano que se tornou uma das maiores organizações leigas da Igreja do século XX. Regressou à Polónia e fundou a cidade-santuário de Niepokalanów (1927), o maior convento franciscano do mundo, com mais de 700 frades e uma tipografia de apostolado.

Em 1939, com a invasão alemã da Polónia, Maximiliano ficou em Niepokalanów para ajudar os refugiados, incluindo milhares de judeus. Preso em fevereiro de 1941, foi enviado para Auschwitz. Em julho de 1941, após uma evasão, dez prisioneiros foram condenados à morte por fome como represália. Maximiliano pediu para substituir Francisco Gajowniczek, que chorava pelos seus filhos. O comandante aceitou. Maximiliano morreu a 14 de agosto de 1941, após três semanas, com uma injecção de fenol.

III. Maria Imaculada: o centro da espiritualidade de s. maximiliano

A devoção mariana de Maximiliano Kolbe não era um elemento periférico da sua espiritualidade, era o seu centro. A Militia Immaculatae tinha como objectivo «a conversão dos pecadores através da intercessão de Maria Imaculada». A escolha do título «Imaculada» é teologicamente precisa: Maria sem pecado original é o modelo da visão sem cegueira, a que viu sempre com clareza o mistério de Deus porque a «cegueira» do pecado nunca a afectou.

Maximiliano desenvolveu uma teologia mariana original: Maria como «a Imaculada Conceição», não apenas a que foi concebida imaculadamente mas a que é, de certo modo, a personificação da Imaculada Conceição enquanto acto eterno de Deus. Esta intuição aproxima-se da teologia de Duns Escoto e da espiritualidade franciscana que vê em Maria a Criatura mais perfeita que saiu das mãos de Deus. O «miserere nostri» de Mt 20,30 tem em Maria a sua mediação privilegiada: ela que é «imaculada» intercede pelos que são «cegos» pelo pecado.

A oferta da vida de Maximiliano por Francisco Gajowniczek é a aplicação concreta da devoção mariana: Maria que intercede pelos pecadores (como o Magnificat proclama, «a sua misericórdia de geração em geração») encontra em Maximiliano o seu instrumento humano. O «miserere nostri» que os cegos de Jericó dirigem a Jesus, Maximiliano dirige-o por procuração a outro: «tem misericórdia deste pai de família, eu fico no seu lugar».

IV. «Aperti sunt oculi eorum»: a visão que s. maximiliano abriu

Os curados pelo «miserere» de Jesus «viram e seguiram-No» (Mt 20,34), a cura da cegueira abre para o discipulado. Maximiliano «abriu os olhos» de milhões de pessoas: a Militia Immaculatae conta hoje com mais de três milhões de membros em todo o mundo. Niepokalanów continua a funcionar como centro editorial e espiritual. O «fruto» da sua vida, e da sua morte, excede em muito o cálculo humano, como o grão que cai na terra e dá centenas de frutos.

Beatificado em 1971 e canonizado em 1982 por João Paulo II, ele próprio polaco e devoto de Maria, Maximiliano foi canonizado como «mártir da caridade»: morreu não apenas por uma causa mas por uma pessoa. Esta especificidade é teologicamente importante: a misericórdia cristã não é abstracta mas concreta, amor a este ser humano particular, com nome e filhos. O «miserere nostri» de Mt 20,30 tem esta concretude: não «misericórdia para os cegos em geral» mas para estes dois que aqui estão.

A véspera da Assunção em que Maximiliano morreu é teologicamente eloquente: ele que viveu inteiramente consagrado a Maria Imaculada morreu no dia anterior à festa em que Maria é exaltada com o corpo na glória. A «cegueira» de Auschwitz foi respondida por um homem que viu com olhos abertos pela misericórdia: que viu no outro não o número tatuado mas o rosto do irmão, e que disse «miserere nostri» não para si mesmo mas em nome do outro.

Pós-Graduação em mariologia

Quer aprofundar a sua formação em Mariologia? Conheça a Pós-Graduação em Mariologia da Locus Mariologicus – uma formação académica que une rigor teológico, vida espiritual e tradição viva da Igreja.

Inscreva-se ou saiba mais →

Related Articles

Responses