Os anjos conhecem o futuro? O que dizem as fontes sobre o conhecimento angélico

Os anjos conhecem o futuro de modo incomparavelmente mais amplo do que nós, mas não o conhecem todo. A angeologia distingue duas coisas: o conhecimento que o anjo tem de si e das criaturas, que é penetrante e imediato, e o conhecimento daquilo que Deus reserva a si, que lhe é negado. Mateus 24,36 fixa o limite ao dizer que nem os anjos sabem aquele dia.

A questão não se resolve com uma frase, porque as obras da biblioteca da Locus não dizem exatamente o mesmo, e a diferença merece ser mostrada. Anne Bernet afirma que os anjos veem o fim de tudo. João Evangelista Martins Terra, lendo Karl Rahner, recorda que a Escritura nega aos anjos o conhecimento do dia final. Este artigo confronta as duas posições e mostra onde elas se encontram.

O que a angeologia afirma sobre o conhecimento dos anjos

O ponto de partida é a natureza. Anne Bernet, em «Na companhia dos anjos: a verdadeira história dos mensageiros de Deus» (1998), define o anjo como criatura inteligente e puramente espiritual, sem figura nem formas palpáveis, e adverte no próprio capítulo que «salvo referência em contrário, os desenvolvimentos deste capítulo são reproduzidos da Suma Teológica de São Tomás de Aquino». A autora acrescenta que os anjos não são símbolos das nossas pulsões mas «individualidades, capazes de conhecimento e de vontade», com a tríplice vocação de adoradores da Trindade, mensageiros e protetores.

Daí decorre o modo do conhecimento angélico. Segundo a mesma obra, a inteligência do anjo não tem comparação possível com a nossa, porque para saber ele não precisa dos meios que nos são indispensáveis, os sentidos: nele o conhecimento é inteiramente de ordem espiritual. Sobre o estatuto dessa natureza, ver o tratado dos anjos na Suma Teológica de São Tomás de Aquino.

A compilação «Noções sobre Angelologia», de Luiz Sérgio Coelho de Sampaio, reúne outros autores no mesmo sentido. Citando Seemann, regista que os Padres e os grandes teólogos da Idade Média concordam em que os anjos, pela sua natureza espiritual, são capazes de um conhecimento compreensivo de si mesmos e de todas as coisas criadas. E citando Michael Schmaus, recorda que a Escritura significa esse conhecimento penetrante dizendo que os anjos estão cobertos de inumeráveis olhos, numa fórmula que a compilação transcreve assim: «Toda a sua essência é ver».

Anne Bernet: os anjos «conhecem o desfecho de tudo»

A afirmação mais forte da biblioteca sobre esta matéria está em Bernet, num contexto preciso: o do escândalo do mal. A autora observa que os anjos sofrem diante dos crimes e das blasfémias porque não compreendem o lugar que o mal ocupa no plano de Deus, e contrapõe imediatamente: «Os anjos, esses, estão informados sobre tudo o que Deus fez, faz e fará; conhecem o desfecho de tudo.»

O argumento fecha-se com uma frase que vale citar inteira, porque é dela que nasce a pergunta popular sobre o futuro: «Este fim que nos está escondido, os anjos vêem-no.» Note-se o objeto exato da afirmação. Bernet não diz que o anjo lê o pormenor dos acontecimentos por vir. Diz que ele vê o desfecho, o termo para onde a história caminha, aquilo que ao homem permanece oculto. A distinção é decisiva para o que se segue.

«Nem mesmo os anjos conhecem aquele dia»: o limite de Mateus 24,36

Contra qualquer leitura que faça do anjo um vidente universal, a Escritura põe um limite explícito. João Evangelista Martins Terra, em «A angelologia de Karl Rahner: à luz dos seus princípios hermenêuticos» (1996), formula-o sem rodeios ao tratar da vinda gloriosa de Cristo: «Nem mesmo os anjos conhecem “aquele dia”, somente o Pai (Mt 24,36)». O mesmo estudo lembra que os anjos são enviados para reunir os eleitos quando esse dia vier (Mc 13,26-27), o que torna a ignorância ainda mais notável: são executores do acontecimento cuja hora não conhecem.

A mesma compilação de Sampaio, citando George Tavard, guarda o mesmo limite noutra forma – o conhecimento dos anjos aventaja em muito o dos homens, e todavia há mistérios que Deus guarda para si. E, citando Schmaus, precisa que os anjos não penetram totalmente a profundeza divina, acessível apenas ao Espírito do próprio Deus, com remissão a 1 Coríntios 2,10.

Como se conciliam as duas afirmações

A divergência entre as fontes é real e não deve ser dissolvida em silêncio, mas é uma divergência de objeto, não de doutrina. Bernet fala do desfecho, do sentido para onde tudo converge, e nesse plano afirma que o anjo vê. Terra e Tavard falam do dia, isto é, de um dado que pertence ao decreto divino ainda não comunicado, e nesse plano negam que o anjo saiba. Entre as duas afirmações não há choque se se reconhecer que conhecer o fim e conhecer a hora são coisas distintas.

Há ainda um segundo critério, este de natureza. Se o conhecimento angélico, como diz a compilação de Sampaio a partir de Seemann, abarca as coisas criadas, então o futuro livre e o decreto divino não caem sob ele pelo simples facto de não serem coisas criadas já dadas. O anjo é criatura, e nenhuma criatura conhece por si o que Deus ainda não manifestou. É a mesma razão pela qual o anjo pode escolher e, escolhendo, errar – questão tratada em os anjos têm livre arbítrio.

Os anjos conhecem os nossos atos?

Aqui as fontes são mais sóbrias do que a devoção costuma ser. O estudo de Terra sobre Rahner concede o essencial e não mais: «Admitimos também que os anjos e santos conhecem a nós e os atos que lhes dirigimos». O que está afirmado é o conhecimento da pessoa e dos atos a eles dirigidos, e é sobre esse dado que assenta a prática da invocação, não sobre uma vigilância total do interior humano, que os textos consultados não descrevem.

O mesmo estudo formula a pergunta de fundo que Rahner levanta – se os anjos e os santos pertencem a Deus ou ao mundo – e responde que, enquanto criaturas, pertencem ao mundo, embora entrem no âmbito de Deus quando com eles se estabelecem relações de amor e de doação. Esta precisão é útil justamente contra a inflação: o anjo continua criatura, mesmo quando é objeto de oração.

Por que a pergunta importa

Anízio Alves Caetano, em «Porquê estudar angeologia e demonologia?», dá a razão metodológica: comparar a vida, o conhecimento, a linguagem e o amor tal como se realizam num anjo e num ser humano permite determinar o núcleo estável dessa perfeição e, ao mesmo tempo, os traços particulares que ela assume no homem. Perguntar o que o anjo conhece é, portanto, um modo indireto de perguntar o que é conhecer.

E é também um modo de manter a proporção. Um anjo que soubesse tudo seria um deus menor, e a angeologia católica recusa esse caminho tanto quanto recusa reduzir o anjo a símbolo. Sobre a ordem interna desse mundo criado, ver a hierarquia dos anjos segundo a Bíblia.

Perguntas frequentes

Os anjos conhecem o futuro?

Conhecem muito além do que o homem alcança, mas não tudo. Anne Bernet afirma que os anjos estão informados sobre tudo o que Deus fez, faz e fará e que veem o desfecho de tudo. Mateus 24,36, porém, nega-lhes o conhecimento do dia final, como recorda João Evangelista Martins Terra ao estudar a angelologia de Karl Rahner.

Os anjos conhecem o dia do juízo final?

Não. O texto evangélico é explícito e a angeologia respeita-o: nem mesmo os anjos conhecem aquele dia, somente o Pai (Mt 24,36). Segundo o mesmo estudo, os anjos são enviados para reunir os eleitos quando esse dia chegar, sem que lhes seja dada a hora.

Os anjos podem ler nossos pensamentos?

As obras consultadas não afirmam isso. O que afirmam é que os anjos, pela sua natureza espiritual, têm conhecimento compreensivo de si e das coisas criadas, e que conhecem a nós e os atos que lhes dirigimos. Além disso, recordam com Michael Schmaus que os anjos não penetram totalmente a profundeza divina, acessível só ao Espírito de Deus (1 Cor 2,10).

Como é o conhecimento dos anjos, se não têm sentidos?

É inteiramente de ordem espiritual. Anne Bernet explica que a inteligência angélica não tem comparação possível com a nossa, porque o anjo não precisa dos meios que nos são indispensáveis, os sentidos. A compilação de Luiz Sérgio Coelho de Sampaio cita Michael Schmaus para dizer que a Escritura exprime esse conhecimento chamando aos anjos seres cobertos de inumeráveis olhos.

Qual é a função dos anjos, segundo essas obras?

Anne Bernet resume uma tríplice vocação: adoradores perpétuos da Trindade, mensageiros entre Deus e os homens e protetores da humanidade. O estudo sobre Karl Rahner acrescenta a função de desvendar aos homens a dimensão salvífica de Cristo, nas duas vindas, a da carne e a da glória.

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