Dai a césar o que é de césar e a Deus o que é de Deus: Is 45, 1 ts 1 e a questão do tributo em Mt 22.

Dai a césar o que é de césar e a Deus o que é de Deus: Is 45, 1 ts 1 e a questão do tributo em Mt 22.
Reddite ergo quae sunt Caesaris Caesari et quae sunt Dei Deo.
Mt 22,21

O vigésimo nono domingo do Tempo Comum do Ano A articula três textos em torno da soberania de Deus que age na história através de instrumentos inesperados e da distinção entre o que pertence ao César e o que pertence a Deus. Is 45,1-6 revela que Deus ungiu Ciro, o rei pagão da Pérsia, para libertar o seu povo: ele é o seu instrumento sem o saber. 1Ts 1,1-5b celebra a fé ativa, o amor laboral e a esperança perseverante dos Tessalonicenses, que receberam o Evangelho não apenas em palavras mas em poder e no Espírito Santo. Mt 22,15-21 descreve a tentativa dos fariseus e herodianos de apanhar Jesus com a questão do tributo: a resposta de Jesus transcende a armadilha política e aponta para a ordem que subsiste por detrás da política. Os três textos convergem: Deus é soberano sobre toda a história, usa quem quiser para os seus propósitos, e pede aos seus uma fidelidade que não se confunde com a submissão ao poder político mas que também não a recusa.

I. A primeira leitura: Is 45,1-6

O Senhor dirige-se a Ciro, o rei persa: «Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomei pela mão direita, para submeter diante dele as nações e desarmar os reis» (Is 45,1). «Ungido» (mashiach) é o título reservado aos reis de Israel: dar este título a um rei pagão é provocatório e teologicamente ousado. E a explicação: «Por amor de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito, chamei-te pelo teu nome. Dei-te um título de honra sem que me conhecesses» (v.4). Ciro age a favor de Israel sem o saber: é instrumento de Deus sem consciência disso. E a conclusão que ultrapassa o contexto político imediato: «Eu sou o Senhor, não há outro. Fora de mim não há Deus» (v.5). A libertação de Israel do cativeiro da Babilónia não é um acidente da geopolítica: é o ato de um Deus que governa a história inteira, usando reis pagãos como seus instrumentos.

II. A segunda leitura: 1Ts 1,1-5b

Paulo abre a sua primeira carta com uma ação de graças pela comunidade de Tessalónica: «Lembramo-nos sempre da vossa obra de fé, do trabalho de amor e da constância de esperança em nosso Senhor Jesus Cristo» (1Ts 1,3). As três virtudes teologais aparecem no seu dinamismo ativo: a fé produz obra, o amor produz trabalho, a esperança produz constância. Não são sentimentos interiores sem consequência: são forças que estruturam a existência. E o fundamento da certeza de Paulo: «Sabemos, irmãos amados de Deus, que fostes eleitos. Pois o nosso Evangelho não chegou até vós apenas em palavras, mas também em poder e no Espírito Santo e com plena convicção» (vv.4-5). O Evangelho tem uma força intrínseca que transcende a eloquência do pregador: é o poder do Espírito que atua nos que o recebem.

III. O evangelho: Mt 22,15-21

Os fariseus e os herodianos conspiram juntos, um fato extraordinário, dado que eram adversários políticos, para apanhar Jesus numa armadilha. A pergunta é calibrada para ser sem saída: «É lícito pagar imposto a César ou não»? Se disser sim, parece colaborador do ocupante romano. Se disser não, é subversivo e pode ser preso. Jesus pede uma moeda do tributo. «De quem é esta imagem e esta inscrição»? «De César». «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (Mt 22,21). A resposta não é uma evasão: é uma distinção teológica profunda. A moeda com a imagem de César pertence a César: é razoável devolvê-la. Mas a criatura com a imagem de Deus pertence a Deus: e essa é uma reivindicação que não tem exceção. A questão política do tributo é relativizada pela questão teológica da imagem: o que foi feito à imagem de Deus pertence a Deus, e isso é incomparavelmente mais do que qualquer obrigação política.

IV. Maria e a imagem de Deus

A resposta de Jesus, «dai a Deus o que é de Deus», evoca a questão da imagem. O ser humano, criado à imagem de Deus (Gn 1,27), é o que deve ser dado a Deus. Maria é a que deu a Deus o mais perfeito dos seres humanos: o próprio Filho de Deus feito carne, que é a imagem do Pai invisível (Col 1,15). Em Maria, dar a Deus o que é de Deus atingiu o seu ápice: ela que recebeu o Filho deu-o ao mundo e deu-o de volta ao Pai no Calvário. Isaías 45 descreve Ciro como instrumento de Deus sem o saber. Maria é o oposto: instrumento de Deus com plena consciência e pleno consentimento. Conhecia as Escrituras, conhecia a promessa, e disse «faça-se em mim segundo a tua palavra». 1 Tessalonicenses 1 celebra a fé ativa, o amor laborioso e a esperança perseverante. Maria é o modelo perfeito das três virtudes: a sua fé foi ativa (do Fiat ao Calvário e ao Cenáculo), o seu amor foi laborioso (serviu até ao fim), a sua esperança perseverou quando nada parecia restar.

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