São Miguel Arcanjo no Magistério e na devoção: textos de Daniel a Francisco

São Miguel Arcanjo no Magistério e na devoção

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In tempore autem illo consurget Michael princeps magnus, qui stat pro filiis populi tui.
«Naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, que está de pé em favor dos filhos do teu povo» (Dn 12,1, Vulgata)

São Miguel é nomeado em poucas linhas da Escritura, e sobre elas a Igreja construiu a sua oração e o seu título de «príncipe da milícia celeste». Do nome aos textos de Leão XIII e de Francisco, o caminho passa por cinco versículos, por um título litúrgico e por datas que a tradição guarda com graus diferentes de certeza.

O nome e a pergunta

Miguel é, em hebraico, Mîkhāʼēl, «Quem como Deus?», em latim Quis ut Deus?. O Papa Francisco tirou daí a consequência. O nome, disse, significa Chi è come Dio?, «Quem é como Deus?», e Michele […] è il campione del primato di Dio, della sua trascendenza e potenza, «Miguel […] é o campeão do primado de Deus, da sua transcendência e do seu poder» (FRANCISCO, 2013, p. 631). O nome é uma pergunta cuja resposta é a adoração. O perfil geral do arcanjo, a Bíblia e a festa de 29 de setembro estão em São Miguel Arcanjo, e Miguel em Daniel e no Apocalipse, em Miguel arcanjo, príncipe dos exércitos celestes.

Cinco versículos, três livros

Contando só o arcanjo, a Vulgata nomeia Miguel cinco vezes, em três livros: três em Daniel, uma em Judas e uma no Apocalipse. Gabriel aparece quatro vezes, e Rafael oito, estas todas em Tobias (contagem sobre o texto latino da BÍBLIA, Vulgata). Miguel não é, portanto, o anjo mais citado da Escritura. O que o distingue é o papel que os textos lhe dão, o de quem defende.

Dn 10,13.21. Et ecce Michael unus de principibus primis venit in adiutorium meum, «e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio em meu auxílio» (Dn 10,13, Vulgata). E adiante: nemo est adiutor meus in omnibus his, nisi Michael princeps vester, «ninguém é meu auxiliar em tudo isso, senão Miguel, vosso príncipe» (Dn 10,21, Vulgata).

Dn 12,1. Consurget Michael princeps magnus, qui stat pro filiis populi tui, «se levantará Miguel, o grande príncipe, que está de pé em favor dos filhos do teu povo» (Dn 12,1, Vulgata). O verbo stat descreve o gesto de quem se põe de pé para defender os seus.

Jd 9. Ὁ δὲ Μιχαὴλ ὁ ἀρχάγγελος, ὅτε τῷ διαβόλῳ διακρινόμενος διελέγετο περὶ τοῦ Μωϋσέως σώματος, οὐκ ἐτόλμησεν κρίσιν ἐπενεγκεῖν βλασφημίας ἀλλ᾽ εἶπεν, ἐπιτιμήσαι σοι κύριος, «Miguel, o arcanjo, quando disputava com o diabo, discutindo sobre o corpo de Moisés, não ousou lançar contra ele um juízo injurioso, mas disse: Que o Senhor te repreenda» (Jd 9, NOVUM TESTAMENTUM GRAECE, 2012, p. 731-732). A Vulgata traz imperet tibi Dominus, «que o Senhor te dê ordens». Miguel não sentencia por conta própria e remete a repreensão a Deus.

Ap 12,7. Καὶ ἐγένετο πόλεμος ἐν τῷ οὐρανῷ, ὁ Μιχαὴλ καὶ οἱ ἄγγελοι αὐτοῦ τοῦ πολεμῆσαι μετὰ τοῦ δράκοντος, «E houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos, para combater contra o dragão» (Ap 12,7, NOVUM TESTAMENTUM GRAECE, 2012, p. 761). O grego diz πόλεμος, «guerra», e a Vulgata proelium, «combate»: factum est proelium in caelo Michahel et angeli eius proeliabantur cum dracone, «houve combate no céu, Miguel e os seus anjos combatiam contra o dragão». O nome de Miguel consta só do versículo 7. O versículo 9 narra a queda do dragão sem repetir o nome de Miguel.

O título «príncipe da milícia celeste»

O título reúne o «príncipe» de Daniel e o combate do Apocalipse. O Ritual dos exorcismos (De exorcismis et supplicationibus quibusdam, 1999, edição emendada de 2004) traz, entre as preces privadas, uma Invocatio ad sanctum Michaelem Archangelum, que o chama assim: Tuque, Princeps militiae caelestis, Satanam aliosque spiritus malignos […] divina virtute in infernum detrude, «e tu, príncipe da milícia celeste, lança no inferno, pelo poder divino, Satanás e os outros espíritos malignos» (DE EXORCISMIS, 2004, p. 83).

Suárez recolhe do ofício litúrgico dos anjos os títulos principem coelestis exercitus, «príncipe do exército celeste», Principem militiae Angelorum, «príncipe da milícia dos anjos», e Archangelus Michael Praepositus Paradisi, «o arcanjo Miguel, prepósito do paraíso» (SUÁREZ, [s. d.], lib. VI, c. 10, n. 23). Lonergan, ao comentar as Similitudes VIII e IX do Pastor de Hermas, escreve o título em latim e em grego, princeps militiae caelestis (ἀρχιστράτηγος) (LONERGAN, 2009, p. 60).

O Magistério: de Leão XIII a Francisco

Leão XIII, 1884. Na encíclica Humanum genus, datada de 20 de abril de 1884, o Papa invoca Maria, quae a conceptu ipso Satanam vicit, «que desde a própria concepção venceu Satanás», e logo depois os santos protetores: Obtestemur principem Angelorum caelestium, depulsorem hostium infernorum, MICHAELEM, «peçamos a intercessão do príncipe dos anjos celestes, expulsor dos inimigos infernais, Miguel». Com ele são invocados José, Ecclesiae catholicae patronum caelestem salutarem, «padroeiro celeste e salutar da Igreja católica», e os apóstolos Pedro e Paulo (LEÃO XIII, 1884, p. 432). É uma invocação, e não um tratado sobre os anjos.

Leão XIII, 1893. Um rescrito da Sagrada Congregação das Indulgências, concedido pelo Papa em audiência de 19 de agosto de 1893, a pedido do P. Laprost, superior da abadia de Pontigny, deu cem dias de indulgência, uma vez por dia, aos fiéis que, de coração contrito e com devoção, recitassem a antífona Sancte Michael Archangele, defende nos in praelio, ut non pereamus in tremendo iudicio, «São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, para que não pereçamos no tremendo juízo» (SAGRADA CONGREGAÇÃO DAS INDULGÊNCIAS E RELÍQUIAS, 1893, p. 183). Essa antífona não é a oração mais conhecida de São Miguel, estudada com o seu texto latino em A oração a São Miguel de Leão XIII.

Catecismo. A Igreja, na sua liturgia, «festeja de modo mais particular a memória de certos anjos (São Miguel, São Gabriel, São Rafael e os Anjos da Guarda)» (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 335). Ver Os anjos e os demônios no Catecismo.

João Paulo II, 1987. Em 24 de maio de 1987, o Papa visitou o santuário de Monte Sant’Angelo, no Gargano. Segundo Amato, disse: Questa lotta contro il demonio, che contraddistingue la figura dell’arcangelo Michele, è attuale anche oggi, perché il demonio è tuttora vivo e operante nel mondo, «esta luta contra o demônio, que caracteriza a figura do arcanjo Miguel, é atual ainda hoje, porque o demônio continua vivo e operante no mundo» (JOÃO PAULO II, 1987 apud AMATO, 2011, p. 354).

Francisco, 2013. Os Acta Apostolicae Sedis trazem, sob o título Occasione consecrationis Status Civitatis Vaticanae Sanctis Ioseph et Michaëli Archangelo, o discurso por ocasião da consagração do Estado da Cidade do Vaticano a São José e a São Miguel Arcanjo, com a nota Die 4 Iulii 2013 (FRANCISCO, 2013, p. 630). O Papa inaugurou um monumento a São Miguel nos Jardins do Vaticano, com a presença de Bento XVI, e disse da escultura: Questa scultura ci richiama allora che il male è vinto, l’accusatore è smascherato, la sua testa schiacciata, perché la salvezza si è compiuta una volta per sempre nel sangue di Cristo, «esta escultura nos recorda, então, que o mal é vencido, o acusador é desmascarado, a sua cabeça esmagada, porque a salvação se realizou de uma vez para sempre no sangue de Cristo» (FRANCISCO, 2013, p. 631).

A devoção e as suas datas

Gargano. As datas da lenda e as da história não coincidem. Segundo a lenda, a primeira aparição ocorreu em 490 (SCHALLER, 2006, p. 122), e a Legenda Áurea a situa já em 390 (SCHALLER, 2006, p. 123). A Apparitio, na edição dos Monumenta Germaniae Historica, data a vitória de Siponto em 492 e a dedicação da gruta em 493 (SCHALLER, 2006, p. 124 e 126). O historiador Giorgio Otranto conclui que o santuário provavelmente surgiu na primeira metade do século V, e os restos mais antigos de um edifício de igreja em Monte Sant’Angelo são datados do início do século VI (SCHALLER, 2006, p. 123).

Mont-Saint-Michel. A crônica anexada a Roberto de Torigni anota, sob o ano 708: Facta est revelatio B. Michaelis in Monte Tumba sub Childeberto rege Francorum, et Autberto episcopo Abrincensi, «fez-se a revelação do bem-aventurado Miguel no Monte Tumba, sob Childeberto, rei dos francos, e Autberto, bispo de Avranches» (MIGNE, 1855, col. 1321). É a data que a tradição guarda. A lenda de fundação do santuário, conservada nos Acta Sanctorum e na Patrologia Latina (t. 96, col. 1387-1394), foi redigida no século IX ou na primeira metade do X (SCHALLER, 2006, p. 134).

Mogúncia, 813. A festa de São Miguel já aparecia em 799, no capitular dos sínodos bávaros de Reisbach, Freising e Salzburgo, mas só no concílio de Mogúncia, em 813, a dedicatio sancti Michahelis, «dedicação de São Miguel», entrou no calendário oficial do Império, em 29 de setembro (SCHALLER, 2006, p. 158). A história da festa está em A origem da festa dos santos Arcanjos, e o que o sínodo romano de 745 reconheceu quanto aos nomes dos anjos, em O concílio romano de 745 e Aldeberto e em Os nomes dos anjos.

O escapulário. Os Acta Sanctae Sedis de 1882 registram a Approbatio Scapularis in honorem s. Michaelis Archangeli pro Sodalitio de Urbe: resposta da Sagrada Congregação dos Ritos em 28 de março e aprovação de Leão XIII em 20 de abril de 1882, para a Pia União de São Miguel Arcanjo de Roma. O fim declarado é ut sub tanti Ducis vexillo militantes victoriam de hoste maligno consequi mereantur, «para que os que militam sob o estandarte de tão grande Chefe mereçam alcançar a vitória sobre o inimigo maligno» (SAGRADA CONGREGAÇÃO DOS RITOS, 1882, p. 286).

A Coroa angélica. A antologia de Vincent Klee reproduz, das Analecta juris pontificii (Roma, 1860), um texto que descreve um Pai-Nosso e três Ave-Marias a cada um dos nove coros angélicos, e quatro Pai-Nossos finais, em honra de Miguel, Gabriel, Rafael e do anjo da guarda. Diz que a devoção foi revelada, dit-on, «dizem», a uma religiosa portuguesa chamada Antônia d’Astonac (KLEE, 1984, p. 140-143). O texto não indica o século nem a ordem religiosa de Antônia d’Astonac.

Perguntas frequentes

Que papas invocaram São Miguel? Leão XIII o invocou na encíclica Humanum genus, de 1884, como «príncipe dos anjos celestes, expulsor dos inimigos infernais». João Paulo II, no santuário do Gargano, em 1987, disse que a luta de Miguel contra o demônio é atual ainda hoje. Francisco consagrou a ele e a São José o Estado da Cidade do Vaticano, em 2013.

Quantas vezes Miguel é nomeado na Bíblia? Na Vulgata, o arcanjo é nomeado cinco vezes, em três livros: Dn 10,13, Dn 10,21, Dn 12,1, Jd 9 e Ap 12,7. Rafael é nomeado oito vezes, em Tobias, e Gabriel quatro.

O que significa «príncipe da milícia celeste»? É o título latino Princeps militiae caelestis, que o Ritual dos exorcismos (1999, edição emendada de 2004) dá a Miguel numa invocação, e que Lonergan escreve também em grego, ἀρχιστράτηγος. Junta o «grande príncipe» de Daniel e o combate de Ap 12,7.

Quando começou o culto a São Miguel no Gargano e no Mont-Saint-Michel? As datas divergem. Para o Gargano, a lenda põe a primeira aparição em 490 e a Legenda Áurea em 390, e a Apparitio data a vitória de Siponto em 492 e a dedicação da gruta em 493. O historiador Giorgio Otranto conclui que o santuário provavelmente surgiu na primeira metade do século V. Para o Mont-Saint-Michel, a tradição fala de 708, registrada numa crônica medieval, e a lenda de fundação foi redigida no século IX ou na primeira metade do X.

Referências

AMATO, Angelo. Maria la Theotokos: conoscenza ed esperienza. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2011. (Itineraria). p. 354.

BÍBLIA. Latim. Vulgata. The Holy Bible: Vulgate translation. [S. l.: s. n.], 2003. Transcrição eletrônica. Daniel segundo HETZENAUER, Michael (ed.). Biblia Sacra Vulgatae editionis. Neo Eboraci et Cincinnati: Pustet, 1914. Dn 10,13.21 e 12,1, p. 751-752. Jd 9, p. 1012. Ap 12,7-9, p. 1018.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Texto em português de Portugal. n. 334-336.

DE EXORCISMIS ET SUPPLICATIONIBUS QUIBUSDAM. Editio typica emendata. Città del Vaticano: Typis Vaticanis, 2004. Reimpressão de 2005. (Rituale Romanum). p. 83.

FRANCISCO, Papa. Occasione consecrationis Status Civitatis Vaticanae Sanctis Ioseph et Michaëli Archangelo, 4 jul. 2013. Acta Apostolicae Sedis: commentarium officiale, Città del Vaticano, v. 105, n. 7, p. 630-631, 5 jul. 2013.

KLEE, Vincent. Les plus beaux textes sur les saints anges. Paris: Nouvelles Éditions Latines, 1984. (Collection Angelologia, 1). p. 140-143.

LEÃO XIII, Papa. Humanum genus, 20 abr. 1884. Acta Sanctae Sedis, Romae: Ex Typographia Polyglotta S. C. de Propaganda Fide, v. 16, p. 432-433, 1883-1884.

LONERGAN, Bernard. The Triune God: doctrines. Tradução de Michael G. Shields. Edição de Robert M. Doran e H. Daniel Monsour. Toronto: University of Toronto Press, 2009. (Collected Works of Bernard Lonergan, 11). p. 60.

MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologiae cursus completus: series Latina. Paris, t. 202, 1855. Appendix ad Robertum de Torinneio, Chronicon S. Michaelis in periculo maris, col. 1321.

NOVUM TESTAMENTUM GRAECE. 28. ed. Institute for New Testament Textual Research, 2012. p. 731-732 e 761.

SAGRADA CONGREGAÇÃO DAS INDULGÊNCIAS E RELÍQUIAS. Rescriptum quo conceditur indulgentia centum dierum recitantibus antiphonam Sancte Michael, 19 ago. 1893. Acta Sanctae Sedis, Romae: S. C. de Propaganda Fide, v. 26, p. 183, 1893-1894.

SAGRADA CONGREGAÇÃO DOS RITOS. Approbatio Scapularis in honorem s. Michaelis Archangeli pro Sodalitio de Urbe, 28 mar. 1882. Acta Sanctae Sedis, Romae: Ex Typographia Polyglotta S. C. de Propaganda Fide, v. 15, p. 286, 1882. Editio stereotypa, 1898.

SCHALLER, Andrea. Der Erzengel Michael im frühen Mittelalter: Ikonographie und Verehrung. Bern: Peter Lang, 2006. (Vestigia Bibliae, 27/28). p. 122-134 e 158.

SUÁREZ, Francisco. De Angelis. [S. l.: s. n., s. d.]. lib. VI, c. 10, n. 22-24, p. 690-691.

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