Akáthistos: o grande hino mariano do Oriente

Akáthistos: o grande hino mariano do oriente

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Χαῖρε, Νύμφη ἀνύμφευτε.
«Alegra-te, Esposa não desposada» (estribilho do Akáthistos)

O Akáthistos é o hino mais célebre da Igreja bizantina em honra da Mãe de Deus. O Marienlexikon o chama, com um «talvez», o mais belo do ponto de vista poético, o mais interessante do ponto de vista teológico e o mais amado na liturgia entre os hinos marianos da Igreja ortodoxa (NIKOLAOU, 1988, col. 66). Leena Mari Peltomaa observa que é, de longe, a peça da hinografia bizantina mais estudada (PELTOMAA, 2016, p. 109). O nome, em grego ἀκάθιστος, quer dizer «não sentado»: é o hino que se escuta de pé.

O nome

O Sinaxário bizantino explica o nome assim: Ἀκάθιστος δὲ εἴρηται, διότι ὀρθοστάδην τότε πᾶς ὁ λαὸς κατὰ τὴν νύκτα ἐκείνην τὸν ὕμνον τῇ τοῦ Λόγου Μητρὶ ἔμελψαν, «chama-se Akáthistos porque então todo o povo, naquela noite, cantou de pé o hino à Mãe do Verbo», e acrescenta que, enquanto nas estâncias dos outros hinos se costuma estar sentado, nestas, que são da Mãe de Deus, todos escutam de pé (MIGNE, 1865, col. 1353). A noite a que se refere é a de uma das libertações de Constantinopla. Ermanno Toniolo, que dedicou ao hino vários estudos, lembra que o Sinaxário recorda três libertações da cidade, em 626, 677 e 718, e que a ligação do nome a esses fatos foi posta em dúvida. Ele próprio propõe que Ἀκάθιστος ὕμνος τῆς Θεοτόκου, «hino da Mãe de Deus a ser dito de pé», tenha sido desde o início o título da obra (TONIOLO, 2000, p. 196-197).

Quando e por quem

O autor é desconhecido, e a tradição manuscrita transmite o hino quase sempre anônimo (TONIOLO, 1986, p. 23-24). Foi atribuído a Romano, o Melodista, ao patriarca Sérgio, ao patriarca Germano e a Jorge de Pisídia, a quem o atribui a edição do Migne (MIGNE, 1865, col. 1333-1336). Toniolo mostrou que Romano conhecia o hino e o imitou, o que o torna anterior a ele (TONIOLO, 1994, p. 319-320), e num estudo de 2017 apontou como provável autor Basílio de Selêucia, morto depois de 458 (TONIOLO, 1994, p. 318), apresentando essa hipótese com cautela (TONIOLO, 2017, p. 95-96). Peltomaa liga o hino à Constantinopla do século V e ao dogma da Mãe de Deus proclamado em Éfeso em 431 (PELTOMAA, 2015, p. 133, 135). O Diretório sobre a piedade popular resume: as fontes do hino são a Sagrada Escritura, a doutrina definida nos concílios de Niceia (325), Éfeso (431) e Calcedônia (451) e a reflexão dos Padres orientais dos séculos IV e V (CONGREGAZIONE PER IL CULTO DIVINO E LA DISCIPLINA DEI SACRAMENTI, 2002, n. 207).

A estrofe de dedicação que hoje abre o hino é posterior (TONIOLO, 2000, p. 3). Nela, a cidade de Constantinopla agradece à Mãe de Deus a vitória: Τῇ ὑπερμάχῳ στρατηγῷ τὰ νικητήρια, ὡς λυτρωθεῖσα τῶν δεινῶν εὐχαριστήρια ἀναγράφω σοι ἡ πόλις σου, Θεοτόκε, «a ti, comandante que combates por nós, eu, a tua cidade, ó Mãe de Deus, libertada dos males, consagro os cantos de vitória e de ação de graças» (TONIOLO, 2017, p. 30). As obras divergem sobre a sua data e autoria. O Marienlexikon a liga aos acontecimentos de 626, o cerco de Constantinopla (NIKOLAOU, 1988, col. 66), e Toniolo a julga atribuível a Sérgio ou, mais provavelmente, a Germano (TONIOLO, 2000, p. 197).

A forma

O hino tem 24 estâncias, chamadas «casas», οἶκοι, cada uma começando por uma letra do alfabeto grego, de alfa a ômega. As estâncias ímpares são longas: cinco versos de introdução, doze saudações que começam por χαῖρε e o estribilho Χαῖρε, Νύμφη ἀνύμφευτε. As pares são breves e terminam com Ἀλληλούϊα (TONIOLO, 2017, p. 54, 65). São ao todo 144 saudações, mais os doze estribilhos (TONIOLO, 2017, p. 96, PELTOMAA, 2016, p. 109). Χαῖρε é a palavra do anjo a Maria em Lc 1,28, «alegra-te» (TONIOLO, 2017, p. 96).

Pelo conteúdo, o hino divide-se em duas partes de doze estâncias, uma histórica e outra doutrinal (TONIOLO, 2000, p. 3). A primeira segue o Evangelho da infância: a Anunciação, a Visitação, as dúvidas de José, os pastores, os magos, a fuga para o Egito e a apresentação no Templo. A segunda contempla a nova criação, isto é, o mistério da Encarnação do Verbo e a salvação do homem (NIKOLAOU, 1988, col. 66).

A primeira estância mostra o tom de todo o hino: Χαῖρε, δι’ ἧς ἡ χαρὰ ἐκλάμψει· χαῖρε, δι’ ἧς ἡ ἀρὰ ἐκλείψει. Χαῖρε, τοῦ πεσόντος Ἀδὰμ ἡ ἀνάκλησις· χαῖρε, τῶν δακρύων τῆς Εὔας ἡ λύτρωσις, «Alegra-te, por quem brilhará a alegria, alegra-te, por quem cessará a maldição. Alegra-te, reerguimento de Adão caído, alegra-te, resgate das lágrimas de Eva» (TONIOLO, 2017, p. 54). E a vigésima terceira a chama σκηνὴ τοῦ Θεοῦ καὶ Λόγου, «tenda de Deus e Verbo», e κιβωτὲ χρυσωθεῖσα τῷ Πνεύματι, «arca dourada pelo Espírito» (TONIOLO, 2017, p. 65).

Na liturgia

Na Igreja bizantina, o hino é cantado em partes nas quatro primeiras semanas da Quaresma e por inteiro no quinto sábado, chamado por isso «sábado do Akáthistos» (TONIOLO, 2017, p. 5, NIKOLAOU, 1988, col. 66). Uma tradução latina feita por volta do ano 800, atribuída com reservas a um bispo de Veneza, levou-o ao Ocidente, onde influenciou hinos e orações marianas, sobretudo depois do século XI (TONIOLO, 2000, p. 104, NIKOLAOU, 1988, col. 67).

Em tempos recentes foi cantado várias vezes em Roma por vontade de João Paulo II (TONIOLO, 2000, p. 195): na noite de Pentecostes de 1981, em Santa Maria Maior, para o 1600º aniversário do primeiro Concílio de Constantinopla e o 1550º do Concílio de Éfeso, em 25 de março de 1988, no Ano Mariano, e em 8 de dezembro de 2000, em várias línguas (CONGREGAZIONE PER IL CULTO DIVINO E LA DISCIPLINA DEI SACRAMENTI, 2002, n. 207, nota 55, ESQUERDA BIFET, 2001, p. 115).

Referências

CONGREGAZIONE PER IL CULTO DIVINO E LA DISCIPLINA DEI SACRAMENTI. Direttorio su pietà popolare e liturgia: principi e orientamenti. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2002. n. 207, p. 172-173.

ESQUERDA BIFET, Juan. Giovanni Paolo II pellegrino in Santa Maria Maggiore: la «Statio» mariana di Papa Giovanni Paolo II. Roma: Centro di Cultura Mariana «Madre della Chiesa», 2001. p. 115.

MIGNE, J.-P. (ed.). Patrologiae cursus completus: series graeca. t. 92. Paris: J.-P. Migne, 1865. col. 1333-1336, 1353-1354.

NIKOLAOU, Theodoros. Akathistos Hymnos. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. v. 1. St. Ottilien: EOS, 1988. col. 66-67.

PELTOMAA, Leena Mari. «Cease your lamentations, I shall become an advocate for you»: Mary as intercessor in Romanos’ hymnography. In: PELTOMAA, Leena Mari, KÜLZER, Andreas e ALLEN, Pauline (ed.). Presbeia Theotokou. Wien: Verlag der ÖAW, 2015. p. 131-136.

PELTOMAA, Leena Mari. Epithets of the Theotokos in the Akathistos Hymn. In: BRUBAKER, Leslie e CUNNINGHAM, Mary B. (ed.). The cult of the Mother of God in Byzantium: texts and images. Abingdon: Routledge, 2016. (Birmingham Byzantine and Ottoman Studies). p. 109-112. Publicado originalmente por Ashgate em 2011.

TONIOLO, Ermanno M. Akàthistos. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 16-25.

TONIOLO, Ermanno M. L’inno «Akathistos» alla Madre di Dio: presentazione letteraria e teologica. Ephemerides Mariologicae, Madrid, v. 44, p. 313-353, 1994.

TONIOLO, Ermanno M. Akathistos: saggi di critica e di teologia. Roma: Centro di Cultura Mariana «Madre della Chiesa», 2000.

TONIOLO, Ermanno M. Akathistos: inno alla Madre di Dio. Edizione metrica, mistagogia, commento al testo. Roma: Centro di Cultura Mariana «Madre della Chiesa», 2017.

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