«Primitiae dormientium»: a ressurreição, as mulheres que sustentavam e a Assunção

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Nunc autem Christus resurrexit a mortuis, primitiae dormientium. […] Et mulieres aliquae, quae ministrabant eis de facultatibus suis.
1Cor 15,20 e Lc 8,2-3
A sexta-feira da Semana XXIV do Tempo Comum junta o argumento mais duro de Paulo com três versículos em que quase ninguém repara. Paulo leva a negação da ressurreição às suas últimas consequências e conclui que, sem ela, nada do que a Igreja diz se sustenta. Lucas, em três linhas discretas, nomeia as mulheres que acompanhavam Jesus e sustentavam o grupo com os seus bens. Um texto define o fundamento. O outro mostra quem o carregou na prática.
I. A primeira leitura: 1Cor 15,12-20
Paulo constrói aqui um raciocínio em cadeia, e a força dele está em não deixar nenhuma saída intermédia. Se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, «a nossa pregação é inútil e também é inútil a vossa fé» (v.14). Mais ainda, os apóstolos tornam-se «falsas testemunhas de Deus» (v.15), a comunidade continua nos seus pecados, e os que já morreram pereceram.
O ponto mais notável é a recusa de qualquer refúgio moral. Havia em Corinto quem quisesse guardar o cristianismo como sabedoria de vida e dispensar a ressurreição dos corpos, que soava grosseira à cultura grega. Paulo fecha essa porta com uma frase que nenhum apologista prudente escreveria: «se é só para a vida presente que temos posta em Cristo a nossa esperança, somos os mais miseráveis de todos os homens» (v.19). Ou o túmulo ficou vazio, ou o cristianismo não é uma boa filosofia, é uma perda de tempo. E então vem a afirmação, sem argumento nenhum a apoiá-la porque é ela que apoia tudo o resto: «mas não. Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram» (v.20). Primícias é palavra de colheita. O primeiro molho que se leva ao Templo não é a colheita toda, é a garantia de que ela vem atrás.
II. O evangelho: Lc 8,1-3
Lucas escreve aqui uma nota de passagem e deixa registada uma das informações mais reveladoras dos evangelhos. Jesus percorria cidades e aldeias, acompanhado pelos Doze «bem como algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades» (v.2). Nomeia três, Maria Madalena, Joana, mulher do administrador de Herodes, e Susana, e acrescenta «e muitas outras».
Dois detalhes merecem atenção. O primeiro é que uma delas era mulher de um alto funcionário da corte de Herodes Antipas, o que significa que aquele grupo itinerante tinha dentro de si alguém com acesso ao poder que mandara decapitar João Batista. O segundo é o verbo final: elas «serviam Jesus e os discípulos com os seus bens» (v.3). O ministério de Jesus foi financiado por mulheres. Não é uma leitura moderna forçada sobre o texto, é o que o texto diz, e Lucas escreve-o como quem regista um fato administrativo sem lhe dar ênfase nenhuma. Note-se ainda a ordem: foram curadas primeiro, e depois seguiram e sustentaram. A gratidão organizou-se.
III. As primícias e quem carrega a colheita
As duas leituras dizem coisas que a piedade costuma separar. A ressurreição é o fundamento de tudo, e quem sustentava a pregação desse fundamento eram pessoas concretas com dinheiro concreto. Não há oposição entre a grandeza do mistério e a pequenez do meio. É o mesmo Deus que ressuscita os mortos e que aceita ser sustentado por Susana.
Convém acrescentar o que a Escritura acrescenta. Essas mesmas mulheres, que aqui aparecem a pagar as despesas, serão em Lucas as que seguem até ao Calvário, observam onde o corpo é depositado, preparam os aromas e chegam ao túmulo na madrugada do primeiro dia (Lc 23,55-24,10). A cadeia é contínua. Quem sustentou o caminho é quem ficou até ao fim e quem primeiro anunciou aquilo que Paulo viria a formular como fórmula de fé. As primícias de que fala 1Cor 15 foram anunciadas primeiro por mulheres em quem os apóstolos não acreditaram (Lc 24,11).
IV. Maria, primícias da colheita
Se Cristo é «primícias dos que morreram», então a fé da Igreja reconhece que a colheita já começou noutra criatura. A Assunção não é um privilégio decorativo, é a afirmação de que aquilo que Paulo promete a todos já se cumpriu numa. Terminado o curso da vida terrestre, Maria foi assunta em corpo e alma à glória celeste (PIO XII. Munificentissimus Deus, 1950), e o Concílio conclui daí que ela brilha diante do povo de Deus em marcha como imagem e princípio da Igreja que há de ser consumada no século futuro (LG 68).
Isto responde diretamente ao argumento de Corinto. Os gregos achavam grosseira a ressurreição da carne e queriam uma imortalidade só da alma. A doutrina da Assunção fecha essa porta pelo lado mariano, do mesmo modo que Paulo a fecha pelo lado cristológico. O corpo de uma mulher de Nazaré está glorificado. Não é metáfora, e é por isso que a devoção mariana, quando bem entendida, é sempre um antídoto contra o espiritualismo que despreza a matéria.
Quanto às mulheres que serviam com os seus bens, Lucas já tinha apresentado a primeira delas no começo do seu evangelho. Antes de Joana e de Susana, houve uma que se declarou serva do Senhor (Lc 1,38) e que serviu com aquilo que tinha, que não era dinheiro mas o próprio corpo. E a última vez que a Escritura a mostra é a sustentar de novo, no Cenáculo, perseverando na oração com os Apóstolos (At 1,14). Do princípio ao fim, a mesma função discreta que Lucas regista em três linhas e sem ênfase.
A sexta-feira da Semana XXIV deixa portanto duas coisas juntas que não convém separar. Sem a ressurreição não sobra nada, e a pregação da ressurreição foi paga, no princípio, por quem ninguém cita.
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