Santa Maria, mãe do Senhor

Santa Maria, mãe do Senhor

«Et unde hoc mihi, ut veniat mater Domini mei ad me»? «E como merecerei eu que a mãe do meu Senhor venha visitar-me»? (Lc 1,43)

I. A arca da aliança sobe a Jerusalém

A cena da transladação da Arca da Aliança para Jerusalém, narrada no primeiro livro das Crónicas, é um dos momentos mais solenes e mais festivos da história religiosa de Israel. David organiza uma procissão de todo o povo, com música, com cânticos, com danças, para conduzir a Arca ao lugar que o Senhor designara como morada do seu nome. A Arca é o símbolo mais sagrado da presença divina no meio de Israel: é o cofre dourado que contém as tábuas da Lei, o maná e o cajado de Aarão, é o lugar onde a glória de Deus «assenta» sobre os querubins. Quando a Arca é instalada no lugar que David preparou, ele mesmo oferece holocaustos e sacrifícios de paz, e o povo parte para as suas casas depois de ter sido abençoado.

A patrística mais antiga reconheceu em Maria a nova Arca da Aliança: ela que contém não as tábuas de pedra mas o Verbo vivo, não o maná do deserto mas o Pão do Céu, não o cajado de Aarão mas a flor que brotou da raiz de Jessé. A comparação não é uma alegoria forçada: o próprio texto lucano da Visitação sugere-a através de paralelos verbais e estruturais com o relato da Arca em 2Sm 6: David salta de alegria diante da Arca como João salta de alegria no seio de Isabel diante de Maria, David exclama «como virá a mim a Arca do Senhor» como Isabel exclama «como merecerei eu que a mãe do meu Senhor venha visitar-me».

II. A tipologia da arca e a Visitação

A correspondência entre a subida da Arca a Jerusalém e a subida de Maria à região montanhosa da Judeia é percebida pela liturgia como um dos exemplos mais eloquentes de tipologia bíblica: a realidade veterotestamentária anuncia e prefigura a realidade neotestamentária que a supera e cumpre. A Arca continha a palavra de Deus escrita em pedra. Maria porta o Verbo de Deus encarnado. A Arca era transportada em procissão com grande aparato. Maria vai «a passo rápido» com a simplicidade da caridade. A Arca permaneceu três meses em casa de Obededom antes de entrar em Jerusalém (cf. 2Sm 6,11). Maria permanece três meses em casa de Isabel (cf. Lc 1,56).

Estas correspondências revelam que a presença de Maria carrega consigo a presença daquele que ela porta: assim como a casa de Obededom foi abençoada durante os três meses em que a Arca aí permaneceu, assim a casa de Isabel é visitada pela graça durante os três meses em que Maria aí permanece. A bênção que a Arca derramava sobre Israel era a da presença divina mediada pelo símbolo sagrado. A bênção que Maria derrama na casa de Isabel é a do Filho que ela porta, que já actua através da sua Mãe antes mesmo de ter nascido, que já faz exultar João Baptista antes de ter pronunciado a sua primeira palavra.

III. «A mãe do meu senhor»: o título que precede Éfeso

A confissão de Isabel, «como merecerei eu que a mãe do meu Senhor venha visitar-me» (Lc 1,43), é a primeira proclamação explícita da maternidade divina de Maria no Novo Testamento. O título «Senhor», Kyrios em grego, é o nome que a tradução grega da Bíblia usava para designar o nome inefável de Deus. Ao chamar a Jesus «o meu Senhor», Isabel está a confessar, sob o impulso do Espírito Santo, a divindade de quem Maria porta no seu seio. E ao chamar Maria «Mãe do meu Senhor», Isabel antecipa em cerca de quatro séculos a definição de Éfeso: Maria é Mãe de Deus porque é Mãe de Jesus que é Senhor, ou seja, Deus.

Esta confissão de Isabel não é fruto de uma dedução teológica: brota do encontro com a presença de Cristo, mediada pela presença de Maria. É a experiência que precede a doutrina, a vivência que antecede a formulação, o encontro que funda o enunciado. A Igreja, ao celebrar esta Missa, reconhece em Isabel o protótipo de toda a geração que, ao encontrar Maria, experimenta a presença do Filho e é levada a confessar o seu senhorio.

IV. Maria, nova arca que porta o Senhor ao mundo

A décima nona Missa da Coletânea, primeira do Tempo Comum, contempla Maria como a nova Arca da Aliança que porta o Senhor ao mundo e o comunica a quem a recebe com fé. A tipologia bíblica da Arca não diminui a unicidade de Maria: pelo contrário, ilumina a profundidade das raízes veterotestamentárias sobre as quais a mariologia do Novo Testamento se constrói. A Igreja que celebra esta Missa é convidada a reconhecer em Maria a presença do Senhor que ela continua a portar, e a recebê-la como Isabel a recebeu: com humildade, com alegria, com a confissão de que o que ela traz excede toda a nossa capacidade de receber.

A exclamação de Isabel, «como merecerei eu»?, é a atitude espiritual correcta diante de Maria: não a que se julga digna de receber a Mãe do Senhor, mas a que reconhece a sua indignidade e, precisamente por isso, é aberta à graça que a supera. A humildade que Isabel exprime é a humildade que o Magnificat de Maria irá proclamar como o critério do amor divino: Deus «olha para a humildade da sua serva», Deus «exalta os humildes». Isabel é exaltada porque se reconhece pequena. Maria é exaltada porque se reconhece serva. E o Senhor que ambas carregam na sua vida é o que continua a exaltar os humildes e a encher de bens os famintos.

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