João Paulo II – divina misericordia, n. 9: Maria, mãe da misericórdia (1980)

A encíclica Dives in Misericordia (30 de novembro 1980) é a segunda encíclica de São João Paulo II, após a programática Redemptor Hominis (1979). Dedicada à misericórdia divina, contém no n. 9 uma síntese mariológica de excepcional profundidade: Maria como «Mãe da Misericórdia», aquela que experimentou a misericórdia de Deus de modo único e que por isso pode mediar a misericórdia para todos.

PapaSão João Paulo II (1978-2005)
DocumentoEncíclica Dives in Misericordia, 30 de novembro 1980
TemaMisericórdia divina: Maria Mater misericordiae

Texto latino – n. 9 mMater misericordiae)

«Maria etiam est, quae modo singulari et extraordinario, sicut nemo alius, misericordiam experta est, simulque, modo etiam extraordinario, propriis sacrificiis cordis sui possibilem fecit participationem misericordiae Dei. Hoc sacrificium intime conexum est cum cruce Filii eius, ad cuius pedem stetit super Calvariam»

Maria é também aquela que de modo singular e extraordinário, como nenhuma outra, experimentou a misericórdia, e ao mesmo tempo, de modo igualmente extraordinário, tornou possível pelos sacrifícios próprios do seu coração a participação na misericórdia de Deus. Este sacrifício está intimamente conexo com a cruz do seu Filho, a cujo pé ela esteve sobre o Calvário.

Tradução portuguesa – n. 9 continuação

Maria é ao mesmo tempo aquela que mais «conhece» Deus como Misericórdia: ela conhece o seu preço, sabe quanto este é grande. Neste sentido, chamamo-la também Mãe da Misericórdia: «Mater Misericordiae» ou «Mater misericordiae Dei». Estes títulos têm profundo significado teológico, porque exprimem a particular cooperação com Deus que só a Maria, Mãe do Verbo encarnado, foi reservada.

Ninguém como ela experimentou até ao fundo o mistério da Cruz, este ápice estonteante da revelação do amor misericordioso. Mais ainda: ninguém como ela sabe acolher no coração a tonalidade específica da misericórdia: «misericordia eius a progenie in progenies» (Lc 1, 50).

Os três níveis da mariologia da misericórdia

João Paulo II desenvolve a mariologia da misericórdia em três níveis:

  1. Maria experimenta a misericórdia: ela é a primeira beneficiária da misericórdia divina (Magnificat: «O Poderoso fez em mim maravilhas»)
  2. Maria coopera com a misericórdia: pelo seu fiat, pelo seu sofrimento na Cruz, pela sua participação no mistério salvífico
  3. Maria intercede pela misericórdia: apresenta-se como Mãe que pede misericórdia para os filhos pecadores

Magnificat como hino da misericórdia

João Paulo II lê o Magnificat (Lc 1, 46-55) como o cântico bíblico mais explícito da misericórdia divina. As palavras de Maria, «misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum» (a sua misericórdia se estende de geração em geração para aqueles que o temem), resumem a teologia bíblica da hesed (misericórdia fiel) e da rahamim (compaixão maternal) que Maria expressa na sua experiência mística.

Da dives in misericordia ao jubileu de 2000

A teologia mariana da misericórdia desenvolvida em 1980 será retomada vinte anos depois no Jubileu da Misericórdia de 2000 e canonizará Santa Faustina Kowalska. Maria como «Mater Misericordiae» tornar-se-á o eixo da espiritualidade pós-João Paulo II, culminando no Jubileu Extraordinário da Misericórdia de Francisco (2015-2016).

Leitura complementar

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