Lúcifer na Bíblia: quem é e de onde vem o nome

São Miguel de armadura dourada combate o dragão do Apocalipse e os anjos rebeldes, que caem do céu como monstros (pormenor)

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«Lúcifer» não é um nome próprio do diabo na Bíblia hebraica: é a palavra latina com que a Vulgata traduziu «Helel, filho da aurora», a estrela da manhã, em Isaías 14,12. O profeta usava essa imagem contra o rei da Babilônia. Os Padres da Igreja leram nela a queda do anjo soberbo, e daí o nome passou a designar o demônio. A Escritura chama o anjo caído de Diabo, Satanás e «serpente antiga» (Ap 12,9).

Em resumo

  • O que significa: «portador de luz», o nome latino da estrela da manhã (o planeta Vênus).
  • Onde aparece: Is 14,12 na Vulgata, num oráculo contra o rei da Babilônia.
  • Por que virou nome do diabo: os Padres, como Orígenes, aplicaram a imagem de soberba e queda ao anjo rebelde.
  • Os nomes que a Bíblia dá: Diabo, Satanás, «serpente antiga», «príncipe deste mundo».
  • Uma surpresa: a liturgia da Páscoa chama Cristo de «lucifer», a estrela da manhã que não se põe.

O que diz Isaías 14

O capítulo 14 de Isaías é uma sátira fúnebre contra o rei da Babilônia (Is 14,4). No versículo 12, o profeta zomba do tirano que se queria igual a Deus:

«Como caíste dos céus, Helel, filho da aurora! Foste abatido por terra, tu que subjugavas as nações» (Is 14,12).

Helel significa «o brilhante», a estrela da manhã. São Jerônimo, ao traduzir a Bíblia para o latim, usou o nome latino desse astro, lucifer, de lux (luz) e ferre (levar): «Quomodo cecidisti de caelo, lucifer, fili aurorae?» (Is 14,12, Vulgata).

No sentido literal, portanto, o texto fala da queda de um rei humano que se encheu de orgulho: «Subirei ao céu […] serei semelhante ao Altíssimo» (Is 14,13-14).

Como «Lúcifer» passou a ser o nome do diabo

Os Padres da Igreja, lendo a Escritura em profundidade, reconheceram nesse padrão de soberba e queda a marca do primeiro soberbo. Orígenes, no século III, aplica o texto ao poder adverso que caiu do céu (De principiis I,5,5). A leitura apoiava-se em palavras do próprio Cristo: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago» (Lc 10,18).

Outro texto lido do mesmo modo é Ezequiel 28, contra o rei de Tiro, que estava «no Éden, jardim de Deus» e era um «querubim» (Ez 28,13-14). Também aqui o sentido literal fala de um rei, e a aplicação ao diabo é uma leitura espiritual. Veja Querubim: o que a Bíblia diz.

Essa aplicação é legítima como leitura espiritual, mas é bom saber o que o texto diz e o que não diz. A Bíblia não conta a queda dos anjos em Isaías 14. Quem a afirma são outros textos: 2 Pedro 2,4, Judas 6 e Apocalipse 12,7-9. Veja Anjos caídos: quem são e o que a Bíblia diz.

Os nomes que a Bíblia dá ao anjo caído

A Escritura usa vários nomes e títulos:

  • Satanás, do hebraico satan, «o adversário» (Jó 1,6; Mt 4,10). Veja O que é Satanás na Bíblia.
  • Diabo, do grego diábolos, «o que divide» ou «o caluniador» (Mt 4,1).
  • A «serpente antiga», ligando o Apocalipse ao Gênesis: «o grande Dragão, a antiga Serpente, chamado Diabo e Satanás» (Ap 12,9).
  • O «príncipe deste mundo» (Jo 12,31; 14,30).
  • Belzebu, nome com que os adversários de Jesus chamavam o chefe dos demônios (Mc 3,22).

O que a Igreja ensina

A Igreja não ensina nada sobre o nome «Lúcifer». Ensina o essencial:

  • Foi criado bom. O IV Concílio de Latrão definiu que «o diabo e os outros demônios foram criados por Deus bons por natureza, mas tornaram-se maus por si mesmos» (DS 800).
  • A queda foi uma escolha livre e irrevogável. «A queda consiste na livre opção destes espíritos criados, que radical e irrevogavelmente recusaram Deus e o seu Reino» (Catecismo, n. 392).
  • O seu poder é limitado. «O poder de Satanás não é infinito. Satanás é uma simples criatura […] impotente para impedir a edificação do Reino de Deus» (Catecismo, n. 395).

Para o estudo completo, veja Demonologia católica.

Cristo, a verdadeira estrela da manhã

Há um detalhe que surpreende: na Bíblia e na liturgia, a palavra lucifer também é usada para Cristo.

  • Na Vulgata, São Pedro fala da palavra profética que brilha «até que o dia amanheça e a estrela da manhã (lucifer) se levante nos vossos corações» (2Pd 1,19).
  • No Apocalipse, Jesus diz de si mesmo: «Eu sou […] a brilhante estrela da manhã» (Ap 22,16).
  • No Exsultet, o anúncio da Páscoa cantado na Vigília Pascal, a Igreja reza para que a estrela da manhã encontre acesa a chama do círio: «ille, inquam, lucifer, qui nescit occasum: Christus Filius tuus», «aquela estrela da manhã que não conhece ocaso: Cristo, vosso Filho».

A falsa luz caiu por orgulho. A verdadeira luz, Cristo, desceu por amor e não conhece ocaso.

Perguntas frequentes

Lúcifer é um nome bíblico?

Só na tradução latina. «Lucifer» é a palavra com que a Vulgata traduziu «Helel, filho da aurora», a estrela da manhã, em Isaías 14,12, num oráculo contra o rei da Babilônia. A Bíblia hebraica não dá esse nome ao diabo; chama-o de Satanás, Diabo e serpente antiga.

Lúcifer e Satanás são a mesma pessoa?

Na linguagem comum, sim: a tradição cristã passou a chamar de Lúcifer o anjo que caiu, e a Bíblia o chama de Satanás e Diabo. Não há na Escritura um «Lúcifer» diferente de Satanás.

Lúcifer era o anjo mais bonito do céu?

Essa ideia vem da leitura espiritual de Isaías 14 e Ezequiel 28, e não de um texto bíblico sobre anjos. A fé afirma que ele foi criado bom e que caiu por uma escolha livre, sem descrever a sua posição no céu.

O que significa Lúcifer?

«Portador de luz», de lux (luz) e ferre (levar). Em latim, era o nome comum da estrela da manhã, o planeta Vênus.

Por que a Igreja chama Cristo de «lucifer» na Páscoa?

Porque Cristo é a verdadeira «estrela da manhã» (Ap 22,16; 2Pd 1,19). No Exsultet da Vigília Pascal, a Igreja canta Cristo como «a estrela da manhã que não conhece ocaso».

Onde a Bíblia fala da queda de Lúcifer?

O nome aparece em Isaías 14,12, que fala literalmente de um rei. A queda dos anjos é afirmada em 2 Pedro 2,4, Judas 6 e Apocalipse 12,7-9, e Jesus diz: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago» (Lc 10,18).

Referências

  • BÍBLIA SAGRADA: Is 14,4-15; Ez 28,12-17; Lc 10,18; Jo 12,31; 2Pd 1,19; 2Pd 2,4; Jd 6; Ap 12,7-9; Ap 22,16.
  • BIBLIA SACRA IUXTA VULGATAM VERSIONEM: Is 14,12; 2Pd 1,19.
  • CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 391-395.
  • IV CONCÍLIO DE LATRÃO (1215), cap. 1 (DS 800).
  • MISSAL ROMANO. Vigília Pascal, Praeconium paschale (Exsultet).
  • ORÍGENES. De principiis I,5,5.
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