Papas medievais: Leão IX a Inocêncio III – mariologia escolástica (Doctrina pontifícia IV, nn. 100-121)

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Os papas medievais documentados na Doctrina Pontificia IV, de São Leão IX (1049) a Inocêncio III (1198-1216), mostram como a mariologia transitou da era patrístico-conciliar para a grande escolástica medieval. O Concílio Lateranense IV (1215) e os numerosos discursos de Inocêncio III sobre festas marianas constituem o ápice desta seção.
| Coleção | Doctrina Pontificia IV: Documentos Marianos, nn. 100-121 |
| Papas | Leão IX | Gregório VII | Urbano II | Inocêncio III |
| Concílio | Lateranense IV (1215) |
| Período | 1049-1216 |
São Leão IX (1049-1054), n. 100: profissão de fé
São Leão IX, reformador da Igreja e papa do Grande Cisma de 1054, inclui na sua profissão de fé a afirmação da maternidade divina e da virgindade perpétua de Maria. Num momento de grave ruptura eclesiástica, a fé em Maria como Theotokos era ponto de comunhão entre Roma e Constantinopla, pouco antes do Cisma: a profissão de fé está na carta Congratulamur vehementer ao patriarca Pedro de Antioquia, de 13 de abril de 1053 (DH 680-686).
São Gregório VII (1073-1085), n. 101: profissão de fé
No sínodo romano de 11 de fevereiro de 1079, reunido sob o grande reformador gregoriano, Berengário de Tours jurou crer que, depois da consagração, o pão é o verdadeiro corpo de Cristo «quod natum est de Virgine», que nasceu da Virgem (DH 700). A reforma gregoriana foi em parte inspirada pela devoção a Maria como modelo de pureza e de serviço, traços que Gregório VII queria restaurar no clero.
Urbano II (1088-1099), n. 102: prefácio da Virgem
Urbano II, o papa da Primeira Cruzada, é o primeiro papa documentado a ter enriquecido o Prefácio da Missa da Virgem Maria com uma fórmula especial. O Prefácio é o momento de maior solenidade da Missa antes da Consagração. A sua associação a Maria revela a importância litúrgica da Virgem na teologia medieval.
«Et te in veneratione beatae Mariae semper Virginis collaudare… quae et Unigenitum tuum Sancti Spiritus obumbratione concepit, et virginitatis gloria permanente, lumen aeternum mundo effudit, Iesum Christum Dominum nostrum»
E louvar-te na veneração da bem-aventurada Maria sempre Virgem… que concebeu o teu Unigénito pela sombra do Espírito Santo, e permanecendo a glória da virgindade, derramou ao mundo a luz eterna, Jesus Cristo Nosso Senhor.
Inocêncio III (1198-1216), nn. 105-121: discursos marianos
Inocêncio III é o papa medieval mais prolixo nos documentos marianos da Doctrina Pontificia IV: dezassete textos (nn. 105-121). Inclui:
- n. 105: Profissão de fé da carta Eius exemplo (18 de dezembro de 1208), no caso de Durando de Huesca
- n. 106: Profissão de fé do Concílio Lateranense IV (1215), capítulo De fide catholica
- nn. 107-121: Discursos nas festas marianas: Advento, Natal, Purificação, Assunção, Natividade de Maria, além de um Hino à Virgem e de um texto sobre o recurso a Maria
O discurso mais célebre de Inocêncio III é o da Assunção (nn. 112-116), onde apresenta Maria como castelo guardado pelo muro da virgindade e pela torre da humildade e exorta a recorrer a ela:
«Si quando te luxuria carnis impugnat, ad hoc castellum procede, muro virginitatis adhaere, deprecare Mariam. Quis unquam invocavit eam, et non est exauditus ab ea?»
Se alguma vez a luxúria da carne te assalta, aproxima-te deste castelo, adere ao muro da virgindade, suplica a Maria. Quem alguma vez a invocou e não foi atendido por ela? (Sermão XXVII, PL 217, 577-578)
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