Visões ou aparições? Corporal, imaginária e intelectual

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Tria genera visionum occurrunt.
«Encontram-se três gêneros de visões» (Santo Agostinho, De Genesi ad litteram XII,6,15)
Quando se diz que alguém «viu» Nossa Senhora, a teologia pergunta logo de que modo viu. Os olhos do corpo perceberam uma figura presente diante deles? A imaginação recebeu uma imagem? Ou a inteligência compreendeu algo sem imagem nenhuma? As palavras «visão» e «aparição» não são sinônimas, e a distinção ajuda a falar com rigor de Lourdes, de Fátima e de qualquer fenômeno deste tipo. O teólogo Giandomenico Mucci, que publicou estes estudos na revista La Civiltà Cattolica, expõe esta doutrina, com base nos mestres da mística, no livro Rivelazioni private e apparizioni (MUCCI, 2000, p. 35-44).
Visão e aparição
Mucci define assim os dois termos: col termine «visione» s’intende la percezione soprannaturale di un oggetto, che è naturalmente invisibile per l’uomo, e col termine «apparizione» la manifestazione sensibile di una persona o di un essere la cui presenza, nelle precise circostanze nelle quali si produce, non può essere spiegata secondo il corso ordinario della natura, «pelo termo “visão” entende-se a percepção sobrenatural de um objeto que por natureza é invisível para o homem, e pelo termo “aparição”, a manifestação sensível de uma pessoa ou de um ser cuja presença, nas circunstâncias precisas em que se produz, não pode ser explicada segundo o curso ordinário da natureza» (MUCCI, 2000, p. 38). Daí a consequência que o autor tira logo em seguida: a visão não exige que o seu objeto esteja realmente presente, a aparição, sim, e por isso o objeto chega aos sentidos externos (MUCCI, 2000, p. 38).
Os três gêneros de Agostinho
A classificação clássica vem de Santo Agostinho. Ao comentar o arrebatamento de São Paulo ao terceiro céu (2Cor 12,2-4), ele distingue três modos de ver, tomando como exemplo quem lê o mandamento «Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22,39): unum per oculos, quibus ipsae litterae videntur, alterum per spiritum hominis quo proximus et absens cogitatur, tertium per contuitum mentis, quo ipsa dilectio intellecta conspicitur, «um pelos olhos, com os quais se veem as próprias letras, outro pelo espírito do homem, com o qual se pensa no próximo, mesmo ausente, o terceiro pelo olhar da mente, com o qual se contempla o próprio amor, compreendido» (De Genesi ad litteram XII,6,15, PL 34, 458). E dá-lhes nome: corporale, spirituale, intellectuale (XII,7,16, PL 34, 459).
O que Agostinho chama «espiritual» é o que a tradição posterior chamou «imaginário»: a imagem interior de um corpo ausente. Por isso os três gêneros são, na linguagem corrente, a visão corporal, a imaginária e a intelectual.
Santo Tomás retoma a mesma divisão numa das leituras que propõe do «terceiro céu» de São Paulo: o primeiro é a visio… corporalis, quae fit per sensum, «visão corporal, que se faz pelos sentidos», o segundo a visio imaginaria, puta quam vidit Isaias, et Ioannes in Apocalypsi, «visão imaginária, como a que viram Isaías e João no Apocalipse», e o terceiro a visio intellectualis, ut Augustinus exponit, «visão intelectual, como expõe Agostinho» (Suma Teológica II-II, q. 175, a. 3, ad 4, em TOMÁS DE AQUINO, 1969, p. 141).
Corporal, imaginária, intelectual
Na visão corporal, a vista percebe um objeto exterior, seja um corpo realmente presente, seja uma forma sensível, luminosa por exemplo. A causa pode ser o próprio corpo, que impressiona a retina, ou uma ação direta vinda de fora, a do Senhor por exemplo, que causa nos olhos o mesmo efeito que o corpo causaria se ali estivesse (MUCCI, 2000, p. 38-39). Na visão imaginária, não há nada diante dos olhos: é na imaginação que Deus ilumina imagens já recebidas pelos sentidos, as combina entre si ou infunde imagens novas (MUCCI, 2000, p. 39). Na visão intelectual, a inteligência compreende uma verdade sem passar por imagem alguma. Mucci considera as duas primeiras as menos seguras, porque o seu conteúdo sensível tem de ser interpretado por quem o recebe, e nessa interpretação pode entrar o juízo pessoal e o erro. Nas visões intelectuais, pelo contrário, Deus é a causa principal e fica excluída a ação de anjos e demônios (MUCCI, 2000, p. 40-42).
A distinção, por si só, não resolve a questão da autenticidade de uma aparição. Stefano De Fiores, no verbete «Apparizioni» do Nuovissimo dizionario, observa que casos como o de Bernadette, certa de falar em voz alta com a visão sem que os presentes ouvissem nada, inclinam os psicólogos a ver em quase todas as visões percepções da imaginação, o que não lhes tira a autenticidade (DE FIORES, 2006, p. 38). Conclui R. Zavalloni, citado por De Fiores: La visione è quindi un atto naturale nel suo meccanismo psicologico, ma può essere soprannaturale nella causa che lo produce e nel modo in cui avviene, «a visão é, portanto, um ato natural no seu mecanismo psicológico, mas pode ser sobrenatural na causa que o produz e no modo como acontece» (ZAVALLONI apud DE FIORES, 2006, p. 38).
A prudência dos santos
Os mestres da mística aconselham a não se apegar a nada disto. São João da Cruz observa que muitos espirituais, e os mestres que os guiam, aceitam umas visões e recusam outras, e com isso gastam esforço e expõem as almas ao perigo só para separar as verdadeiras das falsas, que ni Dios les manda poner en ese trabajo, ni que a las almas sencillas y simples las metan en ese peligro y contienda […] pues tienen doctrina sana y segura, que es la fe, en que han de caminar adelante, «pois nem Deus lhes manda meter-se nesse trabalho, nem que metam as almas singelas e simples nesse perigo e contenda, já que têm doutrina sã e segura, que é a fé, pela qual devem continuar a caminhar» (Subida do Monte Carmelo II,16,14).
Nem sempre se pode recorrer à prova mais direta, como observa De Fiores: Spesso è impossibile applicare il criterio più valido per distinguere il reale dall’apparente, cioè il toccare la persona o oggetto che appare […]. Bisogna pertanto ripiegare su criteri di convenienza e di globalità nell’interpretazione del fenomeno di apparizione, «muitas vezes é impossível aplicar o critério mais válido para distinguir o real do aparente, isto é, tocar a pessoa ou o objeto que aparece […]. É preciso, portanto, recorrer a critérios de conveniência e de globalidade na interpretação do fenômeno de aparição» (DE FIORES, 2006, p. 38). Os critérios com que a Igreja julga estes fenômenos e as decisões sobre cada aparição estão em Aparições marianas.
Referências
AGOSTINHO, Santo. De Genesi ad litteram libri duodecim. In: MIGNE, J.-P. (ed.). Patrologiae cursus completus: series Latina. t. 34. Paris: Migne, [s.d.]. col. 458-459.
DE FIORES, Stefano. Apparizioni. In: DE FIORES, Stefano. Maria: nuovissimo dizionario. Bologna: EDB, 2006. v. 1, p. 21-69.
JOÃO DA CRUZ, São. Tutte le opere: testo spagnolo a fronte. Prefácio, ensaio introdutório, tradução e notas de Pier Luigi Boracco. Milano: Bompiani, 2010. (Il Pensiero Occidentale). Edição digital, 2013.
MUCCI, Giandomenico. Rivelazioni private e apparizioni. Leumann (Torino): Elledici, Roma: La Civiltà Cattolica, 2000. (Credere oggi).
TOMÁS DE AQUINO, Santo. La Somma Teologica. v. 22: Carismi e stati di perfezione (II-II, qq. 171-189). Tradução, introdução e notas de Tito S. Centi. Texto latino da edição leonina. Firenze: Salani, 1969.
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