«Maior autem est caritas»: o hino da caridade, Cornélio e Cipriano e Maria de pé

«Misit illos praedicare regnum dei»: esdras, a missão dos doze e Maria na missão

Nunc autem manet fides, spes, caritas, tria haec, maior autem ex his est caritas. […] Et iustificata est sapientia ab omnibus filiis suis.
1Cor 13,13 e Lc 7,35

A quarta-feira da Semana XXIV do Tempo Comum dá à Igreja o hino da caridade e, logo a seguir, o retrato de uma geração que não aceita nada. Paulo mostra que sem caridade todos os dons se esvaziam, e que ela é a única coisa que sobrevive à passagem do imperfeito. Jesus compara os seus contemporâneos a crianças na praça que se recusam a dançar quando tocam flauta e a chorar quando entoam lamentos. Neste dia a Igreja recorda também os santos Cornélio e Cipriano, um papa e um bispo do século III que pagaram com a vida a comunhão que quiseram preservar.

I. A primeira leitura: 1Cor 12,31.13,1-13

O capítulo 13 não é um poema avulso, é o coração de uma discussão sobre carismas. Corinto discutia hierarquias de dons, e Paulo anuncia «um caminho de perfeição que ultrapassa tudo» (12,31). Depois começa a demolição, três vezes seguidas e sempre com a mesma estrutura: línguas de homens e de anjos, profecia e conhecimento de todos os mistérios, entrega dos bens e do próprio corpo. Em cada caso a conclusão é a mesma, «se não tiver caridade, nada sou» (v.2).

Segue-se a descrição, e nela não há uma única palavra sobre sentimentos. A caridade aparece em quinze verbos que são todos comportamentos, «é paciente, é benigna, não é invejosa, não é altiva» (v.4), e a lista termina em quatro absolutos que descrevem uma resistência, «tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta» (v.7). Só depois vem a razão da primazia: profecia, línguas e ciência acabam, «mas a caridade não acaba nunca» (v.8). É a única virtude que atravessa a morte sem mudar de natureza, porque no céu já não se acredita nem se espera, ama-se. Por isso Paulo termina onde termina: «a maior de todas é a caridade» (v.13).

II. O evangelho: Lc 7,31-35

A parábola das crianças na praça é curta e cruel. Um grupo propõe uma brincadeira de casamento e toca flauta, e os outros não dançam. Propõe então uma brincadeira de funeral e entoa lamentações, e os outros não choram. Nada serve, porque a recusa não estava na proposta, estava em quem recebia.

Jesus aplica-a com dois exemplos que se anulam mutuamente. João Batista veio no rigor, sem comer nem beber, e disseram que tinha um demônio. O Filho do homem veio na proximidade, comendo e bebendo, e disseram que era «um glutão e um ébrio, amigo de publicanos e pecadores» (v.34). Os dois extremos foram condenados pelo mesmo tribunal, o que prova que o critério não era o comportamento do enviado mas a decisão prévia de não aderir. E a sentença final desloca tudo: «a Sabedoria é justificada por todos os seus filhos» (v.35). A Sabedoria de Deus não se defende com argumentos. Justifica-se pelos filhos que gera.

III. Cornélio, Cipriano e o preço da comunhão

A memória de hoje encaixa nestas leituras sem forçar nada. Cornélio foi papa entre 251 e 253, num tempo em que a Igreja se dividia sobre o que fazer com os que tinham cedido durante a perseguição de Décio. Uns queriam readmiti-los sem penitência, outros queriam fechar-lhes a porta para sempre. Cornélio escolheu o caminho mais custoso, que era o do perdão com penitência, e teve contra si o rigorismo de Novaciano. Cipriano, bispo de Cartago, sustentou-o. Ambos morreram por causa da fé, Cornélio no exílio e Cipriano decapitado em 258.

Aquilo que os une às leituras é exatamente a acusação da praça. O rigorista dizia que eram frouxos. O laxista dizia que eram duros. Nenhum dos dois estava a olhar para o critério, que era a caridade que edifica a comunhão. Cipriano deixou escrito que não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe (CIPRIANO. De unitate Ecclesiae, 6), e essa frase custou-lhe a vida, porque a unidade que ele defendia não era uma preferência administrativa mas o próprio efeito da caridade de que Paulo fala.

IV. Maria, a caridade que permanece

Se a caridade é a única coisa que não acaba, então convém perguntar onde é que ela se viu inteira. A resposta da tradição é conhecida e não é retórica. O Concílio afirma que Maria conservou fielmente a sua união com o Filho até à Cruz, onde permaneceu de pé, e que ali sofreu profundamente com o seu Unigénito, associando-se com ânimo materno ao seu sacrifício (LG 58).

Leia-se agora a descrição de Paulo com essa cena diante dos olhos. «Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta» é a lista mais precisa daquilo que aconteceu junto à cruz. Não há ali nenhum dom espetacular, nenhuma profecia, nenhuma língua de anjos. Há uma mulher de pé que não se retira. É por isso que a Igreja pode reconhecer nela o seu tipo na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo (LG 63), e a ordem em que os três termos aparecem não é indiferente.

Quanto à Sabedoria justificada pelos seus filhos, há uma leitura mariana que a liturgia autoriza há séculos, ao aplicar a Maria os textos sapienciais do Antigo Testamento. A Sabedoria de Deus não convenceu a geração da praça, que tinha resposta pronta para o rigor e para a proximidade. Justificou-se gerando filhos, e o primeiro deles, na ordem da carne e na ordem da fé, nasceu de Maria. Quem quiser saber se a Sabedoria tem razão não deve procurar o argumento decisivo. Deve olhar para os que ela gerou.

A quarta-feira da Semana XXIV deixa portanto uma advertência para quem discute muito de fé. É possível ter o argumento certo contra o rigorista e contra o laxista, e ser apenas mais uma criança sentada na praça. O que fica não é a razão. É a caridade.

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