Oráculos sibilinos e Maria: a profecia pagã ao serviço da fé cristã

podcast da Mariologia — primeiro episódio, ciência teológica

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Δέξαι ἀχράντοισι θεὸν σοῖς, παρθένε, κόλποις.
«Recebe Deus, virgem, no teu seio imaculado» (Oracula Sibyllina 8,461)

Os Oráculos Sibilinos são uma coleção de poemas proféticos em grego, escritos por judeus e cristãos sob o nome das Sibilas, as antigas videntes do mundo pagão. No oitavo episódio do Podcast da Mariologia, o Prof. Daniel Afonso apresentou esta literatura e seus passos sobre a Encarnação. Este artigo segue os textos no original e mostra o que eles dizem de Maria, e também o que não dizem.

As Sibilas

No mundo greco-romano, a Sibila era imaginada como uma mulher idosa que proferia profecias em êxtase. As mais famosas, segundo John J. Collins, eram as de Eritreia e de Marpesso, na Ásia Menor, e a de Cumas, na Itália, e o erudito romano Varrão chegou a enumerar dez (COLLINS, 1983, p. 317). Não se devem confundir com a Pítia, a sacerdotisa do oráculo de Apolo em Delfos. Em Roma, os Livros Sibilinos oficiais eram guardados pelo Estado e só consultados por ordem do Senado em momentos de crise (COLLINS, 1983, p. 319).

Uma coleção judaica e cristã

Já no século II a.C., judeus helenistas escreviam versos em nome da Sibila para recomendar sua fé aos pagãos, e os cristãos seguiram o mesmo caminho (BAUER, 1994, p. 153). A coleção que chegou até nós conta doze livros, numerados de 1 a 8 e de 11 a 14, e os textos vão de meados do século II a.C. até o século VII d.C. (COLLINS, 1983, p. 321-322). Uns livros são judaicos, outros cristãos, e muitos foram retocados por mãos sucessivas. Os apologistas cristãos insistiam em que a Sibila era pagã, para fazer dela uma testemunha independente da verdade cristã (COLLINS, 1983, p. 322).

O Livro VIII é o mais rico em cristologia. É uma obra compósita: os versos 1-216 são anteriores a 180, e a segunda parte, cristã, não tem data própria, a não ser que Lactâncio já a conhecia por volta de 300 (COLLINS, 1983, p. 322, 416-417). Adolf von Harnack datava o livro VIII entre 240 e 265 (BAUER, 1994, p. 153).

A Anunciação nos Oráculos

O passo mariano mais importante está no Livro VIII, versos 456-479. É uma pequena narração da Anunciação e do Natal em hexâmetros, e Maria é nomeada pelo nome:

Ὑστατίοις τε χρόνοις χθόν᾽ ἀμείψατο καὶ βραχὺς ἐλθὼν / παρθένου ἐκ Μαρίας λαγόνων ἀνέτειλε νέον φῶς. / Οὐρανόθεν δὲ μολὼν βροτέην ἐνεδύσατο μορφήν. / Πρῶτα μὲν οὖν Γαβριὴλ σθεναρὸν δέμας ἁγνὸν ἐδείχθη, / δεύτερα καὶ κούρην ἀρχάγγελος ἔννεπε φωνῇ· / «δέξαι ἀχράντοισι θεὸν σοῖς, παρθένε, κόλποις».
«Nos últimos tempos mudou a terra e, vindo pequeno, do ventre da virgem Maria fez nascer uma luz nova. Vindo do céu, vestiu forma mortal. Primeiro Gabriel apareceu, em corpo forte e puro, depois o arcanjo dirigiu à jovem a palavra: “Recebe Deus, virgem, no teu seio imaculado”» (Oracula Sibyllina 8,456-461, ed. Geffcken, em SCHNEIDER, 1995, p. 316)

O poema descreve depois o medo e o espanto da jovem, sua alegria e seu pudor, e conclui: «Ἔπος δ᾽ εἰσέπτατο νηδύν», «a Palavra voou para dentro do ventre», e, feita carne, tornou-se menino «παρθενικοῖς τοκετοῖς», «por partos virginais». E acrescenta: «isto é grande prodígio para os mortais, mas nenhum grande prodígio para Deus Pai e para Deus Filho» (8,469-473). No verso 462, a edição de Geffcken lê que Deus infundiu graça na jovem «para sempre», o que daria «a sempre virgem», mas as edições de Rzach e de Kurfess leem «na doce jovem» (SCHNEIDER, 1995, p. 316-317).

Há outros dois traços marianos nos Oráculos. Num verso do Livro I, transmitido só numa parte da tradição, lê-se: «Quando a jovem der à luz a Palavra do Deus Altíssimo […]» (1,323, em CMP I, p. 159). E nos Livros II e VIII repete-se um verso em que Deus concede aos homens errantes dias de penitência «διὰ χειρῶν παρθένου ἁγνῆς», «pelas mãos da virgem pura» (2,311-312 = 8,357-358), um traço de intercessão mariana (COLLINS, 1983, p. 330). O Marienlexikon julga, porém, que datar este verso de meados do século II, como fazia Kurfess, é cerca de cem anos cedo demais (BAUER, 1994, p. 153).

Fora dos doze livros, a Sibila Tiburtina, um texto latino posterior a 350, fala de Maria e de José pelo nome e diz: «et ipsa erit virgo ante partum et virgo post partum», «e ela será virgem antes do parto e virgem depois do parto». Esta última frase, porém, falta nas versões orientais e dificilmente é anterior ao fim do século IV (BAUER, 1994, p. 153).

O acróstico da Sibila Eritreia

O Livro VIII contém também um célebre poema acróstico (8,217-250). As letras iniciais dos seus trinta e quatro versos formam, em grego, as palavras «Ἰησοῦς Χρειστὸς Θεοῦ Υἱὸς Σωτὴρ Σταυρός», «Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador, Cruz». O imperador Constantino cita-o inteiro no seu Discurso à assembleia dos santos (PG 20, 1285-1290), e Santo Agostinho conhece uma versão latina de vinte e sete versos, sem a palavra «Cruz», e nota que as iniciais das cinco primeiras palavras formam ΙΧΘΥΣ, «peixe», «in quo nomine mystice intelligitur Christus», «nome no qual se entende misticamente Cristo» (AGOSTINHO, De civitate Dei XVIII, 23, PL 41, 579-580).

Mas o acróstico não fala de Maria nem do nascimento virginal. É um poema do Juízo Final, que começa assim: «Ἱδρώσει δὲ χθών, κρίσεως σημεῖον ὅτ᾽ ἔσται», em latim «Iudicii signum tellus sudore madescet», «a terra suará, quando houver sinal de juízo». E o símbolo do peixe não vem dele: é anterior, como mostra Tertuliano, que no De batismo (1) escreve que os cristãos são «pisciculi», «peixinhos», segundo o ΙΧΘΥΣ, Jesus Cristo (DANIÉLOU, 1956, p. 74). O poema aproveitou o criptograma, não o criou.

A virgem de Virgílio

Ao lado das Sibilas, os cristãos leram também a quarta Écloga de Virgílio, onde o poeta anuncia, pela voz da Sibila de Cumas, uma nova idade: «Iam redit et Virgo, redeunt Saturnia regna, iam nova progenies caelo demittitur alto», «já volta a Virgem, voltam os reinos de Saturno, já uma nova geração desce do alto do céu» (Écloga 4,6-7). O primeiro a ler o poema em sentido cristão parece ser Lactâncio, por volta de 313, e o discurso atribuído a Constantino, numa paráfrase grega livre de Virgílio, identifica a virgem do poema com Maria: «Τίς οὖν ἄρα εἴη παρθένος ἡ ἐπανήκουσα; Ἆρ᾽ οὐχ ἡ πλήρης τε καὶ ἔγκυος γενομένη τοῦ θείου Πνεύματος;», «quem será então a virgem que regressa? Não é a que ficou plena e grávida do Espírito divino?» (CONSTANTINO, Oratio ad sanctorum coetum 19, PG 20, 1291-1292). No século V, Quodvultdeus de Cartago acrescenta: «”Redit” dixit, quia virgo adhuc Eva mortem intulit mundo, rediens virgo Maria vitam protulit Salvatorem», «disse “volta” porque Eva, ainda virgem, trouxe a morte ao mundo, e, voltando, a virgem Maria trouxe a Vida, o Salvador» (QUODVULTDEUS, em CMP VI, p. 44).

Raymond Brown lembra que, para Virgílio, a virgem era a Justiça, que tinha abandonado a terra e regressava com a paz, e que São Jerônimo já rejeitava a leitura messiânica do poema (BROWN, 1993, p. 564-565). Santo Agostinho, mais prudente, aplica os versos da Écloga a Cristo, e diz da Sibila que «fortassis», «talvez», tivesse ouvido em espírito alguma coisa sobre o único Salvador (AGOSTINHO, Epistula 258, PL 33, 1073).

Na liturgia e na arte

A Idade Média fez das Sibilas testemunhas pagãs da vinda de Cristo, ao lado dos profetas de Israel. A sequência Dies irae, de autor incerto, começa evocando o dia do juízo «teste David cum Sibylla», «como atestam Davi e a Sibila» (NEW CATHOLIC ENCYCLOPEDIA, 2003, v. 4, p. 742). O verso reflete a tradição medieval da Sibila e uma cerimônia litúrgica do Natal, o Ordo prophetarum (NEW CATHOLIC ENCYCLOPEDIA, 2003, v. 4, p. 742). Michelangelo pintou cinco Sibilas no teto da Capela Sistina e Rafael quatro em Santa Maria della Pace (KIRSCHBAUM, 1972, v. 4, col. 151-152).

O valor deste testemunho

Os Oráculos Sibilinos não são revelação nem tradição apostólica, e já na Antiguidade os críticos dos cristãos, como Celso, os acusavam de terem forjado versos sibilinos (ORÍGENES, Contra Celsum 7,53, apud COLLINS, 1983, p. 417). Mas são um testemunho precioso. Mostram que, pelo menos a partir do século III, os cristãos punham a concepção virginal de Cristo e o nome de Maria no centro do que queriam anunciar ao mundo pagão, em sua própria linguagem poética. O Concílio Vaticano II ensina que os livros do Antigo Testamento, lidos na Igreja à luz da revelação plena, trazem pouco a pouco à luz a figura da Mãe do Redentor (Lumen gentium 55). As Sibilas ocupam um lugar mais modesto: o de vozes que, emprestadas pelos cristãos às profetisas pagãs, cantaram a Virgem que recebeu Deus no seu seio.

Referências

AGOSTINHO DE HIPONA. De civitate Dei XVIII, 23. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Latina. Paris: J.-P. Migne, 1864. v. 41, col. 579-580.

AGOSTINHO DE HIPONA. Epistula 258. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Latina. Paris: J.-P. Migne, 1865. v. 33, col. 1073.

ALVAREZ CAMPOS, Sergio (ed.). Corpus Marianum Patristicum. Burgos: Ediciones Aldecoa. v. 1, 1970, p. 158-160, e v. 6, 1981, p. 44.

BAUER, Johannes B. Sibyllinische Bücher. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (ed.). Marienlexikon. St. Ottilien: EOS, 1994. v. 6, p. 153.

BROWN, Raymond E. The birth of the Messiah. New updated edition. New York: Doubleday, 1993. Appendix IX, p. 564-565.

COLLINS, John J. Sibylline Oracles. In: CHARLESWORTH, James H. (ed.). The Old Testament Pseudepigrapha. Garden City: Doubleday, 1983. v. 1, p. 317-472.

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Lumen gentium, 21 nov. 1964, n. 55. Acta Apostolicae Sedis, v. 57, 1965.

CONSTANTINO. Oratio ad sanctorum coetum 18-21. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Graeca. Paris: J.-P. Migne, 1857. v. 20, col. 1285-1302.

DANIÉLOU, Jean. The Bible and the liturgy. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1956.

KIRSCHBAUM, Engelbert (ed.). Lexikon der christlichen Ikonographie. Freiburg: Herder, 1972. v. 4, col. 150-153 (Sibyllen).

NEW CATHOLIC ENCYCLOPEDIA. 2. ed. Farmington Hills: Gale, Washington: The Catholic University of America, 2003. v. 4, p. 742 (Dies irae).

SCHNEIDER, Gerhard (trad. e introd.). Evangelia infantiae apocrypha = Apokryphe Kindheitsevangelien. Freiburg: Herder, 1995. (Fontes Christiani, 18). p. 316-319.

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