Nossa Senhora de coromoto, mãe da venezuela

Nossa Senhora de coromoto, mãe da venezuela

«Posui te in lucem gentium, ut sis in salutem usque ad extremum terrae» (At 13,47 / Is 49,6), «Pus-te como luz das nações, para que sejas salvação até aos confins da terra»

I. Luz das nações: a missão universal anunciada por Isaías e cumprida nos actos

O capítulo treze dos Actos dos Apóstolos apresenta o momento decisivo em que Paulo e Barnabé, perante a recusa dos judeus de Antioquia da Pisídia em aceitar o Evangelho, voltam-se de modo programático para os pagãos: “A vós era preciso anunciar primeiro a palavra de Deus. Mas como a rejeitais e julgais a vós mesmos indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os pagãos. Foi este o mandamento que o Senhor nos deu: Estabeleci-te como luz das nações, para seres salvação até aos confins da terra” (At 13,46-47). Esta citação que Paulo faz de Isaías (cf. Is 49,6) é o pilar bíblico de toda a missiologia cristã. A salvação não está reservada a um povo escolhido por critérios étnicos: está aberta a todos os povos, a todas as línguas, a todas as culturas, até aos “confins da terra”. E a história da Igreja, no seu desdobramento de dois mil anos, é a verificação progressiva desta promessa. Quando, em 1652, no coração da floresta tropical do que viria a ser a Venezuela, uma Senhora misteriosa se manifestou ao cacique de uma pequena tribo indígena chamado Coromoto, estava a cumprir-se mais um capítulo daquela mesma promessa: a luz das nações estava a chegar aos confins da terra, transportada não por exércitos coloniais nem por decretos imperiais, mas pela maternidade silenciosa de Maria.

II. Coromoto, 1652: a Senhora junto ao rio tucupido e o cacique resistente

A oito de Setembro de 1652, festa litúrgica da Natividade da Virgem Maria, no rio Tucupido, na actual região de Guanare, no estado venezuelano de Portuguesa, o cacique Coromoto da tribo Cospes regressava da pesca com a sua mulher quando viu, na margem oposta, uma “Senhora muito bela” envolvida em luz, segurando uma criança nos braços. A Senhora atravessou as águas caminhando sobre elas e disse ao cacique, em sua própria língua, palavras que ele compreendeu: “Vai à casa dos brancos e pede que te derramem água sobre a cabeça, para que possas ir ao céu.” A Senhora desapareceu. O cacique consultou os missionários espanhóis que catequizavam a região, soube que a Senhora pedia o batismo, mas resistiu por orgulho e por temor de perder a autoridade tribal. A Senhora reapareceu mais tarde, no oratório do cacique. Coromoto, irritado, tentou agredir a aparição, mas ela desapareceu deixando nas suas mãos uma pequena imagem, talhada em material desconhecido, com cerca de vinte e dois milímetros por vinte e sete, representando Maria com o Menino. Na fuga subsequente, o cacique foi mordido por uma serpente venenosa. Antes de morrer, pediu o batismo, que recebeu de um padre missionário. A pequena imagem foi guardada e em torno dela cresceu, ao longo dos séculos seguintes, o santuário nacional venezuelano. O Papa Pio XII coroou-a canonicamente em 1942 e proclamou Nossa Senhora de Coromoto Padroeira da Venezuela em 1944. O Papa João Paulo II visitou Coromoto em 1985 e novamente em 1996. O Papa Bento XVI, em 2011, conferiu-lhe a designação que sintetiza a sua missão: “Mãe da Venezuela”.

III. O tesouro escondido no campo: a parábola que ilumina coromoto

O Evangelho de Mateus que acompanha esta celebração apresenta duas das parábolas mais densas do Reino: “O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem encontrou e tornou a esconder. Cheio de alegria, vai vender tudo o que tem e compra aquele campo. Igualmente o Reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas finas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vai vender tudo o que possui e compra-a” (Mt 13,44-46). Estas duas parábolas iluminam Coromoto com uma luz singular. A pequena imagem deixada nas mãos do cacique era literalmente um tesouro escondido no campo: uma manifestação minúscula e preciosa do amor de Deus, encontrada em circunstâncias humildes e revelada gradualmente. E o cacique Coromoto, antes da sua conversão final, comportou-se como o homem que encontra o tesouro mas hesita em vender tudo para o adquirir. A sua história é, neste sentido, paradigmática da resistência humana à graça: ver o tesouro mas relutar em pagar o preço da conversão. Só na proximidade da morte, com a serpente que o feriu, Coromoto compreendeu que o que se ganha pela conversão é incomparavelmente superior ao que se perde por ela. A Mãe não desistiu dele. A pequena imagem ficou nas suas mãos como sinal de que o tesouro continuava disponível, à espera de ser plenamente acolhido.

IV. Coromoto e a mariologia das nações originárias da américa

A história mariana das aparições americanas tem uma constante teológica notável: Maria escolhe revelar-se preferencialmente aos povos originários do continente, antes ou em paralelo aos colonizadores europeus. Guadalupe foi para Juan Diego em 1531, índio nahua. Caacupé foi para José, índio guarani. Aparecida emergiu das águas para três pescadores pobres, mestiços. E Coromoto foi para o cacique de uma tribo indígena no coração da floresta venezuelana. Esta constante não é coincidência cultural: é uma escolha teológica que se manifesta de modo recorrente. Maria, no continente americano, identifica-se preferencialmente com os povos originários, com os despossuídos, com os que a evangelização europeia não tinha ainda atingido ou tinha atingido com a violência da conquista. Esta opção mariana antecipa em séculos o que o Concílio Vaticano II e a teologia missiológica posterior reconheceriam como princípio fundamental: a evangelização autêntica respeita as culturas originárias e procura encontrá-las no que têm de melhor (cf. Ad Gentes, 22. Gaudium et Spes, 53-62). Coromoto é o santuário desta antecipação. A Senhora que apareceu na margem do Tucupido falou em língua indígena, escolheu um cacique como interlocutor primário, e deixou como sinal não uma estátua europeia mas uma imagem misteriosa de tamanho diminuto, como se o seu desejo fosse caber nas mãos de quem a recebia, sem esmagar a cultura que a acolhia. A Mãe da Venezuela é, em sentido próprio, Mãe de uma terra, de uma cultura, de uma história, abraçada pela maternidade universal de Maria sem perder nada da sua identidade própria.

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