Anjos caídos: quem são, o que a Bíblia diz e o que a Igreja ensina

São Miguel de armadura dourada combate o dragão do Apocalipse e os anjos rebeldes, que caem do céu como monstros (pormenor)

Em resumo

Os anjos caídos são criaturas espirituais que Deus criou boas e que se tornaram más por uma escolha livre, radical e irrevogável contra o seu Criador. A Bíblia afirma essa queda (Jd 6 e 2 Pd 2,4), e o IV Concílio de Latrão, contra o dualismo cátaro, definiu que os demônios foram criados bons e por si se fizeram maus.

Os anjos caídos são anjos que Deus criou bons e que, por uma escolha livre, radical e irrevogável, recusaram Deus e o seu Reino (CIC 392). A Escritura chama o seu chefe de Satanás ou Diabo, e a Igreja ensina, com o IV Concílio de Latrão (1215), que eles não foram criados maus: fizeram-se maus por si mesmos.

A Bíblia fala dessa queda em textos sóbrios e densos (2 Pd 2,4, Jd 6, Ap 12,7-9), e o Magistério fixou a doutrina numa frase que exclui de vez qualquer dualismo: o mal não foi criado, foi escolhido. Este artigo percorre os textos no original grego e hebraico, o ensino do Catecismo (nn. 391-395), a definição de Latrão, as passagens de Isaías 14, Ezequiel 28 e Gênesis 6 que muitas vezes são lidas sem cuidado, e responde com honestidade à pergunta mais buscada: quais são, afinal, os nomes dos anjos caídos?

Quem são os anjos caídos

Para a fé católica, os anjos caídos são o que a linguagem comum chama de demônios. Não são deuses do mal, nem almas de mortos, nem forças impessoais: são criaturas espirituais, pessoais, dotadas de inteligência e vontade, como todos os anjos (CIC 330). A diferença entre eles e os anjos fiéis não está na natureza, que é a mesma, mas na resposta que deram a Deus. O resumo do Catecismo diz tudo em três frases:

«Satanás ou Diabo e os outros demónios são anjos decaídos por terem livremente recusado servir a Deus e ao seu desígnio. A sua opção contra Deus é definitiva. E eles tentam associar o homem à sua revolta contra Deus.» (CIC 414, texto oficial em português publicado pela Santa Sé)

Daí os três dados que organizam todo o tema: a origem (criados bons), a queda (uma escolha livre e definitiva) e a ação presente (a tentação do homem, sempre dentro dos limites que Deus permite). Para o quadro completo da doutrina sobre os espíritos, veja a nossa página de angeologia.

Deus no trono entre anjos fiéis, e anjos armados precipitam os rebeldes do céu até Lúcifer coroado no abismo
Irmãos Limbourg, «A queda dos anjos rebeldes», Très Riches Heures du duc de Berry, fol. 64v, c. 1411-1416, Museu Condé, Chantilly

O que o Catecismo ensina sobre a queda dos anjos (CIC 391-395)

O Catecismo da Igreja Católica trata da queda dos anjos em cinco parágrafos, dentro do capítulo sobre o pecado original. Vale a pena lê-los na letra, porque cada frase foi pesada. A citação segue o texto português publicado no site da Santa Sé, com a sua ortografia original. Os textos integrais, junto com os parágrafos 328-336 sobre os anjos, estão reunidos na nossa página de fontes sobre o Catecismo, anjos e demônios.

CIC 391: por trás do primeiro pecado há uma voz sedutora

«Por detrás da opção de desobediência dos nossos primeiros pais, há uma voz sedutora, oposta a Deus, a qual, por inveja, os faz cair na morte. A Escritura e a Tradição da Igreja vêem neste ser um anjo decaído, chamado Satanás ou Diabo. Segundo o ensinamento da Igreja, ele foi primeiro um anjo bom, criado por Deus.» (CIC 391, com remissão a Gn 3,1-5, Sb 2,24, Jo 8,44 e Ap 12,9)

CIC 392: a queda foi uma livre opção

«A Escritura fala dum pecado destes anjos. A queda consiste na livre opção destes espíritos criados, que radical e irrevogavelmente recusaram Deus e o seu Reino. Encontramos um reflexo desta rebelião nas palavras do tentador aos nossos primeiros pais: “Sereis como Deus” (Gn 3, 5). O Diabo é “pecador desde o princípio” (1 Jo 3, 8), “pai da mentira” (Jo 8, 44).» (CIC 392, com remissão a 2 Pd 2,4)

CIC 393: por que o pecado dos anjos não é perdoado

«É o carácter irrevogável da sua opção, e não uma falha da infinita misericórdia de Deus, que faz com que o pecado dos anjos não possa ser perdoado. “Não há arrependimento para eles depois da queda, tal como não há arrependimento para os homens depois da morte”.» (CIC 393, citando São João Damasceno, De fide orthodoxa 2,4, PG 94,877)

CIC 394: a influência do Diabo e a vitória de Cristo

«A Escritura atesta a influência nefasta daquele que Jesus chama “o assassino desde o princípio” (Jo 8, 44), e que chegou ao ponto de tentar desviar Jesus da missão recebida do Pai. “Foi para destruir as obras do Diabo que apareceu o Filho de Deus” (1 Jo 3, 8). Dessas obras, a mais grave em consequências foi a mentirosa sedução que induziu o homem a desobedecer a Deus.» (CIC 394, com remissão a Mt 4,1-11)

CIC 395: o poder de Satanás não é infinito

«No entanto, o poder de Satanás não é infinito. Satanás é uma simples criatura, poderosa pelo facto de ser puro espírito, mas, de qualquer modo, criatura: impotente para impedir a edificação do Reino de Deus. […] A permissão divina da actividade diabólica é um grande mistério. Mas “nós sabemos que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8, 28).» (CIC 395)

No trecho omitido, o Catecismo explica que a ação de Satanás, movida pelo ódio contra Deus, pode causar danos graves, de natureza espiritual e, indiretamente, também física, mas que essa ação é permitida pela Providência, que conduz a história com força e suavidade. É a chave para ler o tema sem medo: o inimigo é real, mas é criatura, e não tem a última palavra.

Criados bons: a definição do IV Concílio de Latrão (1215)

Contra os cátaros e toda forma de dualismo, que imaginavam um princípio mau eterno ao lado de Deus, o IV Concílio de Latrão definiu, no primeiro capítulo, conhecido pelas palavras iniciais Firmiter credimus («cremos firmemente»):

«Diabolus enim et alii daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali.»

«De facto, o Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente bons, mas eles, por si, é que se fizeram maus.» (IV Concílio de Latrão, cap. 1, DS 800, citado no CIC 391, tradução oficial do Catecismo)

A frase carrega toda a metafísica cristã do mal. Nada do que existe é mau por natureza, porque tudo o que existe foi criado por Deus, e Deus só cria o bem. O mal não é uma substância, é uma ruína: o uso torcido de uma liberdade boa. O demônio não é o simétrico de Deus nem o seu rival de igual força, é uma criatura, e uma criatura estragada por si mesma. O texto integral do capítulo está na nossa página sobre o IV Concílio de Latrão e a definição sobre anjos e demônios, e a pergunta sobre a liberdade que tornou a queda possível é tratada em os anjos têm livre-arbítrio?

Anjos caídos na Bíblia: 2 Pedro 2,4 e Judas 6

O Novo Testamento se refere à queda dos anjos em duas passagens paralelas. A segunda carta de Pedro escreve:

Εἰ γὰρ ὁ θεὸς ἀγγέλων ἁμαρτησάντων οὐκ ἐφείσατο, ἀλλὰ σειραῖς ζόφου ταρταρώσας παρέδωκεν εἰς κρίσιν τηρουμένους,

«Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas, precipitando-os no Tártaro, os entregou a cadeias de trevas, guardados para o juízo…» (2 Pd 2,4, tradução literal)

E a carta de Judas:

ἀγγέλους τε τοὺς μὴ τηρήσαντας τὴν ἑαυτῶν ἀρχὴν ἀλλὰ ἀπολιπόντας τὸ ἴδιον οἰκητήριον εἰς κρίσιν μεγάλης ἡμέρας δεσμοῖς ἀϊδίοις ὑπὸ ζόφον τετήρηκεν·

«E os anjos que não guardaram o seu principado (archē), mas abandonaram a sua própria morada, ele os tem guardado em cadeias eternas, sob trevas, para o juízo do grande dia» (Jd 6, tradução literal)

Os dois textos dizem o essencial em poucas palavras: houve anjos que pecaram (hamartēsantōn), o pecado consistiu em não guardar a dignidade recebida, e a condição deles é definitiva. Note-se o jogo de palavras de Judas: os anjos que não «guardaram» (tērēsantas) a sua dignidade são agora «guardados» (tetērēken) para o juízo. Note-se também o que os textos não fazem: não contam a cena, não dão nomes, não satisfazem a curiosidade. A Escritura é avara em detalhes sobre a queda porque o seu interesse não é mitológico, é salvífico: importa saber que o tentador existe e foi vencido, não escrever a sua biografia.

O próprio Jesus fala do destino desses anjos ao descrever o juízo final: o fogo eterno foi «preparado para o diabo e os seus anjos» (τὸ ἡτοιμασμένον τῷ διαβόλῳ καὶ τοῖς ἀγγέλοις αὐτοῦ, Mt 25,41). O inferno não foi pensado para o homem, foi preparado para quem recusou Deus de modo definitivo.

A guerra no céu: Miguel e o dragão (Apocalipse 12,7-9)

O Apocalipse descreve a mesma realidade na linguagem da visão:

Καὶ ἐγένετο πόλεμος ἐν τῷ οὐρανῷ, ὁ Μιχαὴλ καὶ οἱ ἄγγελοι αὐτοῦ τοῦ πολεμῆσαι μετὰ τοῦ δράκοντος. καὶ ὁ δράκων ἐπολέμησεν καὶ οἱ ἄγγελοι αὐτοῦ, καὶ οὐκ ἴσχυσεν, οὐδὲ τόπος εὑρέθη αὐτῶν ἔτι ἐν τῷ οὐρανῷ.

«E houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos guerrearam contra o dragão. E o dragão guerreou, e os seus anjos, e não prevaleceu, nem se achou mais lugar para eles no céu» (Ap 12,7-8, tradução literal)

καὶ ἐβλήθη ὁ δράκων ὁ μέγας, ὁ ὄφις ὁ ἀρχαῖος, ὁ καλούμενος Διάβολος καὶ ὁ Σατανᾶς, ὁ πλανῶν τὴν οἰκουμένην ὅλην, ἐβλήθη εἰς τὴν γῆν, καὶ οἱ ἄγγελοι αὐτοῦ μετʼ αὐτοῦ ἐβλήθησαν.

«E foi lançado o grande dragão, a serpente antiga, o chamado Diabo e Satanás, o que engana toda a terra habitada. Foi lançado à terra, e os seus anjos foram lançados com ele» (Ap 12,9, tradução literal)

O texto acumula os nomes do inimigo (dragão, serpente antiga, Diabo, Satanás), como que dizendo que nenhum nome o esgota, e coloca à frente dos exércitos fiéis São Miguel Arcanjo, cujo nome é ele próprio um grito de batalha: «quem como Deus?». O detalhe decisivo é teológico: o dragão «não prevaleceu». A queda dos anjos não instaura um empate cósmico. Pouco antes, a cauda do dragão arrasta «a terça parte das estrelas do céu» (τὸ τρίτον τῶν ἀστέρων τοῦ οὐρανοῦ, Ap 12,4), imagem que a tradição leu como os anjos arrastados na queda, sem que isso seja uma estatística revelada.

O capítulo 12 do Apocalipse, aliás, abre com o sinal da Mulher vestida de sol: a guerra angélica está inserida na história da salvação, entre a Mãe, o Filho e a serpente, o arco que vai de Gn 3,15 até o fim. E Jesus, ao ouvir os discípulos contarem que os demônios se lhes submetiam, resume a mesma vitória numa frase: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago» (Ἐθεώρουν τὸν Σατανᾶν ὡς ἀστραπὴν ἐκ τοῦ οὐρανοῦ πεσόντα, Lc 10,18).

Isaías 14 e Ezequiel 28: o que dizem e o que não dizem

Dois textos proféticos aparecem em quase toda página sobre anjos caídos. Ambos merecem um esclarecimento honesto, porque no seu sentido literal não falam de anjos, mas de reis humanos.

Isaías 14,12 e o nome «Lúcifer»

אֵיךְ נָפַלְתָּ מִשָּׁמַיִם הֵילֵל בֶּן־שָׁחַר נִגְדַּעְתָּ לָאָרֶץ חוֹלֵשׁ עַל־גּוֹיִם׃

«Como caíste dos céus, Helel, filho da aurora! Foste abatido por terra, tu que subjugavas as nações» (Is 14,12, tradução literal)

O profeta entoa uma sátira fúnebre contra o rei da Babilônia (Is 14,4). Helel significa «o brilhante», a estrela da manhã, e a Vulgata o traduziu por lucifer, «portador de luz», nome latino comum desse astro: «Quomodo cecidisti de caelo, lucifer, fili aurorae?» (Is 14,12, Nova Vulgata). No sentido literal, o oráculo se refere à queda de um tirano. Foram os Padres, lendo em profundidade, que reconheceram nesse padrão de soberba e queda a assinatura do primeiro soberbo. Orígenes, por exemplo, aplica o texto ao poder adverso que caiu do céu (De principiis I,5,5). O uso é legítimo como leitura espiritual consagrada, mas convém saber o seu estatuto: «Lúcifer» não é um nome próprio revelado do demônio. Curiosamente, a mesma palavra latina designa Cristo no Exsultet pascal e na tradição, porque Cristo é a verdadeira estrela da manhã (cf. Ap 22,16).

Ezequiel 28 e o rei de Tiro

אַתְּ־כְּרוּב מִמְשַׁח הַסּוֹכֵךְ וּנְתַתִּיךָ בְּהַר קֹדֶשׁ אֱלֹהִים הָיִיתָ בְּתוֹךְ אַבְנֵי־אֵשׁ הִתְהַלָּכְתָּ׃

«Tu eras querubim ungido, protetor, e eu te coloquei: estavas no monte santo de Deus, andavas no meio das pedras de fogo» (Ez 28,14, tradução literal)

תָּמִים אַתָּה בִּדְרָכֶיךָ מִיּוֹם הִבָּרְאָךְ עַד־נִמְצָא עַוְלָתָה בָּךְ׃

«Íntegro eras tu nos teus caminhos desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti» (Ez 28,15, tradução literal)

Aqui também o destinatário literal é humano: o texto é uma lamentação «sobre o rei de Tiro» (Ez 28,12), cuja riqueza comercial o levou ao orgulho (Ez 28,16-17). O profeta, porém, descreve esse rei com imagens do Éden e do querubim, e por isso vários Padres leram na passagem o retrato do anjo que caiu. Tertuliano a cita para mostrar que o diabo foi bom pela criação e corrompido pela escolha (Contra Marcião II,10), e Orígenes a comenta longamente no mesmo sentido (De principiis I,5,4). A leitura é tradicional e ilumina o mistério, mas, do ponto de vista exegético, é um sentido espiritual construído sobre um oráculo político, e não uma narração direta da queda dos anjos. A doutrina da queda não depende desses textos: ela se apoia em 2 Pd 2,4, Jd 6, Jo 8,44 e no Magistério.

Gênesis 6: os «filhos de Deus» eram anjos caídos?

וַיִּרְאוּ בְנֵי־הָאֱלֹהִים אֶת־בְּנוֹת הָאָדָם כִּי טֹבֹת הֵנָּה וַיִּקְחוּ לָהֶם נָשִׁים מִכֹּל אֲשֶׁר בָּחָרוּ׃

«E viram os filhos de Deus (benê ha-Elohim) as filhas do homem, que eram belas, e tomaram para si mulheres dentre todas as que escolheram» (Gn 6,2, tradução literal)

O versículo 4 acrescenta que «os nefilim estavam na terra naqueles dias» (הַנְּפִלִים הָיוּ בָאָרֶץ בַּיָּמִים הָהֵם), quando os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens, e que delas nasceram «os heróis de outrora, os homens de renome» (Gn 6,4). Há duas leituras antigas desse texto enigmático:

  • A leitura angélica. O livro apócrifo de Henoc (1 Henoc 6-11, texto judaico anterior a Cristo) entende os «filhos de Deus» como anjos, os chamados Vigilantes, que desceram à terra, se uniram a mulheres e geraram gigantes. Essa leitura influenciou parte do judaísmo antigo e alguns escritores cristãos dos primeiros séculos.
  • A leitura humana. Santo Agostinho, na Cidade de Deus (XV,23), entende os «filhos de Deus» como a descendência piedosa de Set que se misturou com a descendência de Caim. Ele lembra que os anjos são de substância espiritual e declara que os livros apócrifos, inclusive o de Henoc, não têm autoridade canônica, ainda que contenham alguma verdade.

A interpretação católica corrente segue a linha de Agostinho e da teologia posterior: os anjos são «criaturas puramente espirituais» (CIC 330), sem corpo, e por isso não geram filhos. Gn 6,1-4 não é, portanto, o relato da queda dos anjos. A Igreja nunca ensinou que os anjos caíram por desejo de mulheres. A queda, segundo a Escritura e a teologia, foi um pecado do espírito, anterior à história humana, como mostra o próprio relato do Éden, em que a serpente já é tentadora (Gn 3,1-5, CIC 391).

Nomes dos anjos caídos: o que a Bíblia realmente diz

Quem procura «nomes dos anjos caídos» encontra na internet listas com dezenas de nomes. A Bíblia, porém, conhece poucos, e quase todos são títulos que descrevem uma função, não nomes pessoais. Estes são os que de fato aparecem nas Escrituras:

Satanás

Do hebraico satan, «adversário», «acusador». No Antigo Testamento é um título (no livro de Jó, «o satã», com artigo), e no Novo Testamento se torna o nome do chefe dos anjos caídos (Ap 12,9). A evolução desse nome é explicada na nossa página o que é Satanás na Bíblia.

Diabo

Do grego diabolos (Διάβολος), «caluniador», «aquele que divide». É a tradução grega habitual de satan, e o Apocalipse junta os dois títulos: «o chamado Diabo e Satanás» (Ap 12,9). Jesus o chama de «pai da mentira» e «assassino desde o princípio» (Jo 8,44, citado no CIC 392 e 394).

Belzebu

No Evangelho, os fariseus acusam Jesus de expulsar demônios «por Belzebu, príncipe dos demônios» (ἐν τῷ Βεελζεβοὺλ ἄρχοντι τῶν δαιμονίων, Mt 12,24), e Jesus responde identificando-o com Satanás (Mt 12,26). O nome vem de Baal-Zebub, divindade filisteia de Ecrom consultada pelo rei Ocozias (בְּבַעַל זְבוּב אֱלֹהֵי עֶקְרוֹן, «a Baal-Zebub, deus de Ecrom», 2 Rs 1,2). O sentido costuma ser explicado como «senhor das moscas», mas a etimologia exata da forma grega Beelzeboul é discutida.

Abadon e Apolion

ἔχουσιν ἐπʼ αὐτῶν βασιλέα τὸν ἄγγελον τῆς ἀβύσσου· ὄνομα αὐτῷ Ἑβραϊστὶ Ἀβαδδών, καὶ ἐν τῇ Ἑλληνικῇ ὄνομα ἔχει Ἀπολλύων.

«Têm sobre si como rei o anjo do abismo. O nome dele em hebraico é Abadon, e em grego tem o nome de Apolion» (Ap 9,11, tradução literal)

Abadon significa «destruição» e Apolion, «o destruidor». É novamente um título, não um nome de batismo, e os exegetas discutem se o «anjo do abismo» é o próprio Satanás ou um anjo de destruição a seu serviço. O texto não o diz.

Belial e Asmodeu

São Paulo pergunta: «que acordo há entre Cristo e Beliar?» (τίς δὲ συμφώνησις Χριστοῦ πρὸς Βελιάρ, 2 Cor 6,15), usando um termo hebraico que significa «sem valor», «perversidade», como nome do adversário. E o livro de Tobias, que faz parte da Bíblia católica, fala de «Asmodeu, o demônio perverso» que matava os maridos de Sara (Tb 3,8, Nova Vulgata: «Asmodeus daemonium nequissimum»), vencido pela ação do arcanjo Rafael (Tb 3,17).

E Lúcifer? Como vimos, é uma leitura espiritual de Is 14,12 consagrada pelo uso, não um nome revelado. Em resumo, a Escritura nomeia o inimigo pelo que ele faz (acusa, calunia, destrói, engana) e quase nunca lhe dá a dignidade de um nome pessoal.

Por que as listas de nomes de demônios não são católicas

As longas listas que circulam na internet vêm de duas fontes que a Igreja não reconhece como autoridade:

  • Os apócrifos judaicos, sobretudo o livro de Henoc, que nomeia os chefes dos Vigilantes (Semeyaza, Azazel e outros). O nome Azazel aparece na Bíblia apenas no rito do Dia da Expiação, como destinatário de um dos bodes (לַעֲזָאזֵל, «para Azazel», Lv 16,8), sem que o texto o apresente como anjo caído. A identificação vem do apócrifo.
  • A magia e o ocultismo, em especial os grimórios medievais e modernos, que catalogam demônios com nomes, hierarquias e «selos» para invocá-los. Aqui não se trata de teologia, mas de práticas que a Igreja condena: recorrer a Satanás ou aos demônios e a toda forma de magia é contrário à virtude da religião (CIC 2116-2117).

Mesmo no caso dos anjos bons, a Igreja pede sobriedade. O Diretório sobre a piedade popular e a liturgia (2001), da Congregação para o Culto Divino, afirma no n. 217: «È da riprovare anche l’uso di dare agli Angeli nomi particolari, eccetto Michele, Gabriele e Raffaele che sono contenuti nella Scrittura», isto é, deve-se reprovar o costume de dar aos anjos nomes particulares, exceto Miguel, Gabriel e Rafael, que estão na Escritura (texto oficial italiano, tradução nossa). Se a Igreja desaconselha inventar nomes para os anjos santos, com mais razão não se usam catálogos de nomes de demônios, que nascem da curiosidade ou da magia. O mesmo número do Diretório adverte contra a tendência de atribuir ao Maligno qualquer contrariedade da vida cotidiana. Sobre os nomes dos anjos fiéis, veja o artigo sobre os nomes dos anjos.

Qual foi o pecado dos anjos caídos

A Escritura não descreve a cena da queda, mas oferece uma pista que o Catecismo recolhe: «Encontramos um reflexo desta rebelião nas palavras do tentador aos nossos primeiros pais: “Sereis como Deus”» (CIC 392, citando Gn 3,5). O tentador propõe ao homem o mesmo caminho que ele percorreu. Por isso a tradição teológica, de Agostinho a São Tomás de Aquino, identifica o primeiro pecado do anjo com a soberba: querer ser como Deus não por graça, recebendo, mas por si mesmo, sem depender d’Ele (São Tomás, Suma Teológica I, q. 63, aa. 2-3). A inveja do homem veio depois, como consequência: o Catecismo, com Sb 2,24, diz que foi «por inveja» que o tentador fez os primeiros pais caírem na morte (CIC 391).

Por que a queda dos anjos é irrevogável

O Catecismo é explícito: não é a misericórdia de Deus que falha, é a opção do anjo que é irrevogável (CIC 393). A teologia clássica explica isso a partir da natureza angélica. O anjo é espírito puro: não conhece por etapas, não decide às cegas, não é arrastado por paixões nem enganado pela fraqueza. A sua escolha é feita com todo o peso do seu ser e de uma vez, e por isso não comporta o arrependimento, que em nós nasce precisamente da revisão do que se escolheu mal. Dito na chave pessoal que este site privilegia: a liberdade do anjo é o dom total de si num ato único. O anjo fiel se deu inteiro a Deus para sempre, o anjo caído se fechou inteiro em si para sempre. A tragédia do demônio não é ter sido expulso, é não querer voltar.

O que os anjos caídos fazem hoje e qual é o seu limite

Segundo o Catecismo, os demônios «tentam associar o homem à sua revolta contra Deus» (CIC 414). A sua ação ordinária é a tentação, a mentira e a divisão. Mas o mesmo Catecismo lembra que Satanás é «uma simples criatura», «impotente para impedir a edificação do Reino de Deus» (CIC 395), e que o Filho de Deus apareceu precisamente para destruir as obras do Diabo (CIC 394, citando 1 Jo 3,8). Questões mais específicas, como o alcance real dessa ação, são tratadas em artigos próprios: o demônio pode ler nossos pensamentos? e a diferença entre possessão e obsessão demoníaca. A resposta cristã não é o medo, mas aquilo que o Diretório sobre a piedade popular resume como compromisso moral, opção pelo Evangelho, humildade e oração (n. 217), com a confiança no anjo da guarda que Deus dá a cada um.

A queda dos anjos lida pelos Padres da Igreja

Isaías 14 e Ezequiel 28 nos Padres: Orígenes e Teodoreto

Vários Padres, entre eles Orígenes e Teodoreto, sabiam que os oráculos de Isaías e Ezequiel se dirigem a reis. Foi justamente por lê-los com atenção que concluíram que algumas frases não convêm a nenhum rei humano. Orígenes, no quarto livro do Tratado dos princípios, escreve sobre o rei da Babilônia de Is 14:

«Οὔτε γὰρ ἐξέπεσεν ἐκ τοῦ οὐρανοῦ, οὔτε ἑωσφόρος ἦν, οὐδὲ πρωῒ ἀνέτελλεν ἐπὶ τὴν γῆν ὁ Ναβουχοδονόσορ ὁ ἄνθρωπος». «Pois Nabucodonosor, o homem, nem caiu do céu, nem era a estrela da manhã, nem se levantava de madrugada sobre a terra» (Orígenes, De principiis IV, PG 11, 391-392).

O mesmo raciocínio aparece, dois séculos depois, num exegeta da escola de Antioquia, a mais atenta ao sentido literal. Comentando Ez 28,18, «profanaste a tua santidade», Teodoreto de Ciro pergunta:

«Εἰπάτωσαν οἱ ἀντιλέγοντες, ποῖον ἁγιασμὸν εἶχεν ὁ δυσσεβὴς τῆς Τύρου βασιλεύς· ἀλλ᾿ οὐκ ἂν ἔχοιεν δεῖξαι. Οὗτος δέ, περὶ οὗ νῦν ὁ λόγος, ἡνίκα εἷς τῶν ἁγίων ἀρχαγγέλων ὑπῆρχεν, ἐν μετουσίᾳ ἦν ἁγιωσύνης ἁπάσης· ἀλλ᾿ αὐτὸς τὸν ἁγιασμὸν ἐβεβήλωσε κακῇ χρησάμενος ἐμπορίᾳ, καὶ τοῦ πλείονος ἐπιθυμήσας καὶ τῶν δοθέντων ἐξέπεσε». «Digam os que nos contradizem que santidade tinha o ímpio rei de Tiro. Não o poderão mostrar. Mas este de quem agora se fala, quando era um dos santos arcanjos, participava de toda a santidade. Ele próprio, porém, profanou a santidade, usando de um mau comércio, e, desejando mais, caiu também daquilo que lhe fora dado» (Teodoreto de Ciro, In Ezechielem 28,18, PG 81, 1093).

Estes Padres não negam que o oráculo fala de um rei. Julgam, porém, que certas expressões não lhe convêm e as aplicam diretamente ao anjo caído. É daí que vem a leitura de que falamos acima, e por isso a tradição viu nesses textos o retrato do primeiro soberbo: alguém que tinha recebido muito e quis mais do que lhe fora dado.

Soberba primeiro, inveja depois: Ireneu, Agostinho e Leão Magno

Qual foi o pecado do anjo? Santo Ireneu de Lião, no fim do século II, punha a inveja na origem:

«Diabolus, cum sit unus ex angelis his qui super spiritum aeris praepositi sunt, quemadmodum Paulus Apostolus in ea quae ad Ephesios est manifestavit, invidens homini, apostata a divina factus est lege: invidia enim aliena est a Deo». «O Diabo, sendo um dos anjos postos à frente do espírito do ar, como o apóstolo Paulo mostrou na carta aos Efésios, invejando o homem, fez-se apóstata da lei divina, porque a inveja é alheia a Deus» (Ireneu de Lião, Adversus haereses V,24,4, SC 153, p. 306).

Santo Agostinho conhecia essa opinião e corrigiu a ordem. A inveja não pode ter sido a primeira, explica, porque nasce de outra raiz:

«Nonnulli enim dicunt ipsum ei fuisse casum a supernis sedibus, quod inviderit homini facto ad imaginem Dei. Porro autem invidia sequitur superbiam, non praecedit: non enim causa superbiendi est invidia, sed causa invidendi superbia. Cum igitur superbia sit amor excellentiae propriae, invidia vero sit odium felicitatis alienae, quid unde nascatur satis in promptu est». «Alguns dizem que a sua queda das moradas do alto foi ter invejado o homem feito à imagem de Deus. Mas a inveja segue a soberba, não a precede: a inveja não é causa da soberba, a soberba é que é causa da inveja. Sendo a soberba o amor da própria excelência, e a inveja o ódio da felicidade alheia, está bem à vista o que nasce de quê» (Agostinho, De Genesi ad litteram XI,14,18, PL 34, 436).

Poucas décadas depois, São Leão Magno resumiu a doutrina numa frase de pregador, que junta Ireneu e Agostinho sem os contradizer:

«Incentor namque ille auctorque peccati primum superbus ut caderet, deinde invidus ut noceret». «Aquele instigador e autor do pecado foi primeiro soberbo, e assim caiu, e depois invejoso, para fazer mal» (Leão Magno, Sermo 9, De collectis IV, SC 49, p. 15).

A ordem é coerente com o Catecismo, que fala primeiro da livre recusa dos anjos, refletida no «sereis como Deus» (CIC 392), e da voz sedutora que «por inveja» leva o homem à morte (CIC 391).

Gênesis 6 num apologista do século II: Atenágoras

A leitura angélica de Gn 6, de que falamos acima, não ficou só nos apócrifos judaicos. Atenágoras de Atenas, dirigindo-se aos imperadores Marco Aurélio e Cômodo por volta de 177, distingue dois modos de queda: o do príncipe a quem fora confiada a matéria, e o dos anjos que se uniram às mulheres.

«ἐκεῖνοι μὲν εἰς ἐπιθυμίαν πεσόντες παρθένων καὶ ἥττους σαρκὸς εὑρεθέντες, οὗτος δὲ ἀμελήσας καὶ πονηρὸς περὶ τὴν τῶν πεπιστευμένων γενόμενος διοίκησιν». «aqueles, caindo no desejo de virgens e achando-se vencidos pela carne, e este, tornando-se negligente e mau na administração do que lhe fora confiado» (Atenágoras, Legatio pro christianis 24, PG 6, 948).

O testemunho é precioso para a história da exegese. A leitura que vê nos «filhos de Deus» a descendência de Set ganhou, porém, grande autoridade no Ocidente latino sobretudo a partir de Agostinho, e o ensino de que os anjos são criaturas puramente espirituais (CIC 330) não permite entendê-los como pais de filhos segundo a carne.

«O que a morte é para os homens»: São João Damasceno

A frase que o Catecismo cita no n. 393 vem do grande resumo da fé grega do século VIII. No original, São João Damasceno escreve:

«Χρὴ δὲ γινώσκειν, ὅτι ὅπερ ἐστὶ τοῖς ἀνθρώποις ὁ θάνατος, τοῦτο τοῖς ἀγγέλοις ἡ ἔκπτωσις. Μετὰ γὰρ τὴν ἔκπτωσιν οὐκ ἔστιν αὐτοῖς μετάνοια, ὥσπερ οὐδὲ τοῖς ἀνθρώποις μετὰ τὸν θάνατον». «É preciso saber que o que a morte é para os homens, isso é a queda para os anjos. Depois da queda não há para eles arrependimento, assim como não há para os homens depois da morte» (João Damasceno, De fide orthodoxa II,4, PG 94, 877 C).

A comparação é sóbria: a morte não fecha a misericórdia de Deus, fecha o tempo da escolha. Para o homem, esse tempo é a vida inteira. O Damasceno não explica aqui por que razão a queda tem para o anjo o peso da morte. A teologia posterior, sobretudo São Tomás, busca a resposta na natureza do espírito puro, que escolhe sem a sucessão e as hesitações próprias de quem conhece aos poucos.

A Mulher do Apocalipse e a Mãe de Deus

O capítulo 12 do Apocalipse mostra dois sinais no céu, a Mulher vestida de sol (Ap 12,1) e o grande dragão (Ap 12,3). Entre eles nasce o Filho da Mulher, e logo em seguida vem a guerra de Miguel contra o dragão. André de Cesareia, autor de um dos primeiros comentários gregos ao Apocalipse, registra as duas leituras que já circulavam:

«Γυναῖκα δὲ περιβεβλημένην τὸν ἥλιον, τινὲς μὲν δι᾿ ὅλου τὴν παναγίαν Θεοτόκον νενοήκασι, πρὶν ἢ γνωσθῆναι αὐτῆς τὸν θεῖον τόκον, παθοῦσαν τὰ λεγόμενα. Ὁ δὲ μέγας Μεθόδιος εἰς τὴν ἁγίαν Ἐκκλησίαν ἐξέλαβεν». «A mulher vestida de sol, alguns a entenderam inteiramente como a santíssima Mãe de Deus, que teria sofrido o que se diz antes que o seu parto divino fosse conhecido. Mas o grande Metódio a tomou pela santa Igreja» (André de Cesareia, In Apocalypsin 12,1, PG 106, 319-320).

As duas leituras não se excluem. A Igreja que dá à luz Cristo nos fiéis tem o seu ícone perfeito em Maria, que o deu à luz na carne. Por isso a mesma página apresenta, em linguagem apocalíptica, a derrota do dragão e dos seus anjos. Ap 12,9 identifica o dragão com «a serpente antiga» do Éden, e a tradição mariana leu nesta Mulher que o enfrenta o eco da promessa de Gn 3,15. O dragão «não prevaleceu».

Dos anjos caídos à demonologia

Tudo o que a fé diz do demônio decorre destes dados: criatura, boa na origem, caída por soberba, vencida por Cristo. Entre os anjos caídos e os serafins que ardem diante do trono, ou os querubins que guardam o Éden, não há diferença de natureza, há diferença de resposta. Essa é a seriedade da liberdade criada, e é também o consolo do cristão: o inimigo é real, mas «não prevaleceu». O estudo sóbrio e cristocêntrico dessa realidade, longe do sensacionalismo e do medo, é o objeto da demonologia católica, disciplina irmã da angeologia.

Perguntas frequentes sobre os anjos caídos

O que são os anjos caídos?

Anjos caídos são anjos que Deus criou bons e que, por uma escolha livre, radical e irrevogável, recusaram Deus e o seu Reino (CIC 392). São o que chamamos de demônios. O IV Concílio de Latrão (1215) definiu que o Diabo e os outros demônios foram criados naturalmente bons por Deus, mas por si mesmos se fizeram maus (DS 800, citado no CIC 391).

Quais são os nomes dos anjos caídos na Bíblia?

A Bíblia dá poucos nomes, quase todos títulos: Satanás («adversário»), Diabo («caluniador»), Belzebu (Mt 12,24), Abadon ou Apolion, «o anjo do abismo» (Ap 9,11), Beliar (2 Cor 6,15) e Asmodeu (Tb 3,8). Lúcifer vem de uma leitura espiritual de Is 14,12. As longas listas de nomes da internet vêm de apócrifos, como o livro de Henoc, ou de grimórios de magia, e a Igreja não as usa.

Quantos anjos caíram?

A Escritura não dá número. A imagem do dragão cuja cauda arrasta «a terça parte das estrelas do céu» (Ap 12,4) foi lida pela tradição como símbolo dos anjos arrastados na queda, mas é linguagem visionária, não estatística revelada. A doutrina afirma o fato da queda, não a contagem.

Lúcifer é um nome bíblico?

«Lúcifer» («portador de luz») é a tradução latina da Vulgata para «Helel, filho da aurora», título dirigido em Is 14,12 ao rei da Babilônia. A tradição cristã aplicou essa imagem de soberba e queda ao demônio, e daí veio o uso do nome. Não é, porém, um nome próprio revelado: a Escritura chama o anjo caído de Diabo, Satanás e serpente antiga (Ap 12,9).

Os anjos caídos podem se arrepender e ser salvos?

Não. O Catecismo ensina que é o caráter irrevogável da opção deles, e não uma falha da misericórdia de Deus, que faz com que o pecado dos anjos não possa ser perdoado: não há arrependimento para eles depois da queda, como não há para os homens depois da morte (CIC 393, citando São João Damasceno).

Os filhos de Deus de Gênesis 6 eram anjos caídos?

O apócrifo de Henoc leu assim, e essa ideia circulou no judaísmo antigo. Santo Agostinho (Cidade de Deus XV,23) entendeu os filhos de Deus como a descendência de Set, e a teologia católica segue essa linha: os anjos são criaturas puramente espirituais (CIC 330) e não geram filhos. Gn 6,1-4 não é o relato da queda dos anjos.

Qual é a diferença entre anjo caído e demônio?

Nenhuma: são a mesma realidade vista de dois ângulos. «Anjo caído» diz a origem, uma criatura boa que caiu. «Demônio» diz o estado presente, o espírito que, tendo caído, se opõe a Deus e tenta o homem. Por isso a angeologia e a demonologia católicas são inseparáveis: o demônio não é um anti-deus, é uma criatura em revolta (CIC 414).

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