Oração «Augusta Rainha dos Céus»: origem, autor e fontes

Augusta Rainha dos Céus, Senhora dos Anjos

Por · Atualizado em

Auguste Reine des cieux et Maîtresse des Anges, vous qui avez reçu de Dieu le pouvoir et la mission d’écraser la tête de Satan…
«Augusta Rainha dos Céus e Senhora dos Anjos, vós que recebestes de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás» (texto indulgenciado em 1908)

A «Augusta Rainha dos Céus» é uma oração muito difundida. Foi muito impressa e, como nota o cardeal Angelo Amato, está espalhada entre os exorcistas católicos (AMATO, 2011, p. 368). Invoca a Mãe de Deus como Rainha dos Anjos e pede-lhe que envie as legiões celestes contra as potências das trevas. Por trás dela há um autor identificado, uma data, uma aprovação da Santa Sé e algumas lendas que convém separar dos fatos. Este artigo segue os documentos.

O texto da oração

A Santa Sé publicou o texto francês original nas Acta Sanctae Sedis de 1908, quando estendeu a todos os fiéis a indulgência ligada à oração: «Auguste Reine des cieux et Maîtresse des Anges, vous qui avez reçu de Dieu le pouvoir et la mission d’écraser la tête de Satan, nous vous le demandons humblement, envoyez les légions célestes pour que, sous vos ordres, elles poursuivent les démons, les combattent partout, répriment leur audace et les refoulent dans l’abîme. Qui est comme Dieu? Saints Anges et Archanges, défendez-nous, gardez-nous. O bonne et tendre Mère, vous serez toujours notre amour et notre espérance. O divine Mère, envoyez les Saints Anges pour me défendre et repousser loin de moi le cruel ennemi» (ASS 41, 1908, p. 675).

Em português: «Augusta Rainha dos Céus e Senhora dos Anjos, vós que recebestes de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás, nós vos pedimos humildemente: enviai as legiões celestes, para que, sob as vossas ordens, elas persigam os demônios, os combatam por toda parte, reprimam a sua audácia e os repilam para o abismo. Quem é como Deus? Santos Anjos e Arcanjos, defendei-nos, guardai-nos. Ó boa e terna Mãe, vós sereis sempre o nosso amor e a nossa esperança. Ó divina Mãe, enviai os santos Anjos para me defender e repelir para longe de mim o cruel inimigo».

Circula também uma redação mais longa, que diz «soberana Senhora dos Anjos», «vós que, desde o princípio, recebestes de Deus o poder e a missão», «enviai as vossas legiões santas» e «sob as vossas ordens e pelo vosso poder». É a que se encontra em muitos livros de devoção e na obra do cardeal Amato (AMATO, 2011, p. 368). O texto que Roma indulgenciou em 1908 é o mais curto, sem «desde o princípio». Ambos podem rezar-se, mas convém saber qual é o da fonte oficial.

O autor, o padre Louis-Édouard Cestac

A oração é atribuída ao padre Louis-Édouard Cestac. O decreto sobre as suas virtudes, publicado na Acta Apostolicae Sedis, resume a sua vida: «Ludovicus Eduardus Cestac ortum duxit Baionae apud Pyrenaeos montes in Gallia, die 6 mensis Ianuarii anno 1801», «Luís Eduardo Cestac nasceu em Bayonne, junto aos Pirenéus, na França, a 6 de janeiro de 1801» (AAS 69, 1977, p. 178). Ordenado em 1825, foi vigário da catedral de Bayonne e dedicou-se, com a ajuda da sua irmã Isabel, às moças pobres e em perigo. Em 1837 decidiu acudir às que tinham caído no mal pela miséria e pela ignorância e deu-lhes casa em Bayonne. Em 1839 transferiu a obra para Anglet, com o nome de Notre-Dame du Refuge, e aí fundou, em 1842, a congregação das Servas de Maria. Morreu em Anglet a 27 de março de 1868 (AAS 69, 1977, p. 179-181).

A sua causa foi introduzida por São Pio X a 8 de abril de 1908. Foi declarado venerável por São Paulo VI, com o decreto sobre a heroicidade das virtudes de 13 de novembro de 1976 (AAS 69, 1977, p. 181-182). A 12 de junho de 2014, o papa Francisco aprovou o decreto da Congregação para as Causas dos Santos que reconhece um milagre atribuído à sua intercessão (AAS 107, 2015, p. 483-485). Foi beatificado em 2015.

A origem: a visão de janeiro de 1864

Segundo o relato corrente, a 13 de janeiro de 1864 o padre Cestac foi tomado como que por um raio de luz e viu os demônios espalhados pela terra, causando estragos. Viu ao mesmo tempo a Virgem, que lhe teria dito ter chegado a hora de a invocar como Rainha dos Anjos e de lhe pedir que enviasse as legiões santas contra os demônios. Quando ele perguntou por que razão ela não as enviava sem que lho pedissem, ter-lhe-ia respondido que a oração é uma condição posta por Deus para obter as graças (AMBROGI e LE TOURNEAU, 2015, verbete «Cestac»).

Duas cautelas são necessárias. Primeiro, a data: várias obras, entre elas a do cardeal Amato, dão 1864, e outras dão 1863, como o verbete de Patrick Sbalchiero no Dictionnaire des «apparitions» de la Vierge Marie, que de resto fala no condicional. Segundo, não consta que a Igreja se tenha pronunciado sobre esta experiência. Como observa uma história da mariologia, a oração foi indulgenciada, «mentre non consta che sia stato emesso un giudizio sull’apparizione», «mas não consta que tenha sido emitido um juízo sobre a aparição» (BOAGA e GAMBERO, 2012, p. 775).

A aprovação da Santa Sé

O que está documentado são as indulgências. O pedido publicado em 1908 recorda que Leão XIII, por rescrito da Sagrada Congregação das Indulgências de 17 de julho de 1895, tinha concedido uma indulgência de trezentos dias aos membros do instituto fundado por Cestac que rezassem esta oração. O postulador da causa pediu que a indulgência fosse estendida a todos os fiéis. A resposta veio a 8 de julho de 1908: «Sacra Congregatio Indulgentiarum utendo facultatibus a SS. D. N. Papa Pio X sibi tributis benigne annuit pro gratia iuxta precem», «a Sagrada Congregação das Indulgências, usando as faculdades que lhe foram atribuídas por Nosso Santíssimo Senhor o Papa Pio X, concedeu benignamente a graça segundo o pedido» (ASS 41, 1908, p. 675-676). Segundo o mesmo Dictionnaire, a Penitenciaria Apostólica elevou-a a quinhentos dias a 28 de março de 1935, ato que não pudemos conferir no original.

Convém entender o alcance destas concessões. A indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados. Ao indulgenciar uma oração, a Igreja aprova o seu texto para o uso devoto dos fiéis, mas não se pronuncia sobre a visão que lhe terá dado origem. E a medida em dias desapareceu com a reforma de São Paulo VI, a constituição Indulgentiarum doctrina de 1967, de modo que as concessões de 1895 e de 1908 já não vigoram nesses termos. Hoje, a recitação devota desta oração pode lucrar a indulgência parcial prevista nas concessões gerais do Enchiridion Indulgentiarum.

Circulam outros pormenores sobre a história da oração, como uma carta de Cestac ao cardeal Villecourt e uma resposta favorável de Pio IX em fevereiro de 1864, a aprovação de vários bispos franceses ou a tiragem de meio milhão de exemplares. Não os encontramos nas fontes que consultámos e, por isso, não os damos como fatos.

As fontes teológicas da oração

A oração é um mosaico bíblico. A imagem central, esmagar a cabeça de Satanás, vem do Protoevangelho. A Vulgata diz: «ipsa conteret caput tuum», «ela te esmagará a cabeça» (Gn 3,15). O hebraico e a Nova Vulgata leem «ipsum», «ele», isto é, a descendência da mulher. Num dos trabalhos do Congresso Mariológico de Roma de 1950, J. Oberski observou que esta diferença «sensum substantialem horum verborum, quatenus cooperationem mulieris in opere redemptionis significat, non mutat», «não muda o sentido substancial destas palavras, enquanto significam a cooperação da mulher na obra da redenção» (OBERSKI, 1953, p. 69). É Cristo quem vence, e a Mãe está associada à sua vitória.

O cenário das legiões celestes prolonga Ap 12,7, onde «Michael et angeli eius proeliabantur cum dracone», «Miguel e os seus anjos combatiam contra o dragão», uma das leituras possíveis da festa dos arcanjos a 29 de setembro. E a exclamação «Quem é como Deus?» traduz o nome do arcanjo Miguel, que em hebraico é precisamente essa pergunta.

O título que abre a oração tem raízes na liturgia. A Igreja canta «Ave, Regina caelorum, ave, Domina angelorum», «Ave, Rainha dos céus, ave, Senhora dos anjos», e invoca Maria nas Ladainhas de Loreto como «Regina Angelorum». O papa Pio XII, na encíclica Ad caeli Reginam (1954), lembrou que a arte cristã representa Maria rodeada pela corte dos anjos, porque ela domina não só as forças da natureza, «sed in pravos quoque Satanae impulsus», «mas também os maus impulsos de Satanás» (AAS 46, 1954, p. 632). E, citando a bula Ineffabilis Deus do beato Pio IX, recordou que Maria foi «caeli terraeque Regina a Domino constituta, ac super omnes Angelorum choros Sanctorumque Caelitum ordines exaltata», «constituída pelo Senhor Rainha do céu e da terra, e exaltada acima de todos os coros dos Anjos e de todas as ordens dos Santos» (AAS 46, 1954, p. 636-637).

Conclusão

Conhecer a origem da «Augusta Rainha dos Céus» não lhe tira força. É uma oração nascida da caridade de um sacerdote que a Igreja hoje venera como beato, aprovada com indulgências por Leão XIII e por São Pio X, e tecida de Escritura e de liturgia. A visão que lhe deu origem pertence ao plano da devoção pessoal, e não consta que tenha sido julgada pela Igreja. Mas o conteúdo da oração é a fé de sempre: Cristo venceu o mal, e a sua Mãe, Rainha dos Anjos, intercede pelos seus filhos no combate espiritual.

Referências

ACTA SANCTAE SEDIS. Ex S. C. Indulgentiarum et SS. Reliquiarum. Indulgentia extenditur omnibus fidelibus pro prece ad B. M. V. Reginam Angelorum, 8 jul. 1908. Acta Sanctae Sedis, Romae, v. 41, p. 675-676, 1908.

ACTA APOSTOLICAE SEDIS. Sacra Congregatio pro Causis Sanctorum. Decretum super virtutibus Ludovici Eduardi Cestac, 13 nov. 1976. Acta Apostolicae Sedis, Città del Vaticano, v. 69, p. 178-182, 1977.

ACTA APOSTOLICAE SEDIS. Congregatio de Causis Sanctorum. Decretum super miraculo Ludovici-Eduardi Cestac, 12 jun. 2014. Acta Apostolicae Sedis, Città del Vaticano, v. 107, p. 483-485, 2015.

AMATO, Angelo. Maria, la Theotokos: conoscenza ed esperienza. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2011. p. 368.

AMBROGI, Pascal-Raphaël e LE TOURNEAU, Dominique. Dictionnaire encyclopédique de Marie. Paris: Desclée de Brouwer, 2015. Verbete «Cestac».

BOAGA, Emanuele e GAMBERO, Luigi (org.). Storia della mariologia, v. 2: dal modello letterario europeo al modello manualistico. Roma: Città Nuova, Marianum, 2012. p. 775.

LAURENTIN, René e SBALCHIERO, Patrick (dir.). Dictionnaire des «apparitions» de la Vierge Marie. Paris: Fayard, 2007. Verbete «Anglet», p. 88-89.

OBERSKI, Ioannes. De doctrina S. Scripturae de praedestinatione B. V. Mariae ad suam singularem missionem. In: Alma socia Christi: Acta Congressus Mariologici-Mariani Romae anno sancto 1950 celebrati. Romae: Academia Mariana, 1953. v. 11, p. 69.

PIO XII. Litterae encyclicae Ad caeli Reginam, 11 out. 1954. Acta Apostolicae Sedis, Città del Vaticano, v. 46, p. 625-640, 1954.

Veja o nosso guia completo de Angelologia Católica.

Quer estudar angeologia e demonologia a fundo?

Este artigo nasce da biblioteca da Locus Mariologicus. A pós-graduação em Angeologia e Demonologia (especialização lato sensu, 360 horas, 100% online) estuda os anjos e os demônios na Escritura, nos Padres e no Magistério, com uma área dedicada à demonologia prática, ao exorcismo e à oração de libertação. A nova turma começa em 18 de janeiro de 2027.

Conhecer a pós em Angeologia e Demonologia

Respostas