O monte de Deus para todos os povos: Is 2 e Mt 15, dedicação de Santa Maria maior

«Fluent ad eum omnes gentes».
«Confluirão para ele todos os povos». (Is 2,2)
I. O monte de Deus e a casa da mãe de todos os povos
A profecia de Isaías 2,2-5 é um dos textos mais universalistas de todo o Antigo Testamento: «Nos últimos tempos, o monte da Casa do Senhor será estabelecido no cimo dos montes e elevar-se-á acima dos outeiros. Para ele confluirão todos os povos. Virão numerosas nações e dirão: “Vinde, subamos ao monte do Senhor, à Casa do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos nas suas sendas”» (Is 2,2-3). A visão não é a de um templo fechado sobre si mesmo. É a de uma atracção irresistível de todas as nações para o centro onde Deus habita. O monte de Deus não exclui: convoca.
A Basílica de Santa Maria Maior, no Esquilino de Roma, é uma das realizações mais eloquentes desta visão profética na história da Igreja. É a maior basílica papal dedicada à Virgem Maria, um dos quatro grandes santuários de Roma que acolhem peregrinos de todos os continentes desde o século V. A sua história está ligada a dois momentos fundadores: a lenda da «Neve de Agosto» e a decisão teológica do Concílio de Éfeso.
A tradição narra que, na noite de 4 para 5 de Agosto do ano 352, o papa Libério e um nobre romano chamado João tiveram, separadamente, o mesmo sonho: Maria pedia-lhes que construíssem uma basílica no Esquilino. Ao despertar, encontraram o cume do monte coberto de neve, fenómeno extraordinário em Agosto em Roma. A neve marcou o perímetro do templo a construir. Por isso a festa é também conhecida como «Nossa Senhora das Neves». Este relato, independentemente da sua historicidade estrita, comunica uma verdade espiritual: a iniciativa é de Maria, e a resposta humana é de escuta e de obediência ao que ela pede.
II. A fé que persiste: a mulher cananeia
O Evangelho de Mateus 15,21-28 narra um dos encontros mais desconcertantes do ministério de Jesus: a cura da filha de uma mulher cananeia. O texto situa a acção nos «confins de Tiro e de Sídon», fora do território de Israel, em região pagã. Uma mulher grita atrás de Jesus: «Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! A minha filha está terrivelmente atormentada por um demónio» (Mt 15,22). O título «Filho de Davi» é messiânico: esta mulher pagã reconhece em Jesus o Messias de Israel, antes de muitos israelitas o reconhecerem.
A resposta de Jesus é silenciosa primeiro («não lhe respondeu palavra») e restritiva a seguir: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 15,24). A mulher não desiste. Prostra-se e diz: «Senhor, ajuda-me»!. Jesus responde com uma frase que escandaliza à primeira leitura: «Não é bom tomar o pão dos filhos e atirá-lo aos cãezinhos» (Mt 15,26). A mulher, longe de se ofender, transforma a imagem em argumento: «Sim, Senhor. Mas também os cãezinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos» (Mt 15,27). Jesus responde com admiração: «Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se o que tu desejas» (Mt 15,28). A filha ficou curada naquela hora.
III. «Grande é a tua fé»!, a mulher, Maria e a intercessão
Este episódio ilumina a memória de Santa Maria Maior a partir de vários ângulos. Em primeiro lugar, a mulher cananeia é pagã: pertence às nações que Isaías anuncia como destinatárias da salvação. O encontro com Jesus na fronteira de Israel é, narrativamente, a realização antecipada da profecia: todas as nações confluem para o monte de Deus, mesmo as que estão fora do povo eleito. A Basílica de Santa Maria Maior, construída para ser a grande casa mariana de Roma, capital do império e lugar de confluência das nações, é a pedra e o mosaico desta universalidade.
Em segundo lugar, a fé da mulher cananeia é um modelo de intercessão mariana. Ela não vem pedir para si. Pede para a sua filha. Não abandona quando o pedido parece recusado. Insiste com humildade e com criatividade argumental. Esta fé persistente e intercedente é a fé que a Igreja reconhece em Maria: a mãe que intercede por todos os filhos, que não desiste quando a resposta tarda, que encontra sempre o argumento que abre o coração do Filho. «Não têm vinho» (Jo 2,3): em Caná, Maria antecipou o milagre com a mesma discrição confiante da mulher cananeia.
O exclamativo de Jesus, «grande é a tua fé»!, é único no Evangelho de Mateus, onde apenas esta mulher e o centurião (Mt 8,10) recebem um elogio desta dimensão. A grandeza da fé não está na perfeição teológica nem no pertencimento ao povo eleito. Está na confiança tenaz, na humildade que não se ofende, na criatividade que converte a rejeição em argumento. É a fé de quem sabe que Deus é bom, mesmo quando o caminho é difícil.
IV. Santa Maria maior, do Éfeso ao mosaico da coroação
A basílica actual de Santa Maria Maior deve a sua forma arquitectónica fundamental a uma decisão teológica histórica: o Concílio de Éfeso, em 431. O Concílio definiu que Maria é Theotokos Mãe de Deus, contra a posição de Nestório que preferia o título Christotokos (Mãe de Cristo). Sisto III, papa de 432 a 440, reconstruiu e embelezou a basílica do Esquilino como monumento teológico em pedra e mosaico em resposta a esta definição. O papa queria que Roma tivesse uma grande basílica mariana que proclamasse ao mundo a dignidade da Theotokos.
Os mosaicos da abside, em grande parte preservados desde o século V, são excepcionais na história da arte cristã. O mosaico central da abside, obra de Jacopo Torriti no século XIII mas reproduzindo uma composição paleocristã anterior, mostra a coroação de Maria por Cristo. É uma das representações mais antigas deste tema no Ocidente cristão. Cristo e Maria estão sentados lado a lado, num trono coberto de estrelas. A Rainha está à direita do Rei, retomando a imagem da gebirá davídica: Betsabé sentada à direita de Salomão (1Rs 2,19).
A basílica guarda também uma relíquia venerada: as tábuas da manjedoura de Belém, a Reliquia Cunabuli conservadas numa urna de cristal sob o altar-mor. A presença desta relíquia na maior basílica mariana de Roma é teologicamente eloquente: a casa da Mãe guarda o sinal da pobreza do Filho. O lugar onde Maria é celebrada com toda a grandeza arquitectónica e artística é também o lugar onde o presépio é recordado. A grandeza e a pobreza, a basílica imperial e a manjedoura de palha, coexistem sem contradição: são as duas faces do mistério da Encarnação.
A memória de 5 de Agosto convida, por isso, à peregrinação interior: ao confluir para o monte de Deus que Isaías anunciou, ao persistir na fé da mulher cananeia que Jesus admirou, ao contemplar o rosto da Theotokos que os mosaicos de Santa Maria Maior celebram desde o século V. Todas as nações confluem para o monte de Deus, e Maria é a porta por onde a salvação desce a todas as nações. Esta é a teologia que a basílica proclama com a sua pedra, o seu mosaico e a sua memória litúrgica.
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