Ego sum vitis vera: Maria e o ramo que dá fruto

Ego sum vitis vera et Pater meus agricola est.
Jo 15,1
O discurso da videira, único em todo o Novo Testamento, apresenta Jesus como a «videira verdadeira» e o Pai como o «agricultor». Os discípulos são os ramos: permanecem ligados à videira e dão fruto, ou são cortados e secam. Esta imagem, enraizada na tradição profética de Israel (cf. Is 5,1-7; Jr 2,21; Ez 15), adquire em João uma profundidade nova, e a mariologia encontra nela um lugar específico: Maria é o ramo mais fecundo da videira verdadeira.
No Antigo Testamento, Israel é a videira de Deus: plantada com amor, cultivada com cuidado, mas que deu uvas silvestres em vez das esperadas (Is 5,2). O profeta lamenta a infidelidade de Israel como a falta da videira eleita. Jesus afirma ser a «videira verdadeira», o Israel fiel que cumpre o que o Israel histórico não conseguiu: dar o fruto que o Agricultor espera.
Maria, israelita fiel que resume em si a fé de todo o povo eleito, é nesta perspectiva a «flor de Israel» que precedeu o Fruto da videira. A tradição patrística chamou a Maria a «flor do campo» (Ct 2,1) de que brotou o Fruto da Redenção. Nela se cumpre a promessa da videira de Israel antes de se cumprir em Cristo: ela é o ramo onde o Fruto amadureceu, o lugar onde a promessa de Israel encontrou a sua resposta fiel antes de irromper no mundo como Salvação.
A tipologia da videira tem uma longa história na teologia patrística. Cipriano de Cartago via na videira de Jo 15 a figura da unidade da Igreja: os ramos separados da videira morrem. Os ramos unidos dão fruto. Esta eclesiologia tem uma dimensão mariológica: Maria, como Mãe da Igreja, está no centro desta unidade. Ela que não se separou da videira mesmo quando todos os outros o fizeram, no Calvário, é o modelo da permanência que Jo 15 exige.
A exegese medieval, em particular a de Boaventura e Tomás de Aquino, desenvolveu a distinção entre a videira como natureza humana de Cristo (de que Maria é a origem) e a videira como toda a comunhão dos redimidos (de que Maria é o primeiro e mais perfeito membro). Esta dupla dimensão, Maria como origem da videira e como o seu ramo mais perfeito, capta bem a posição singular de Maria na mariologia: ela é simultaneamente o ponto de partida e o modelo de chegada.
«Permanecei em mim», meinate en emoi, é o imperativo central do discurso da videira (Jo 15,4.5.6.7). O «permanecer» joânico não é estático: é uma comunhão vital, dinâmica, como a do ramo na videira. Sem essa união, nada é possível. Com ela, «dais muito fruto» (Jo 15,5).
A mariologia identifica em Maria o modelo supremo deste «permanecer». Ela permaneceu no Filho quando os discípulos fugiram. Permaneceu junto da Cruz quando todos se dispersaram. Permaneceu no cenáculo em oração enquanto esperava o Espírito. O «permanecer» de Maria não é a inércia de quem não tem onde ir: é a fidelidade activa de quem sabe onde está a vida.
S. João da Cruz, nos seus comentários ao Cântico Espiritual, desenvolveu a ideia de «permanecer» como o núcleo da vida contemplativa: não a multiplicidade das acções e das palavras, mas a habitação profunda em Deus que faz que todas as acções brotem desse centro. Maria é, para João da Cruz, o modelo desta «permanência» contemplativa: toda a sua actividade (a Visitação, Caná, o Calvário) brota de um centro de silêncio e de comunhão com o Filho.
A tradição hesicasta ortodoxa, a tradição de S. Simeão o Novo Teólogo e de Gregório Palamas, desenvolveu a contemplação de Maria como modelo do «hesicastmo», a quietude interior que não é passividade mas a máxima abertura ao divino. Maria «permaneceu» na videira não apesar da agitação do mundo mas a partir de um centro de quietude que nenhuma agitação podia perturbar. Este modelo é igualmente válido para a espiritualidade ocidental e oriental: a paz que vem do «permanecer» em Cristo é transcultural e trans-histórica.
Jo 15,16 especifica a natureza do fruto esperado: «um fruto que permaneça». O fruto passageiro, o entusiasmo momentâneo, a conversão superficial, a devoção de moda, não satisfaz o Agricultor. O fruto que ele espera é duradouro, profundo, transformador.
O fruto de Maria é, em sentido primordial, o próprio Cristo: ela deu ao mundo o Fruto que permanece eternamente. E em sentido derivado, o fruto de Maria é a sua maternidade espiritual sobre cada discípulo: ela que intercede, que guia, que ampara, produz nos filhos espirituais um crescimento que «permanece» para além das circunstâncias.
A história das grandes conversões marianas, de Bartolomeu de Braga a Paulo Claudel, de S. Francisco de Sales à Beata Marta Robin, mostra o fruto «que permanece»: não entusiasmos passageiros, mas transformações profundas e duradouras que mudaram vidas e histórias. Maria, o ramo mais fecundo da videira verdadeira, produz no coração dos seus filhos espirituais o mesmo fruto que ela gerou na sua carne: o fruto da santidade, da caridade, da configuração a Cristo.
A tradição dos movimentos marianos contemporâneos, da Legião de Maria ao movimento de Schoenstatt, da Renovação Carismática à devoção ao Imaculado Coração, testemunha a fecundidade contínua da «videira mariana» na Igreja. Cada movimento que se coloca sob o patrocínio de Maria produz, na medida em que permanece unido à videira verdadeira que é Jesus, o fruto que permanece: comunidades vivas, santidades exemplares, missão fecunda.
IV. A poda: Maria e a Purificação
Jo 15,2: «Todo o ramo que dá fruto, o Pai o poda, para que dê mais fruto». A poda é dolorosa mas fecunda; a teologia espiritual identificou-a com as provas, os sofrimentos e as purificações que Deus permite para aprofundar a união com Cristo.
Maria foi «podada» do modo mais radical possível: a espada de Simeão (Lc 2,35), a incompreensão do Filho adolescente (Lc 2,50), a aparente distância durante o ministério público (Mc 3,21.31-35) e acima de tudo, o Calvário. Cada uma destas «podas» produziu mais fruto: a Maria do Calvário é incomparavelmente mais fecunda do que a Maria da Anunciação, não porque a Anunciação foi menor, mas porque a poda aprofundou a união.
A teologia espiritual medieval, em particular a de Tauler, Eckhart e Ruysbroeck, desenvolveu a ideia de que o sofrimento («poda» divina) é o caminho para a máxima fecundidade espiritual. Maria é o modelo supremo desta pedagogia: ela que foi mais «podada» foi também a mais fecunda, a Mãe de todos os redimidos, a Rainha de todos os santos. A lógica da poda é a lógica da cruz: o grão de trigo que cai na terra e «morrer» produz muito fruto (Jo 12,24).
A espiritualidade mariana contemporânea recuperou esta dimensão com o conceito de «co-redenção» de Maria: não no sentido de uma redenção paralela à de Cristo, mas no sentido de uma participação activa e sofrida na obra redentora do Filho. Maria não foi uma espectadora passiva da Cruz, foi uma participante real, «podada» junto com o Filho para que o fruto da redenção fosse mais abundante. Esta participação é o fundamento da sua maternidade espiritual: ela que foi «podada» junto com o Filho pode interceder por todos os que passam pela poda.
Maria, o ramo mais fecundo da videira verdadeira, convida cada discípulo a «permanecer» em Cristo e a aceitar a poda que o Pai realiza para que o fruto seja duradouro.
- João Paulo II, Redemptoris Mater, n. 45 (1987).
- Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 65 (1964).
- S. Boaventura, Lignum Vitae.
- R. Laurentin, Traité de Théologie Mariale (1953).
- X. Léon-Dufour, Lecture de l’Évangile selon Jean, vol. III (1993).
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