«Unus panis, unum corpus»: o Santíssimo Nome de Maria e o fruto que revela a árvore

Quoniam unus panis, unum corpus multi sumus, omnes qui de uno pane participamur. […] Unaquaeque enim arbor de fructu suo cognoscitur.
1Cor 10,17 e Lc 6,44
O sábado da Semana XXIII do Tempo Comum é também o dia em que a Igreja pode celebrar a memória do Santíssimo Nome de Maria. As leituras do dia caem sobre esta memória com uma justeza notável. Paulo explica que o pão partido faz de muitos um só corpo e que não se pode participar de duas mesas incompatíveis. Jesus diz que cada árvore se conhece pelo seu fruto e que a boca fala daquilo que transborda do coração. Um nome, tal como um fruto, não se inventa. Diz o que a árvore é.
I. A primeira leitura: 1Cor 10,14-22
Paulo trata da mesma questão dos dias anteriores, as carnes sacrificadas aos ídolos, mas agora vai ao fundo do assunto e o resultado é uma das páginas eucarísticas mais antigas do Novo Testamento. A pergunta retórica é o núcleo: «não é o cálice de bênção que abençoamos a comunhão com o Sangue de Cristo? Não é o pão que partimos a comunhão com o Corpo de Cristo?» (v.16). Está escrito por volta do ano 56, antes de qualquer evangelho, e já supõe uma prática estabelecida e um vocabulário fixo.
Daqui Paulo tira a consequência eclesial que a tradição nunca mais largou: «visto que há um só pão, nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo, porque participamos do único pão» (v.17). A unidade da Igreja não é um acordo entre pessoas afins, é o efeito de um alimento comum. E daqui vem a exigência final, que é a razão de toda a argumentação: «não podeis beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios, não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios» (v.21). A comunhão não é uma opinião que se acrescenta a outras, é uma pertença que exclui pertenças contrárias.
II. O evangelho: Lc 6,43-49
Lucas fecha o sermão da planície com dois critérios de verificação. O primeiro é botânico: «cada árvore conhece-se pelo seu fruto» (v.44). O segundo é linguístico e é ainda mais incômodo, porque atinge aquilo de que menos desconfiamos: «a boca fala do que transborda do coração» (v.45). Aquilo que dizemos quando não estamos a compor uma resposta é o inventário mais fiel do que temos dentro.
Depois vem a pergunta que dá o tom a todo o desfecho: «por que me chamais Senhor, Senhor, mas não fazeis o que vos digo?» (v.46). E a parábola das duas casas, que em Lucas tem um detalhe que Mateus não tem. O homem prudente «escavou, aprofundou e assentou os alicerces sobre a rocha» (v.48). O trabalho decisivo é o que não se vê e não dá gosto nenhum a fazer, porque consiste em cavar para baixo enquanto os outros já estão a levantar paredes. A cheia não distingue as duas casas pelo aspecto. Distingue-as pelo que foi feito antes de haver casa.
III. O fruto que revela a árvore
Os dois textos partilham um método, que é o da verificação pelo efeito. Paulo verifica a fé pela mesa em que a pessoa se senta. Jesus verifica-a pelo fruto que a árvore dá e pelo que a boca deixa escapar. Nenhum dos dois aceita a autodeclaração como prova.
Aplicado à vida devota, este critério é severo. É possível frequentar a mesa do Senhor e manter uma pertença real a outra mesa, e a incoerência não se resolve pela intensidade do sentimento religioso, resolve-se pela escolha. Como é possível construir uma vida espiritual inteira em altura, com práticas visíveis e vocabulário correto, sem nunca ter cavado até à rocha. A cheia, diz Lucas, chega às duas casas por igual. Não é a prova que distingue os cristãos, é o alicerce.
IV. O Santíssimo Nome de Maria: um nome que é fruto
A memória de hoje é antiga na devoção e recente na sua forma atual. Nascida em Espanha no século XVI, foi estendida a toda a Igreja por Inocêncio XI em 1683, depois de Viena, retirada do calendário na reforma de 1969 e reposta como memória facultativa no Missal promulgado por João Paulo II. A Igreja quis manter um dia para aquilo que os fiéis fazem todos os dias sem pensar, que é pronunciar aquele nome.
O evangelho de hoje explica por que faz sentido celebrar um nome. Se «a boca fala do que transborda do coração», então os nomes que uma comunidade repete dizem o que essa comunidade tem dentro. E se «cada árvore se conhece pelo seu fruto», então convém lembrar qual foi o fruto daquela árvore. A liturgia latina canta-o na Salve Regina ao dirigir-se a ela e pedir que nos mostre, depois deste exílio, benedictum fructum ventris tui, o fruto bendito do seu ventre. O nome de Maria não vale por si. Vale porque aponta para o fruto.
E é aqui que a primeira leitura fecha o círculo de um modo que a devoção nem sempre percebe. O Corpo que Paulo diz ser comunhão, o pão que faz de muitos um só corpo, é um corpo que foi tomado de uma mulher concreta. O Filho de Deus nasceu de uma mulher (Gl 4,4), e a Igreja confessa Maria como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor (LG 53). A carne que se recebe no altar entrou no mundo pelo consentimento dela. Por isso a devoção ao seu nome nunca é um desvio da Eucaristia, se for bem entendida, porque a leva de volta ao ponto onde o Verbo se fez carne.
O sábado da Semana XXIII deixa portanto duas verificações a fazer, e nenhuma delas se responde com palavras. Em que mesa nos sentamos quando ninguém está a ver, e o que é que a nossa boca diz quando não a estamos a vigiar.
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