Santa Maria, fonte de luz e de vida

Santa Maria, fonte de luz e de vida

«Ego lux in mundum veni, ut omnis qui credit in me, in tenebris non maneat». «Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em mim não permaneça nas trevas». (Jo 12,46)

I. O discurso de Pentecostes: a luz que ilumina a história

O discurso de Pedro no dia de Pentecostes, narrado nos Actos dos Apóstolos, é o primeiro anúncio público do Evangelho depois da efusão do Espírito Santo. Pedro, que dias antes havia negado três vezes o seu Senhor, levanta-se agora perante a multidão reunida em Jerusalém e proclama com uma clareza e uma audácia que só o Espírito pode explicar: «Saiba, pois, com certeza toda a casa de Israel: Deus constituiu Senhor e Cristo este Jesus que vós crucificastes» (At 2,36). A procalmação é directa, sem atenuações: os que ouviram são os responsáveis pela crucificação do Messias, e a resposta que se pede é a conversão e o Baptismo para o perdão dos pecados e o dom do Espírito (At 2,38).

A mulher que deu à luz a Luz do mundo está presente neste momento fundador da Igreja, reunida no Cenáculo com os discípulos (cf. At 1,14). A luz que João proclamara no prólogo do seu Evangelho, «a luz verdadeira que ilumina todo o homem» (Jo 1,9), continua a iluminar agora através da pregação apostólica e da efusão do Espírito. Maria é a fonte humana desta luz: ela que primeiro acolheu o Verbo de Deus no seu seio, ela que primeiro foi iluminada pela graça que precisava de tomar corpo humano, ela que acompanhou a Luz durante toda a sua vida terrena e que agora aguarda, em oração, que essa mesma Luz se derrame sobre todos os povos.

II. «Eu sou a luz do mundo»: a revelação joânica

O décimo segundo capítulo de João situa-se num momento de viragem decisiva no ministério de Jesus: os gregos que querem vê-lo sinalizam a chegada da hora em que o «grão de trigo» deve cair na terra e morrer para produzir muito fruto (Jo 12,24). É neste contexto de iminência pascal que Jesus pronuncia as palavras que constituem o Evangelho desta Missa: «Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em mim não permaneça nas trevas» (Jo 12,46). A auto-revelação de Jesus como luz do mundo não é uma afirmação metafórica sobre a sua sabedoria ou sobre o seu ensino: é uma afirmação ontológica sobre a sua pessoa, que participou eternamente na luz divina antes de se manifestar na carne.

A fé que Jesus exige é a fé em si mesmo como Luz: não apenas a aceitação intelectual de um ensinamento, mas a conversão existencial que muda a direcção da vida, que abandona as trevas do fechamento em si mesmo e se orienta para a Luz que ilumina, que liberta, que transforma. «Quem me vê a mim, vê aquele que me enviou» (Jo 12,45): ver Jesus é ver o Pai, porque a Luz que ele é é a Luz do próprio Deus manifestada na carne. E Maria, que o viu com os olhos da carne desde os primeiros momentos, é a primeira a ter contemplado a Luz de Deus no rosto do Filho.

III. Maria, aurora que precede a luz

A tradição espiritual cristã usa frequentemente a imagem da aurora para designar Maria na sua relação com Cristo: ela é a aurora que precede o Sol, que anuncia a sua vinda, que divide a noite do dia. A imagem é bíblica: no Cântico dos Cânticos, a esposa é descrita como «formosa como a lua, radiante como o sol, temível como exércitos em ordem de batalha» (Ct 6,10). Maria é a criatura mais luminosa da história, não pela luz própria, mas pela irradiação da Luz que a habitou. Ela que durante nove meses foi o «templo» onde o Filho da Luz cresceu, ela que o iluminou com o leite materno e o calor dos seus braços, ela que recebeu dele, refractada pela sua humanidade perfeita, a claridade divina que a transfigurou de dentro.

Quando Pedro anuncia no Pentecostes que Deus constituiu Senhor e Cristo este Jesus, proclama o que Maria sabia desde a Anunciação: que o Filho que ela concebera era o Senhor de toda a história. A diferença é que Maria sabia sem poder ainda anunciar, guardando no coração o que o tempo ainda não permitia proclamar em público. No Pentecostes, a luz que Maria guardara privatamente durante décadas irrompeu publicamente sobre o mundo inteiro: o Espírito que a cobrira com a sua sombra em Nazaré cobre agora toda a humanidade com a sua graça.

IV. Maria, fonte da luz que ilumina a Igreja

A décima sexta Missa da Coletânea contempla Maria como Fonte de Luz e de Vida, título que a tradição mariológica reconhece como um dos mais belos e mais precisos que a piedade cristã atribuiu à Mãe de Deus. «Fonte de luz» porque dela nasceu o que João proclama como «a luz verdadeira» (Jo 1,9). «Fonte de vida» porque dela nasceu o que o mesmo João designa como aquele que veio para que os que nele crêem «tenham a vida e a tenham em abundância» (Jo 10,10). A dupla designação não é redundante: ilumina e vivifica são as duas acções fundamentais do Espírito de Deus, e Maria, cheia do Espírito que a cobrira com a sua sombra, participa da sua função iluminadora e vivificante.

A Igreja que celebra esta Missa no Tempo Pascal é convidada a renovar a sua consciência de origem: somos filhos da luz que Maria trouxe ao mundo, somos vivificados pela vida que dela recebeu forma humana, somos batizados naquele cuja Luz Pedro anunciara no Pentecostes. E Maria, que estava no Cenáculo quando o Espírito desceu, continua a ser fonte de luz e de vida para a Igreja de todos os tempos, porque continua a interceder pelo dom do mesmo Espírito que ela recebeu na mais plena e mais perfeita das formas que uma criatura humana pode receber.

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