João Paulo II – apud crucem, cum Maria (Carta da quinta-Feira Santa de 1988): sacerdócio e maternidade espiritual de Maria
Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
A Carta de Quinta-feira Santa de 1988 do Papa São João Paulo II aos sacerdotes, a que damos aqui o título editorial Apud crucem cum Maria (junto à cruz com Maria) e cujo incipit é «In Cenaculum nos hodie revertimur omnes», é uma das mais profundas reflexões do magistério sobre a relação entre o sacerdócio ministerial e a maternidade espiritual de Maria. Publicada em 25 de março de 1988 (festa da Anunciação) durante o Ano Mariano (1987-1988). Texto no Enchiridion Vaticanum vol. 11, parágrafos 255-282.
| Coleção | Enchiridion Vaticanum vol. 11, parágrafos 255-282 |
| Papa | São João Paulo II |
| Documento | Carta aos Sacerdotes para a Quinta-feira Santa de 1988 |
| Data | 25 de março de 1988 (festa da Anunciação, durante o Ano Mariano) |
| Fonte | AAS 80 (1988) 1280-1291 |
Texto latino, n. 264 (Maria, Theotokos da Igreja)
«Beata autem Virgo divinae maternitatis dono et munere, quo cum Filio Redemptore unitur, … etiam cum Ecclesia intime coniungitur», praedicat Concilium pergitque «Deipara est Ecclesiae typus, ut iam docebat S. Ambrosius, in ordine scilicet fidei, caritatis et perfectae cum Christo unionis. In mysterio enim Ecclesiae, quae et ipsa iure mater vocatur et virgo, Beata Virgo Maria praecessit, eminenter et singulariter tum virginis tum matris exemplar praebens» (Lumen Gentium, 63).
Tradução portuguesa, n. 264
«Pelo dom e missão da maternidade divina, que a une a seu Filho Redentor, … está também a Virgem intimamente ligada, à Igreja», proclama o Concílio, e prossegue: «a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo, como já ensinava S. Ambrósio. Com efeito, no mistério da Igreja, a qual é também com razão chamada mãe e virgem, a bem-aventurada Virgem Maria foi adiante, como modelo eminente e único de virgem e de mãe» (Lumen Gentium, 63, na tradução portuguesa publicada pela Santa Sé).
n. 265: «Apud Crucem in Calvariae loco»
Latino: Apud Crucem in Calvariae loco Mariam «accepit … discipulus in sua» sibi nempe a Christo demonstratam verbis iis: «Ecce mater tua». Concilii autem docet magisterium quantopere Ecclesia universa Mariam «in sua» susceperit, quam penitus etiam huius Matris Virginis mysterium ad Ecclesiae pertineat mysterium intimamque eius veritatem.
Português: Junto à Cruz, no lugar do Calvário, «o discípulo … recebeu em sua casa» Maria, que Cristo lhe tinha mostrado com estas palavras: «Eis a tua mãe». E o magistério do Concílio ensina quanto a Igreja inteira recebeu Maria «em sua casa» e quão profundamente também o mistério desta Mãe Virgem pertence ao mistério da Igreja e à sua íntima verdade.
O sacerdócio e a maternidade espiritual de Maria, n. 280
Latino: Praedicat Concilium Mariam in fidei peregrinatione procedentem suam per coniunctionem cum Filio perfectam ad Crucem usque anteire, eminenter ac singulariter sese praemonstrantem omni Dei Populo, qui eadem progrediens via Christum sectatur in Spiritu Sancto. Nonne proin cum ea nos uti Ecclesiae pastores presbyteri coniungamus insigniter oportet, quippe qui communitates etiam nobis creditas perducere debeamus eam per semitam quae a Cenaculo Pentecostes Christum sequitur totam per hominis historiam?
Português: Proclama o Concílio que Maria, avançando na peregrinação da fé, pela sua perfeita união com o Filho até à cruz precede o caminho, apresentando-se de modo eminente e singular a todo o povo de Deus que avança pela mesma via seguindo Cristo no Espírito Santo. Não deveríamos pois nós, sacerdotes pastores da Igreja, unir-nos a ela de modo insigne, já que devemos conduzir as comunidades a nós confiadas pelo caminho que do Cenáculo do Pentecostes segue Cristo através de toda a história humana?
O Magnificat e o sacerdócio, n. 281
Latino: Eucharistiam ita celebrantes tot apud altaria per orbem disseminata, gratias Sacerdoti referamus aeterno de munere nobis quod ipse in Sacerdotii contulit sacramento. Et in hac gratiarum actione voces similiter audiantur quas evangelista in ore Mariae collocat consobrinam invisentis Elisabeth: «fecit mihi magna, qui potens est, et sanctum nomen eius» (Lc 1,49).
Português: Celebrando assim a Eucaristia em tantos altares espalhados pelo mundo, demos graças ao Sacerdote eterno pelo dom que ele nos conferiu no sacramento do sacerdócio. E nesta acção de graças ouçam-se igualmente as vozes que o evangelista coloca na boca de Maria visitando a sua prima Isabel: «fez em mim grandes coisas Aquele que é poderoso, e o seu nome é santo» (Lc 1,49).
Significado pastoral
A Carta de Quinta-feira Santa de 1988 é a síntese mais densa de três temas:
- Sacerdócio ministerial, como continuação da Última Ceia
- Maternidade espiritual de Maria, como recebida pelo discípulo amado ao pé da Cruz
- Ano Mariano 1987-1988, integrando os dois temas anteriores
O texto é modelo de leitura ortodoxa da Lumen Gentium cap. VIII para a vida sacerdotal, prelúdio do que será Pastores Dabo Vobis (1992).
Herança
A Carta insere-se na série de cartas que João Paulo II dirigiu aos sacerdotes por ocasião da Quinta-feira Santa: escreveu quase todos os anos uma carta aos sacerdotes por essa ocasião, da primeira, de 1979, à última, de 2005.
Leitura complementar
Redemptoris Mater | Pastores Dabo Vobis | Ano Mariano 1987-1988 | Salvifici Doloris | Lumen Gentium
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