Jesus, filho de Maria e Filho de Deus: dois nascimentos

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Misit Deus Filium suum, factum ex muliere.
«Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher» (Gl 4,4)
Jesus é Filho de Deus e filho de Maria. Mas não há dois filhos. A fé da Igreja diz que é um só e o mesmo Filho que nasce eternamente do Pai, segundo a divindade, e que nasce no tempo da Virgem Maria, segundo a humanidade. Por isso Maria é chamada, com verdade, Mãe de Deus. O Novo Testamento prepara esta afirmação, e os concílios de Éfeso e Calcedônia a formularam.
«O filho de Maria»
No Evangelho de Marcos, quando Jesus ensina na sinagoga de Nazaré, os conterrâneos perguntam: nonne iste est faber filius Mariae, «não é este o carpinteiro, o filho de Maria?» (Mc 6,3). É a única vez que um Evangelho o chama assim. Para quem o conhecia desde criança, Jesus era simplesmente o filho de uma mulher da aldeia. O que este título diz de Jesus é o tema de Jesus, filho de Maria.
São Paulo, na Carta aos Gálatas, resume o mistério numa frase: at ubi venit plenitudo temporis, misit Deus Filium suum, factum ex muliere, factum sub lege, «quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei» (Gl 4,4). O mesmo que é enviado por Deus como seu Filho nasce de uma mulher.
«Será chamado Filho de Deus»
Lucas liga as duas filiações na Anunciação. O anjo diz a Maria: Spiritus Sanctus superveniet in te, et virtus Altissimi obumbrabit tibi, ideoque et quod nascetur sanctum vocabitur Filius Dei, «o Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra, por isso também o santo que vai nascer será chamado Filho de Deus» (Lc 1,35). O filho que Maria vai conceber é, desde o primeiro momento, o Filho de Deus.
João diz o mesmo de outro modo: et Verbum caro factum est, et habitavit in nobis, «e o Verbo se fez carne e habitou entre nós» (Jo 1,14). O Verbo que estava junto de Deus recebe uma carne humana, e a recebe de Maria.
Éfeso: Mãe de Deus
No século V, Nestório, bispo de Constantinopla, contestava o título Theotokos, «Mãe de Deus», como se o filho de Maria e o Filho de Deus fossem dois sujeitos unidos. São Cirilo de Alexandria respondeu-lhe que, se o Verbo se uniu verdadeiramente à carne no seio de Maria, então aquele que nasce dela é o próprio Verbo feito homem. Por isso, diz Cirilo, os santos Padres ousaram chamar a santa Virgem de Theotokos, não porque a divindade do Verbo tenha começado nela, mas porque dela nasceu o corpo ao qual o Verbo se uniu. O Concílio de Éfeso, em 431, aprovou a segunda carta de Cirilo a Nestório como expressão da fé da Igreja (DENZINGER, 1996, n. 250-251). A história do concílio está em O Concílio de Éfeso e a Theotokos.
Calcedônia: um só Filho, dois nascimentos
Vinte anos depois, o Concílio de Calcedônia, em 451, deu a fórmula mais precisa. Confessa um só e o mesmo Filho, gerado do Pai antes dos séculos segundo a divindade, e, ἐπ᾽ ἐσχάτων δὲ τῶν ἡμερῶν τὸν αὐτὸν δι᾽ ἡμᾶς καὶ διὰ τὴν ἡμετέραν σωτηρίαν ἐκ Μαρίας τῆς παρθένου τῆς θεοτόκου κατὰ τὴν ἀνθρωπότητα, «nos últimos dias, o mesmo, por nós e pela nossa salvação, [gerado] de Maria, a virgem, Mãe de Deus, segundo a humanidade» (DENZINGER, 1996, n. 301).
E explica como isto é possível: Cristo é ἕνα καὶ τὸν αὐτὸν Χριστὸν υἱὸν κύριον μονογενῆ ἐν δύο φύσεσιν ἀσυγχύτως, ἀτρέπτως, ἀδιαιρέτως, ἀχωρίστως γνωριζόμενον, «um só e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, reconhecido em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação» (DENZINGER, 1996, n. 302).
Há, portanto, dois nascimentos, um eterno do Pai e outro no tempo de Maria, mas um só Filho. Não é correto falar de duas filiações como se fossem dois filhos. O título de Mãe de Deus não diz que Maria deu origem à divindade, mas que aquele que ela gerou segundo a carne é verdadeiramente Deus.
Em 534, o papa João II, numa carta aos senadores de Constantinopla que respondia a três perguntas do imperador Justiniano, tratou assim do título de Mãe de Deus: Gloriosam vero sanctam semper virginem Mariam proprie et veraciter Dei genitricem matremque Dei Verbi ex ea incarnati ab hominibus catholicis confiteri recte docemus, «ensinamos com razão que os católicos confessam a gloriosa, santa e sempre virgem Maria, própria e verdadeiramente Mãe de Deus e mãe do Deus Verbo que dela se encarnou» (DENZINGER, 1996, n. 401).
Referências
BÍBLIA. Latim. The Holy Bible: Vulgate translation. [S. l.: s. n.], 2003. Edição eletrônica.
DENZINGER, Heinrich. Enchiridion symbolorum definitionum et declarationum de rebus fidei et morum. Edizione bilingue a cura di Peter Hünermann. Versione italiana a cura di Angelo Lanzoni e Giovanni Zaccherini. 2. ed. Bologna: EDB, 1996.
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