Graça em grego, χάρις (charis), κεχαριτωμένη (kecharitôménē) e a teologia da graça
Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
A palavra grega para “Graça”
A palavra grega para “graça” é χάρις (charis), um substantivo feminino da terceira declinação, que deriva do verbo chairō (“alegrar-se”). No Novo Testamento grego, charis aparece 155 vezes, com significados que incluem: graça divina, favor gratuito, gratidão e beleza. A tradução latina consagrada é gratia, que a Vulgata de Jerónimo usa sistematicamente para traduzir charis nas epístolas paulinas e nos escritos joânicos. A etimologia revela a estrutura teológica: a graça (charis) é o dom gratuito que gera alegria (chara) no recipiente.
Charis em Paulo: a graça como dom gratuito
Paulo de Tarso é o teólogo da charis por excelência. Em Rm 3,24, afirma: “justificados gratuitamente pela sua graça (dōrean tē autou chariti) pela redenção em Cristo Jesus”. A graça paulina é: (1) gratuita, não merecida. (2) eficaz, transforma o pecador. (3) universal, oferecida a todos. Em Ef 2,8: “É pela graça que fostes salvos, mediante a fé. E isso não vem de vós, é dom de Deus”. A grande expressão kecharitōménē de Lc 1,28 está intimamente ligada a esta tradição: Maria é a que recebeu a graça de modo plenamente permanente.
Kecharitōménē: a graça de Maria
A forma verbal kecharitōménē (κεχαριτωμένη) em Lc 1,28 é um particípio perfeito passivo de charitoō, verbo derivado de charis. O perfeito grego indica uma ação passada cujos efeitos perduram no presente: Maria não apenas “recebeu graça” (como se fosse um ato pontual), mas está no estado de ter sido plenamente agraciada, e esse estado é permanente. Como nota o exegeta jesuíta Ignace de la Potterie, o verbo charitoō aparece só duas vezes no NT, em formas diferentes: kecharitōménē em Lc 1,28, dito de Maria, e echaritōsen em Ef 1,6, dito dos fiéis («nos agraciou»). A forma kecharitōménē só aparece em Lc 1,28. E o anjo não chama Maria pelo nome: dirige-se a ela com kecharitōménē, como se fosse um título.
Charis vs karis: nota ortográfica
Em buscas frequentes em português, aparece “karis” (com k) em vez de “charis” (com ch). Ambas as grafias referem-se à mesma palavra grega χάρις. O sistema de transliteração científica usa “ch” (charis), que reproduz a letra grega chi (χ). O “k” representa uma simplificação fonética, já que o chi grego se pronuncia como um “c” aspirado em grego clássico, mas como “h” ou “j” em grego moderno. Para estudos acadêmicos, a forma correta é charis.
Charis na tradição patrística
Os Padres da Igreja notaram cedo a singularidade da saudação de Lc 1,28. Orígenes, no século III, nas homilias sobre Lucas que chegaram até nós na tradução latina de São Jerônimo, diz: «Quia vero angelus novo sermone Mariam salutavit, quem in omni Scriptura invenire non potui […]. Soli Mariae haec salutatio servabatur», «o anjo saudou Maria com uma palavra nova, que não pude encontrar em toda a Escritura […]. Esta saudação estava reservada só a Maria» (Orígenes, Homiliae in Lucam 6,7, SC 87, 148). Clemente de Alexandria liga a graça à iluminação do batismo: «Μία χάρις αὕτη τοῦ φωτίσματος, τὸ μὴ τὸν αὐτὸν εἶναι τῷ πρὶν ἢ λούσασθαι τὸν τρόπον», «uma só é esta graça da iluminação: que o modo de vida já não seja o mesmo de antes do banho» (Clemente de Alexandria, Paedagogus I, PG 8, 285). E São João Damasceno, no século VIII, joga com χάρις e χαρά numa homilia sobre a Natividade de Maria: «Χαῖρε, κεχαριτωμένη, τὸ πάσης χαρᾶς χαριέστερον καὶ πρᾶγμα καὶ ὄνομα», «Alegra-te, agraciada, realidade e nome mais graciosos do que toda a alegria» (João Damasceno, Homilia II in Nativitatem B. V. Mariae, PG 96, 696). Muitos teólogos viram depois em κεχαριτωμένη um apoio bíblico para a Imaculada Conceição, definida em 1854.
Gratia plena: a tradução da Vulgata
A tradução de Jerónimo, “gratia plena” (cheia de graça), foi a mais influente na liturgia e na teologia ocidental. A Ave-Maria em latim usa “gratia plena“. Esta tradução capta o sentido de plenitude, mas perde a dimensão temporal do perfeito grego. Uma tradução mais literal seria “tu que foste e és agraciada em plenitude”. O debate sobre a melhor tradução de kecharitōménē foi um dos mais ricos da exegese do séc. XX, com contributos de Max Zerwick, René Laurentin e Ignace de la Potterie.
Para o vocabulário hebraico da graça (ḥen, ḥesed) e a teologia bíblica, com o grego de Jo 1,16-17, Ef 1,6 e o comentário de Santo Agostinho, veja o conceito de graça na Sagrada Escritura.
Referências
CLEMENTE DE ALEXANDRIA. Paedagogus I. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Graeca. Paris: J.-P. Migne, [1857-1866]. v. 8, col. 285.
JOÃO DAMASCENO. Homilia II in Nativitatem B. V. Mariae. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Graeca. Paris: J.-P. Migne, [1857-1866]. v. 96, col. 696.
ORÍGENES. Homélies sur S. Luc (Homiliae in Lucam 6,7). Texto latino e fragmentos gregos. Introdução, tradução e notas de Henri Crouzel, François Fournier e Pierre Périchon. Paris: Cerf, 1962. (Sources Chrétiennes, 87). p. 148.
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