Nossa Senhora de Coromoto, Mãe da Venezuela

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
«Posui te in lucem gentium, ut sis in salutem usque ad extremum terrae» (At 13,47 / Is 49,6), «Eu te pus como luz das nações, para que sejas salvação até os confins da terra»
I. Luz das nações: a missão universal anunciada por Isaías e cumprida nos Atos
O capítulo treze dos Atos dos Apóstolos apresenta o momento decisivo em que Paulo e Barnabé, diante da recusa dos judeus de Antioquia da Pisídia em aceitar o Evangelho, se voltam de modo programático para os pagãos: “A vós era preciso anunciar primeiro a palavra de Deus. Mas, como a rejeitais e vos julgais indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os pagãos. Foi este o mandamento que o Senhor nos deu: Estabeleci-te como luz das nações, para que sejas salvação até os confins da terra” (At 13,46-47). Esta citação que Paulo faz de Isaías (cf. Is 49,6) é o pilar bíblico de toda a missiologia cristã. A salvação não está reservada a um povo escolhido por critérios étnicos: está aberta a todos os povos, a todas as línguas, a todas as culturas, até os “confins da terra”. E a história da Igreja, em seu desdobramento de dois mil anos, é a verificação progressiva desta promessa. Quando, em 1652, no coração da floresta tropical do que viria a ser a Venezuela, uma Senhora misteriosa se manifestou ao cacique de uma pequena tribo indígena chamado Coromoto, estava se cumprindo mais um capítulo daquela mesma promessa: a luz das nações estava chegando aos confins da terra, levada não por exércitos coloniais nem por decretos imperiais, mas pela maternidade silenciosa de Maria.
II. Coromoto, 1652: a Senhora junto ao rio Tucupido e o cacique resistente
Em 8 de setembro de 1652, festa litúrgica da Natividade da Virgem Maria, no rio Tucupido, na atual região de Guanare, no estado venezuelano de Portuguesa, o cacique Coromoto da tribo Cospes voltava da pesca com sua mulher quando viu, na margem oposta, uma “Senhora muito bela” envolvida em luz, segurando uma criança nos braços. A Senhora atravessou as águas caminhando sobre elas e disse ao cacique, em sua própria língua, palavras que ele compreendeu: “Vai à casa dos brancos e pede que te derramem água sobre a cabeça, para que possas ir ao céu.” A Senhora desapareceu. O cacique consultou os missionários espanhóis que catequizavam a região, soube que a Senhora pedia o batismo, mas resistiu por orgulho e por temor de perder a autoridade tribal. A Senhora reapareceu mais tarde, no oratório do cacique. Coromoto, irritado, tentou agredir a aparição, mas ela desapareceu deixando em suas mãos uma pequena imagem, talhada em material desconhecido, com cerca de vinte e dois milímetros por vinte e sete, representando Maria com o Menino. Na fuga subsequente, o cacique foi mordido por uma serpente venenosa. Antes de morrer, pediu o batismo, que recebeu de um padre missionário. A pequena imagem foi guardada e em torno dela cresceu, ao longo dos séculos seguintes, o santuário nacional venezuelano. O Papa Pio XII proclamou Nossa Senhora de Coromoto Padroeira da Venezuela em 1944 e, por sua disposição, a imagem foi coroada canonicamente em 1952, no terceiro centenário da aparição. Em 1985, o Papa João Paulo II coroou a imagem da Virgem de Coromoto em Caracas e, em 1996, foi a Guanare para inaugurar o Santuário Nacional. Em 2007, o Papa Bento XVI elevou o santuário à dignidade de basílica menor.
III. O tesouro escondido no campo: a parábola que ilumina Coromoto
O Evangelho de Mateus que acompanha esta celebração apresenta duas das parábolas mais densas do Reino: “O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem encontrou e tornou a esconder. Cheio de alegria, vai vender tudo o que tem e compra aquele campo. Igualmente o Reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas finas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vai vender tudo o que possui e a compra” (Mt 13,44-46). Essas duas parábolas iluminam Coromoto com uma luz singular. A pequena imagem deixada nas mãos do cacique era literalmente um tesouro escondido no campo: uma manifestação minúscula e preciosa do amor de Deus, encontrada em circunstâncias humildes e revelada gradualmente. E o cacique Coromoto, antes de sua conversão final, comportou-se como o homem que encontra o tesouro mas hesita em vender tudo para o adquirir. Sua história é, nesse sentido, paradigmática da resistência humana à graça: ver o tesouro mas relutar em pagar o preço da conversão. Só na proximidade da morte, com a serpente que o feriu, Coromoto compreendeu que o que se ganha pela conversão é incomparavelmente superior ao que se perde por ela. A Mãe não desistiu dele. A pequena imagem ficou em suas mãos como sinal de que o tesouro continuava disponível, à espera de ser plenamente acolhido.
IV. Coromoto e a mariologia das nações originárias da América
A história mariana das aparições americanas tem uma constante teológica notável: Maria escolhe revelar-se preferencialmente aos povos originários do continente, antes ou em paralelo aos colonizadores europeus. Guadalupe foi para Juan Diego em 1531, índio nahua. Caacupé foi para José, índio guarani. Aparecida emergiu das águas para três pescadores pobres, mestiços. E Coromoto foi para o cacique de uma tribo indígena no coração da floresta venezuelana. Essa constante não é coincidência cultural: é uma escolha teológica que se manifesta de modo recorrente. Maria, no continente americano, identifica-se preferencialmente com os povos originários, com os despossuídos, com os que a evangelização europeia ainda não tinha atingido ou tinha atingido com a violência da conquista. Essa opção mariana antecipa em séculos o que o Concílio Vaticano II e a teologia missiológica posterior reconheceriam como princípio fundamental: a evangelização autêntica respeita as culturas originárias e procura encontrá-las no que têm de melhor (cf. Ad Gentes, 22. Gaudium et Spes, 53-62). Coromoto é o santuário desta antecipação. A Senhora que apareceu à margem do Tucupido falou em língua indígena, escolheu um cacique como interlocutor primário, e deixou como sinal não uma estátua europeia mas uma imagem misteriosa de tamanho diminuto, como se o seu desejo fosse caber nas mãos de quem a recebia, sem esmagar a cultura que a acolhia. A Mãe da Venezuela é, em sentido próprio, Mãe de uma terra, de uma cultura, de uma história, abraçada pela maternidade universal de Maria sem perder nada de sua identidade própria.
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