Paulo VI – credo do povo de Deus (30 de junho 1968): os anjos, como puros espíritos, e o reino do demónio
O Credo do Povo de Deus (Solemnis Professio Fidei) de Paulo VI, proclamado em 30 junho 1968 no encerramento do Ano da Fé, é a profissão de fé pessoal mais solene de um Papa nos tempos modernos. Contém afirmações claras sobre angeologia e demonologia, em momento de grande crise teológica pós-conciliar.
| Papa | Beato Paulo VI |
| Documento | Solemnis Professio Fidei (Credo do Povo de Deus) |
| Data | 30 junho 1968 (festa de São Pedro e São Paulo, encerramento do Ano da Fé) |
| Local | Praça São Pedro, Roma |
| Fonte | AAS 60 (1968) 433-445 |
Contexto histórico
O Ano da Fé (29 junho 1967, 30 junho 1968) tinha sido proclamado por Paulo VI por ocasião do 1900 aniversário do martírio dos Apóstolos São Pedro e São Paulo. No final desse ano, durante uma fase de profunda crise teológica pós-conciliar (questionamento de dogmas, modernismo neo-teológico, dissensão com Humanae Vitae), o Papa quis fazer uma profissão de fé pessoal e pública que reafirmasse os pilares essenciais do catolicismo.
Texto latino, sobre os anjos
Creemos em um só Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, Criador das coisas visíveis, como este mundo no qual levamos uma vida transitória, mas também das invisíveis, tais como os espíritos puros, aos quais chamamos de Anjos, e igualmente Criador na alma espiritual e imortal de cada homem.
Tradução portuguesa, sobre os anjos
Cremos num só Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, Criador das coisas visíveis, como é este mundo, no qual passamos a vida transitória, e também das invisíveis, como são os puros espíritos, que também chamamos Anjos, e Criador igualmente em cada homem da alma espiritual e imortal.
Texto latino, sobre o diabo e o pecado original
Credemos que os nossos primeiros pais Adão e Eva foram constituídos no estado de santidade e justiça originais… Estes, porém, aos quais o pai Adão desobedeceu pelo pecado, que de si mesmo transmitiu à sua progénie, como devia transmitir a natureza humana ao género humano, privada daquela santidade e justiça com a qual Deus a tinha criado, por aquela culpa originária foram feitos cativos das trevas, que agora reinam tanto pelo demónio (que pelo seu pecado se afastou de Deus) sobre a sua vontade. Assim, as almas humanas, concebidas na culpa original, estão em estado de morte espiritual…
Tradução portuguesa
Cremos que os nossos primeiros pais Adão e Eva foram constituídos no estado de santidade e justiça originais… Estes, porém, aos quais o pai Adão desobedeceu pelo pecado, que de si mesmo transmitiu à sua progénie, como devia transmitir a natureza humana ao género humano, privada daquela santidade e justiça com a qual Deus a tinha criado, por aquela culpa originária foram feitos cativos das trevas, que agora reinam tanto pelo demónio (que pelo seu pecado se afastou de Deus) sobre a sua vontade. Assim, as almas humanas, concebidas na culpa original, estão em estado de morte espiritual…
As três afirmações magnas
- Os anjos existem como puros espíritos: «Invisibilium quoque, ut sunt puri Spiritus, quos etiam Angelos vocamus»
- Os anjos são criaturas: Deus é o «Creatore rerum visibilium et invisibilium»
- O Diabo é ser pessoal real: «Captivos esse factos a tenebris, quae nunc et a daemone… regnant»
O «Credo» como resposta magisterial
Paulo VI tinha consciência de que muitos teólogos contemporâneos estavam a:
- Reduzir os anjos a «símbolos» ou «metáforas»
- Negar a existência pessoal do Diabo
- Reinterpretar o pecado original como «pecado social»
- Eliminar elementos «sobrenaturais» da fé
O Credo do Povo de Deus é a sua resposta clara: cada um destes pontos, longe de ser «mitologia», pertence ao depósito da fé revelado e definido pelo Magistério.
O diabo e o pecado original
Particularmente importante é a articulação entre o Diabo e o pecado original. Paulo VI afirma:
- O pecado original foi causa do «cativeiro das trevas»
- Este cativeiro tem acção do «demónio», que «pelo seu pecado se afastou de Deus»
- O demónio reina sobre a vontade humana caída
- Só o Baptismo liberta deste cativeiro
Esta articulação retoma a soteriologia patrística (São Atanásio, São João Crisóstomo), que vê a Cruz como vitória de Cristo sobre o Maligno (Christus Victor).
Estrutura geral do credo
O Credo do Povo de Deus tem 30 parágrafos cobrindo:
- Trindade (parágrafos 1-9)
- Encarnação e Redenção (parágrafos 10-13)
- Igreja (parágrafos 14-22)
- Eucaristia (parágrafos 23-26)
- Sacramentos e Vida Eterna (parágrafos 27-30)
As afirmações sobre anjos estão no início (parágrafo 8 sobre criação); sobre o Diabo vem no contexto do pecado original (parágrafos 11-12).
Herança doutrinal
O Credo do Povo de Deus foi a base directa para:
- O Documento da CDF Fede e Demonologia (1975)
- O Discurso de Paulo VI sobre o Diabo (15 novembro 1972)
- As Catequeses de João Paulo II (1986)
- O Catecismo da Igreja Católica (1992)
Leitura complementar
IV Concílio de Latrão 1215 | Florença, Cantate Domino 1442 | Paulo VI Confronto col Diavolo 1972 | CCC sobre Anjos e Demónios
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