«Primitiae dormientium»: a ressurreição, as mulheres que sustentavam e a Assunção

Nunc autem Christus resurrexit a mortuis, primitiae dormientium. […] Et mulieres aliquae, quae ministrabant eis de facultatibus suis.
1Cor 15,20 e Lc 8,2-3
A sexta-feira da Semana XXIV do Tempo Comum junta o argumento mais duro de Paulo com três versículos que quase ninguém repara. Paulo leva a negação da ressurreição às suas últimas consequências e conclui que, sem ela, nada do que a Igreja diz se sustenta. Lucas, em três linhas discretas, nomeia as mulheres que acompanhavam Jesus e sustentavam o grupo com os seus bens. Um texto define o fundamento. O outro mostra quem o carregou na prática.
I. A primeira leitura: 1Cor 15,12-20
Paulo constrói aqui um raciocínio em cadeia, e a força dele está em não deixar nenhuma saída intermédia. Se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, «a nossa pregação é inútil e também é inútil a vossa fé» (v.14). Mais ainda, os apóstolos tornam-se «falsas testemunhas de Deus» (v.15), a comunidade continua nos seus pecados, e os que já morreram pereceram.
O ponto mais notável é a recusa de qualquer refúgio moral. Havia em Corinto quem quisesse guardar o cristianismo como sabedoria de vida e dispensar a ressurreição dos corpos, que soava grosseira à cultura grega. Paulo fecha essa porta com uma frase que nenhum apologista prudente escreveria: «se é só para a vida presente que temos posta em Cristo a nossa esperança, somos os mais miseráveis de todos os homens» (v.19). Ou o túmulo ficou vazio, ou o cristianismo não é uma boa filosofia, é uma perda de tempo. E então vem a afirmação, sem argumento nenhum a apoiá-la porque é ela que apoia tudo o resto: «mas não. Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram» (v.20). Primícias é palavra de colheita. O primeiro molho que se leva ao Templo não é a colheita toda, é a garantia de que ela vem atrás.
II. O evangelho: Lc 8,1-3
Lucas escreve aqui uma nota de passagem e deixa registada uma das informações mais reveladoras dos evangelhos. Jesus percorria cidades e aldeias, acompanhado pelos Doze «bem como algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades» (v.2). Nomeia três, Maria Madalena, Joana, mulher do administrador de Herodes, e Susana, e acrescenta «e muitas outras».
Dois detalhes merecem atenção. O primeiro é que uma delas era mulher de um alto funcionário da corte de Herodes Antipas, o que significa que aquele grupo itinerante tinha dentro de si alguém com acesso ao poder que mandara decapitar João Batista. O segundo é o verbo final: elas «serviam Jesus e os discípulos com os seus bens» (v.3). O ministério de Jesus foi financiado por mulheres. Não é uma leitura moderna forçada sobre o texto, é o que o texto diz, e Lucas escreve-o como quem registra um fato administrativo sem lhe dar ênfase nenhuma. Note-se ainda a ordem: foram curadas primeiro, e depois seguiram e sustentaram. A gratidão organizou-se.
III. As primícias e quem carrega a colheita
As duas leituras dizem coisas que a piedade costuma separar. A ressurreição é o fundamento de tudo, e quem sustentava a pregação desse fundamento eram pessoas concretas com dinheiro concreto. Não há oposição entre a grandeza do mistério e a pequenez do meio. É o mesmo Deus que ressuscita os mortos e que aceita ser sustentado por Susana.
Convém acrescentar o que a Escritura acrescenta. Essas mesmas mulheres, que aqui aparecem a pagar as despesas, serão em Lucas as que seguem até ao Calvário, observam onde o corpo é depositado, preparam os aromas e chegam ao túmulo na madrugada do primeiro dia (Lc 23,55-24,10). A cadeia é contínua. Quem sustentou o caminho é quem ficou até ao fim e quem primeiro anunciou aquilo que Paulo viria a formular como fórmula de fé. As primícias de que fala 1Cor 15 foram anunciadas primeiro por mulheres a quem os apóstolos não acreditaram (Lc 24,11).
IV. Maria, primícias da colheita
Se Cristo é «primícias dos que morreram», então a fé da Igreja reconhece que a colheita já começou noutra criatura. A Assunção não é um privilégio decorativo, é a afirmação de que aquilo que Paulo promete a todos já se cumpriu numa. Terminado o curso da vida terrestre, Maria foi assunta em corpo e alma à glória celeste (PIO XII. Munificentissimus Deus, 1950), e o Concílio conclui daí que ela brilha diante do povo de Deus em marcha como imagem e princípio da Igreja que há de ser consumada no século futuro (LG 68).
Isto responde diretamente ao argumento de Corinto. Os gregos achavam grosseira a ressurreição da carne e queriam uma imortalidade só da alma. A doutrina da Assunção fecha essa porta pelo lado mariano, do mesmo modo que Paulo a fecha pelo lado cristológico. O corpo de uma mulher de Nazaré está glorificado. Não é metáfora, e é por isso que a devoção mariana, quando bem entendida, é sempre um antídoto contra o espiritualismo que despreza a matéria.
Quanto às mulheres que serviam com os seus bens, Lucas já tinha apresentado a primeira delas no começo do seu evangelho. Antes de Joana e de Susana, houve uma que se declarou serva do Senhor (Lc 1,38) e que serviu com aquilo que tinha, que não era dinheiro mas o próprio corpo. E a última vez que a Escritura a mostra é a sustentar de novo, no Cenáculo, perseverando na oração com os Apóstolos (At 1,14). Do princípio ao fim, a mesma função discreta que Lucas registra em três linhas e sem ênfase.
A sexta-feira da Semana XXIV deixa portanto duas coisas juntas que não convém separar. Sem a ressurreição não sobra nada, e a pregação da ressurreição foi paga, no princípio, por quem ninguém cita.
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