Os anjos têm livre arbítrio? O que o IV Concílio de Latrão definiu

Sim, os anjos têm livre arbítrio – e a prova não é especulativa, é dogmática. O IV Concílio de Latrão, em 1215, definiu que o demônio e os outros demônios foram criados bons por Deus e se tornaram maus por si mesmos. Ora, só é capaz de se tornar mau por si mesmo quem é capaz de escolher: a queda angélica pressupõe liberdade.

Esta é a chave que torna a angeologia inteligível. Sem liberdade nos anjos, ou Deus criou o mal (o que a Igreja anatematizou), ou o mal existe desde sempre como princípio autónomo (o erro maniqueísta). A liberdade angélica é o que salva ao mesmo tempo a bondade do Criador e a realidade do mal.

O que ensina o Concílio

A formulação conciliar é recolhida assim na coletânea dos bispos brasileiros: «O IV Concílio de Latrão, em 1215, emitiu uma declaração reafirmando que o diabo e outros demônios foram criados por Deus naturalmente bons, mas por si mesmos se transformaram em maus.» [CNBB, Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé, Exorcismos: reflexões teológicas e orientações pastorais]. O mesmo texto recorda que a definição corrigia o dualismo gnóstico-maniqueísta de grupos que faziam do mal um princípio eterno, e que já antes fora declarado anátema a quem dissesse que o diabo era «princípio e também a substância do mal, como disseram Maniqueu e Prisciliano» [CNBB, op. cit.].

Três afirmações se encadeiam, e a ordem importa: os demônios foram criados – logo não são eternos. Foram criados naturalmente bons – Foram criados naturalmente bons, logo a natureza angélica não é má. tornaram-se maus por si mesmos – logo houve ato próprio, decisão, responsabilidade. É a definição de liberdade em três tempos.

Liberdade e inteligência: por que uma implica a outra

A tradição escolástica que a Universidade de Coimbra fixou nos seus cursos formula o princípio com sobriedade: «O livre arbítrio (liberum arbitrium) é a expressão máxima da natureza intelectiva.» [M. S. de Carvalho, Dicionário do Curso Filosófico Conimbricense, 2020]. A liberdade não é um acessório da inteligência: é a sua expressão máxima. Onde há intelecto que compreende o bem, há vontade que o pode acolher ou recusar.

Daí decorre a resposta angeológica. Sendo os anjos criaturas puramente intelectuais – e mais intensamente intelectuais do que nós, porque sem a mediação dos sentidos – a sua liberdade é mais pura, não menor. O mesmo Dicionário anota que existe diferença entre a liberdade de Deus e a das criaturas, e que naquele a liberdade não suprime a imutabilidade nem a imutabilidade a liberdade [Carvalho, op. cit.]. Nas criaturas, ao contrário, a liberdade exerce-se numa escolha que decide.

Uma leitura alternativa: os anjos «com livre-arbítrio muito limitado»

Convém confrontar a doutrina com uma leitura difundida fora do âmbito católico. Na tradição cabalística, tal como exposta por Migene González-Wippler, «Os cabalistas dizem que os anjos têm um livre-arbítrio muito limitado e nenhuma inclinação para praticar o mal.». A queda explicar-se-ia por excesso de zelo, não por recusa: «Os anjos não caem porque odeiam a Deus, mas porque querem ficar mais perto dele, ser iguais a ele.» [M. González-Wippler, Jesus e cabala mística, 2006].

A diferença com a doutrina católica é exata e vale a pena medi-la. Para o Concílio, a queda é autotransformação em mau, ato próprio de uma vontade que recusa. Para a leitura cabalística, é um excesso na execução de uma ordem, quase um acidente de fervor. A primeira posição funda a responsabilidade e, com ela, a possibilidade de um juízo. A segunda dilui-a: onde não há recusa, não há culpa, e o demônio deixa de ser pessoa que disse não para passar a ser servo demasiado entusiasta. É precisamente por isso que a definição de Latrão importa tanto – ela guarda o caráter pessoal da queda.

A mesma liberdade que nos foi dada

O paralelo com o homem é iluminador e a coletânea da CNBB enuncia-o a propósito da tentação: «Os seres humanos são livres para consentir, ou não, com o diabo e o pecado.» [CNBB, op. cit.]. A mensagem de redenção não faria sentido se o homem não fosse dotado de livre-arbítrio – e a doutrina da queda angélica não faria sentido se o anjo não o fosse.

Há, porém, uma diferença que a tradição sublinha: o anjo escolhe com um conhecimento pleno do que escolhe, sem a ignorância, a hesitação e o tempo que caracterizam as nossas decisões. É essa lucidez que torna a sua opção definitiva. O homem pode arrepender-se porque conhece por partes e no tempo – o anjo decidiu de uma vez, com tudo diante dos olhos.

Compreende-se assim por que a mesma natureza angélica produz Miguel, que combate pela glória de Deus, e os anjos caídos, que a recusaram: não os separa a natureza, separa-os a resposta – e essa distinção pessoal atravessa toda a ordem do mundo angélico.

Perguntas frequentes

Se os anjos são bons por natureza, como puderam pecar?

Porque bondade natural não é impossibilidade de escolher. O IV Concílio de Latrão ensina que foram criados naturalmente bons e se tornaram maus por si mesmos: a natureza recebida era boa, o ato que a desfigurou foi próprio deles.

O demônio foi criado mau?

Não. Dizer que o diabo é princípio ou substância do mal foi condenado com anátema, e o IV Concílio de Latrão corrigiu expressamente esse dualismo de origem gnóstico-maniqueísta.

Os anjos podem arrepender-se?

A tradição responde que não, e a razão é a natureza do seu ato: o anjo escolhe com conhecimento pleno e sem o tempo que permite ao homem rever-se. A decisão angélica é definitiva porque é integralmente lúcida.

Os anjos bons ainda podem cair?

Não. A escolha angélica foi feita de uma vez por todas: os que permaneceram em Deus estão confirmados na graça, tal como os que recusaram estão fixos na sua recusa.

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