Nossa Senhora das Graças ou da Graça? Conclusão

Nossa Senhora das graças ou da graça?: conclusão.

Perché, prima di chiedere alla Madonna di ottenerci le grazie, non chiediamo di ottenerci la Grazia?
«Por que, antes de pedir a Nossa Senhora que nos obtenha as graças, não lhe pedimos que nos obtenha a Graça?» (Raniero Cantalamessa, Maria, uno specchio per la Chiesa)

«Nossa Senhora das Graças» é um dos títulos marianos mais amados do povo cristão. Em Portugal e no Brasil evoca santuários, imagens e milhares de promessas. Mas o título levanta uma pergunta: Maria é sobretudo aquela que distribui favores, as «graças» no plural, ou aquela que foi cheia da Graça, no singular, e que nos ensina a acolhê-la? O pregador da Casa Pontifícia Raniero Cantalamessa propôs dar um passo: «Perché non fare un passo avanti e non scoprire un titolo ancora più bello, ancora più necessario: “Santa Maria della Grazia”, al singolare?», «Por que não dar um passo adiante e descobrir um título ainda mais belo, ainda mais necessário: “Santa Maria da Graça”, no singular?» (CANTALAMESSA, 1997, p. 41). O mariólogo Stefano De Fiores fez o mesmo percurso, das graças à Graça, num estudo apresentado em Ascoli Piceno em 2011 (DE FIORES, [2012?]). Esta conclusão segue o seu caminho.

O que é a graça

Para De Fiores, «la grazia è comunione immediata con il Padre mediante Cristo nello Spirito», «a graça é comunhão imediata com o Pai por meio de Cristo no Espírito», um processo que ajuda os seres humanos, criados à imagem de Deus, a libertar-se do pecado e a realizar a divinização (DE FIORES, [2012?], p. 115). Santo Atanásio resumiu este mistério numa frase que ficou como fórmula da tradição: «Αὐτὸς γὰρ ἐνηνθρώπησεν, ἵνα ἡμεῖς θεωποιηθῶμεν», «ele próprio se fez homem para que nós fôssemos divinizados» (ATANÁSIO, De incarnatione 54,3, PG 25, 192 B, cf. CCC 460). O Novo Testamento fala da efusão do Espírito como princípio de renascimento (Jo 3,3.5-7), de vida nova (Rm 5,5 e 6,4), de vida filial (Rm 8,15-16, Gl 4,6) e de vida eterna (Rm 6,23), e a Segunda Carta de Pedro diz que nos tornamos «divinae consortes naturae», «participantes da natureza divina» (2Pd 1,4).

A graça não é só o perdão dos pecados. O Concílio de Trento ensinou que a justificação «non est sola peccatorum remissio, sed et sanctificatio et renovatio interioris hominis per voluntariam susceptionem gratiae et donorum», «não é só a remissão dos pecados, mas também a santificação e renovação do homem interior pela aceitação voluntária da graça e dos dons» (DENZINGER, 1996, n. 1528). O teólogo evangélico Jürgen Moltmann, ao criticar a justificação apenas forense da ortodoxia luterana, escreve palavras que um católico pode fazer suas: a justificação me situa numa nova relação com Deus, mas o renascimento «trasforma la mia sostanza interiore, mi dona un nuovo germe di vita», «transforma a minha substância interior, me dá um novo germe de vida» (MOLTMANN, apud DE FIORES, [2012?], p. 115-116).

E a graça é dom que pede acolhimento. O Grupo de Dombes observa, numa perspectiva ecumênica e na tradução italiana: «L’accoglienza non è un’opera. Colui che riceve un regalo non partecipa in alcun modo all’iniziativa del dono. Tuttavia il regalo è pienamente tale solo se ricevuto», «o acolhimento não é uma obra. Quem recebe um presente não participa de modo algum na iniciativa do dom. Contudo, o presente só é plenamente tal se for recebido» (GRUPO DE DOMBES, apud DE FIORES, [2012?], p. 115). É aqui que entra Maria.

A cheia de graça

O primeiro nome que Deus dá a Maria na história da salvação não é o seu nome próprio. O anjo saúda-a: «χαῖρε, κεχαριτωμένη, ὁ κύριος μετὰ σοῦ», «alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo» (Lc 1,28). O verbo χαριτόω é raríssimo em grego: no Novo Testamento aparece apenas aqui e em Ef 1,6, e significa conceder graça, cumular de graça. Ignace de la Potterie observa que os verbos gregos deste tipo indicam uma ação que realiza algo no seu objeto, e que Lucas usa o particípio perfeito passivo: «Kecharitoméne significa dunque che, nella persona a cui si riferisce il verbo, Maria, l’azione della grazia di Dio ha già operato un cambiamento», «kecharitoméne significa que, na pessoa a quem o verbo se refere, Maria, a ação da graça de Deus já operou uma transformação» (DE LA POTTERIE, apud DE FIORES, 2006, v. 2, p. 1458). De Fiores resume: é o «primo nome storico-salvifico di Maria», que a designa como «destinataria o termine di permanente amore divino», «destinatária ou termo de um amor divino permanente» (DE FIORES, [2012?], p. 119).

Na Anunciação, a graça não suprime a liberdade de Maria. Ela responde: «Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tuum», «eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Em Maria, diz o teólogo Roberto Carelli, citado por De Fiores, a «coincidência» de graça e liberdade «non può trovare migliore illustrazione», «não pode encontrar melhor ilustração» (CARELLI, apud DE FIORES, [2012?], p. 119).

Mãe na ordem da graça

Maria não está ligada à graça só como destinatária. No Calvário, Jesus confia-lhe o discípulo amado (Jo 19,26-27). Segundo De Fiores, que se apoia no estudo clássico de Théodore Koehler, De la Potterie e Brown admitem que os Padres, salvo Orígenes, não leram esta cena como revelação da maternidade espiritual de Maria (DE FIORES, [2012?], p. 121). Para Koehler, o texto teve entre os Padres um papel indireto, e só na Idade Média se chegou a explicá-lo como maternidade espiritual (KOEHLER, 1959, p. 120-121 e 151-154). A exegese recente recuperou essa leitura. Brown escreve que o quadro joânico da mãe de Jesus que se torna mãe do discípulo amado «sembra evocare i temi veterotestamentari di Sion madre che partorisce un popolo nuovo nell’èra messianica, e di Èva e della sua stirpe», «parece evocar os temas do Antigo Testamento de Sião, mãe que dá à luz um povo novo na era messiânica, e de Eva e da sua descendência» (BROWN, apud DE FIORES, [2012?], p. 121).

O Concílio Vaticano II ensina que Maria é «plane mater membrorum (Christi)», «verdadeiramente mãe dos membros de Cristo», porque cooperou com a caridade para que os fiéis nascessem na Igreja (Lumen gentium 53, AAS 57, 1965, p. 58-59, citando Santo Agostinho). E acrescenta que ela cooperou de modo singular na obra do Salvador, «oboedientia, fide, spe et flagrante caritate», «com a obediência, a fé, a esperança e a ardente caridade», para restaurar a vida sobrenatural das almas: «Quam ob causam mater nobis in ordine gratiae exstitit», «por isso é nossa mãe na ordem da graça» (Lumen gentium 61, AAS 57, 1965, p. 63). Quem gera os filhos de Deus pela pregação e pelo batismo é a Igreja (LG 64). Maria «coopera com amor de mãe» nessa geração e formação dos fiéis (LG 63).

Medianeira, mas em Cristo

É neste quadro que se entende o título de Medianeira. O Concílio reconhece que Maria é invocada na Igreja com os títulos de Advogada, Auxiliadora, Adjutora e Medianeira, mas fixa logo o seu sentido: «Quod tamen ita intelligitur, ut dignitati et efficacitati Christi unius Mediatoris nihil deroget, nihil superaddat», «o que se entende de modo que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia de Cristo, único Mediador» (Lumen gentium 62, AAS 57, 1965, p. 63). O Concílio evitou pronunciar-se sobre a necessidade da intervenção de Maria na intercessão e distribuição de todas as graças, e não usou o título de «Medianeira de todas as graças», como explica Salvatore Meo, «sia per non ingenerare equivoci con l’unica mediazione del Cristo, sia per non avallare posizioni teologiche ancora in discussione», «quer para não gerar equívocos com a única mediação de Cristo, quer para não sancionar posições teológicas ainda em discussão» (MEO, 1986, p. 924, cf. DE FIORES, [2012?], p. 113).

Bento XVI, nas vésperas marianas de Etzelsbach, em 23 de setembro de 2011, disse, segundo a versão italiana do discurso, que da Cruz, «trono della grazia e della redenzione», Jesus deu aos homens a própria Mãe, e que no momento do seu sacrifício «Egli rende Maria in certo modo mediatrice del flusso di grazia che deriva dalla Croce», «Ele torna Maria, de certo modo, medianeira do fluxo de graça que deriva da Cruz» (BENTO XVI, apud DE FIORES, [2012?], p. 123). O «de certo modo» é importante: a graça vem da Cruz de Cristo, e Maria é medianeira nele.

Das graças à Graça

Não há, por isso, por que opor os dois títulos. Pedir a Maria «as graças», a saúde, o trabalho, a proteção na viagem, é legítimo, e a história dos santuários mostra quanto o povo cristão confiou na sua intercessão. Mas Bento XVI, no mesmo discurso, perguntava o que Maria quer realmente dizer-nos quando nos salva de um perigo, e respondia que ela quer ajudar-nos a compreender a amplitude e a profundidade da nossa vocação cristã: «tutta la nostra vita deve essere una risposta all’amore ricco di misericordia del nostro Dio», «toda a nossa vida deve ser uma resposta ao amor rico de misericórdia do nosso Deus» (BENTO XVI, apud DE FIORES, [2012?], p. 123).

Nossa Senhora das Graças é, assim, antes de tudo, Nossa Senhora da Graça: aquela que foi cheia da graça de Deus, que a acolheu na fé e que, como mãe na ordem da graça, nos conduz a acolhê-la também, para que a vida de Cristo cresça em nós.

Referências

ATANÁSIO DE ALEXANDRIA. De incarnatione Verbi 54. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Graeca. Paris: J.-P. Migne, 1857. v. 25, col. 191-192.

CANTALAMESSA, Raniero. Maria, uno specchio per la Chiesa. 4. ed. Milano: Ancora, 1997 (reimpr. 2002).

CATECHISMO DELLA CHIESA CATTOLICA. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1992. n. 460.

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Lumen gentium, n. 53, 61-64. Acta Apostolicae Sedis, v. 57, p. 5-75, 1965.

DE FIORES, Stefano. Santa Maria delle grazie: senso teologico di un titolo mariano. In: DE FIORES, Stefano e SABATINI, Paolo (org.). Maria icona del Vangelo della grazia: atti del XXVII Colloquio internazionale di mariologia, Ascoli Piceno, 6-8 ottobre 2011. [S.l.: s.n.], [2012?]. p. 103-124.

DE FIORES, Stefano. Santa Maria. In: DE FIORES, Stefano. Maria: nuovissimo dizionario. Bologna: EDB, 2006. v. 2, p. 1451-1489.

DENZINGER, Heinrich e HÜNERMANN, Peter (org.). Enchiridion symbolorum definitionum et declarationum de rebus fidei et morum. Edizione bilingue. 2. ed. Bologna: EDB, 1996. n. 1528.

KOEHLER, Théodore. Les principales interprétations traditionnelles de Jn 19,25-27, pendant les douze premiers siècles. Bulletin de la Société française d’Études mariales, Paris, v. 16 (La maternité spirituelle de Marie I), p. 119-155, 1959 [publ. 1960].

MEO, Salvatore. Mediatrice. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo Dizionario di Mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 920-935.

Pós-Graduação em Mariologia

Quer aprofundar a sua formação em Mariologia? Conheça a Pós-Graduação em Mariologia da Locus Mariologicus, uma formação acadêmica que une rigor teológico, vida espiritual e tradição viva da Igreja.

Entrar na lista de espera →

Quer estudar mariologia a sério?

Este artigo nasce das obras da biblioteca da Locus Mariologicus. A Pós-Graduação em Mariologia leva-o à mesma fonte, com acompanhamento acadêmico: Escritura, Padres da Igreja e Magistério, do primeiro dogma às questões contemporâneas.

Conhecer a Pós-Graduação em Mariologia

Ebook Consagração a Jesus por MariaEbook · ConsagraçãoConsagração a Jesus por MariaFundamentos bíblicos, teológicos e práticas espirituais para viver a consagração.Quero o ebook →

Artigos relacionados

Respostas

  1. Gratidão ao professor Daniel e a Carolline Muniz , pela relevante contribuição para o nosso crescimento Espiritual Mariano ,  por meio das postagens dos temas sobre Maria x Graças. 
    Segue em anexo a foto da capela do colégio Nossa Senhora das Neves, inaugurada em 02 de fevereiro de 1950, foi entronizada a imagem de Nossa Senhora das Graças.

  2. Amém! Que Maria nos ajude a sustentar e a fortalecer o nosso Sim a Deus, assumindo e cumprindo com humildade, fé e obediência a missão que Deus nos confiou! Obrigada Prof. Daniel pela riqueza de detalhes na explicação deste título de Maria , nossa amada Mãe !

  3. Uma pergunta : Sabemos que a graça é dom de Deus, mas precisamos aceita- la para te-la conosco , correto? Já ouvi dizer que a Graça é dom de Deus e nada e nem ninguém pode tirá-la de nós, nem mesmo o pecado e a pessoa , (não quero expor aqui quem ) afirmou ainda dizendo que isto está nas Escrituras na carta de São Paulo aos Romanos 5,20: “onde abundou o pecado , super abundou a graça “, diante do que você explicou no texto ficou claro que não é bem assim, entendi que precisamos aceitar esta graça e vive – la com obediência a Vontade de Deus como Maria viveu , correto? Esta pessoa ainda nos disse como num ditado popular que tem aqui no Brasil , ” filho de peixe, peixinho é” , filho de Deus , deusinho é” . Gostaria que se você pudesse Prof Daniel me esclarecesse esta dúvida, muito obrigada pela atenção! Deus o abençoe!

  4. Ter Maria como Mãe, significa dizer que não somos órfãos! É uma graça poder viver esta realidade. Saber que como Mãe, intercede por nós naquilo que mais necessitamos… Talvez, muitas vezes, a graça concedida não coincida com a graça desejada, mas que mãe daria a um filho aquilo que não lhe fosse indispensável, ou mesmo algo que lhe prejudicasse? A confiança no amor materno de Maria deve nos fortalecer a permanecermos firmes na caminhada, mesmo que esta se apresente deveras adversa…

  5. Obrigada Professor Daniel e toda a equipe por estarem sempre a nos esclarecer, com ensinamentos profundos tudo sobre Maria! E, sendo assim, tanto nos edificam nos conhecimentos, quanto nos fortificam na caminhada em Jesus, por Maria! Agradecida e feliz por conhecer e entender mais sobre nossa Mãe Santíssima! Deus abençoe a todos vocês 🙏🏼