Angeologia: o que é, os nove coros dos anjos e o que a Igreja ensina
Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Angeologia é a parte da teologia que estuda os anjos: a sua existência, natureza, hierarquia e missão na história da salvação, segundo a Escritura, os Padres e o Magistério da Igreja. O nome une os termos gregos ἄγγελος (ángelos, «mensageiro») e λόγος (lógos, «discurso, estudo»). Também se escreve «angelologia».
Não confundir com angiologia, a especialidade médica que trata dos vasos sanguíneos (do grego ἀγγεῖον, «vaso»). Este guia reúne o essencial da angeologia católica e serve de porta de entrada para todos os artigos sobre anjos da Locus Mariologicus.
A angeologia em cinco pontos
- A existência dos anjos é verdade de fé (Catecismo da Igreja Católica, n. 328).
- Os anjos são criaturas puramente espirituais, pessoais e imortais, dotadas de inteligência e vontade (CIC 330).
- Cristo é o centro do mundo angélico: os anjos foram criados por Ele e para Ele (CIC 331, Cl 1,16).
- A tradição, com o Pseudo-Dionísio e São Tomás de Aquino, distingue nove coros em três hierarquias.
- Os demônios são anjos criados bons que se fizeram maus por livre escolha (IV Concílio de Latrão, CIC 391).
O que é a angeologia
A angeologia é o ramo da teologia que estuda a natureza, a hierarquia e a missão dos anjos no plano da salvação. Enquanto disciplina teológica sistemática, ocupa lugar preciso no tratado De Deo Creatore, sendo apresentada logo após a criação do mundo espiritual e antes da antropologia teológica. O Credo niceno-constantinopolitano confessa Deus criador de todas as coisas «visíveis e invisíveis», e o IV Concílio de Latrão (1215) ensina que Deus, «desde o princípio do tempo, criou do nada ao mesmo tempo uma e outra criatura, a espiritual e a corporal, isto é, os anjos e o mundo terrestre» (citado em CIC 327). Desde então o Magistério tem afirmado de modo constante a existência dos anjos como seres pessoais, espirituais e imortais.
O Catecismo da Igreja Católica dedica uma seção específica aos anjos (nn. 328-336) e resume a doutrina numa frase: «Os anjos são criaturas espirituais que glorificam a Deus sem cessar e servem os seus planos salvíficos em relação às outras criaturas» (CIC 350). Essa definição sintetiza as duas dimensões essenciais da angeologia católica: a dimensão litúrgico-doxológica, pela qual os anjos adoram a Deus, e a dimensão soteriológica, pela qual intervêm na história da salvação como mensageiros e guardiões.
Na prática, a angeologia responde a perguntas como estas: os anjos existem? Quando foram criados? Têm corpo? Como conhecem e amam? Como se organizam? Que papel têm na vida de Cristo, de Maria e da Igreja? Por que alguns caíram? Cada uma dessas perguntas tem um artigo próprio no guia de artigos sobre anjos, no fim desta página.
Origem da palavra angeologia
O português anjo vem do latim angelus, que transcreve o grego ἄγγελος, «mensageiro». Os tradutores gregos do Antigo Testamento (a Septuaginta) usaram ἄγγελος para verter o hebraico מַלְאָךְ (mal’akh), que também designa um enviado, humano ou celeste. Por isso a palavra fala primeiro da missão e só depois da natureza. Veja o estudo do termo em anjo em hebraico: o que significa mal’akh.
O Catecismo recolhe a fórmula clássica de Santo Agostinho: «Angelus […] officii nomen est, non naturae», isto é, «Anjo é nome de ofício, não de natureza». Pelo que é, o anjo é espírito. Pelo que faz, é mensageiro (CIC 329).
Angeologia ou angelologia?
As duas grafias designam a mesma disciplina. Angelologia conserva inteiro o radical grego angel- e é a forma mais usada nas línguas europeias (angelology, angélologie, Angelologie). Angeologia, forma mais breve, também é usada em português e é a que adotamos aqui.
Os anjos na Sagrada Escritura
A presença angélica percorre toda a Sagrada Escritura. No Antigo Testamento, os anjos aparecem como mediadores da aliança: acompanham Abraão em Mambré (Gn 18), protegem Elias no deserto (1Rs 19,5) e anunciam a ação de Deus nos textos proféticos e sapienciais. O Livro de Daniel introduz os nomes dos arcanjos Miguel e Gabriel (Dn 8,16, Dn 10,13), que o Livro de Tobias completa com Rafael (Tb 12,15), confirmando a tradição dos três arcanjos venerados pela Igreja.
O salmista resume a dupla condição dos anjos, força e obediência:
בָּרְכוּ יְהֹוָה מַלְאָכָיו גִּבֹּרֵי כֹחַ עֹשֵׂי דְבָרוֹ לִשְׁמֹעַ בְּקוֹל דְּבָרוֹ׃
«Bendizei o Senhor, anjos dele, poderosos em força, que executam a palavra dele, obedecendo à voz da palavra dele» (Sl 103 [Vulg. 102],20)
No Novo Testamento, a angeologia atinge a sua plenitude cristológica. Os anjos ministram a Cristo no deserto após a tentação (Mt 4,11), anunciam a Ressurreição às mulheres (Lc 24,4-7.23) e acompanharão o Filho do Homem na Parusia (Mt 25,31). Jesus fala deles quando defende os pequeninos, e a Igreja lê aqui o fundamento bíblico do anjo da guarda:
οἱ ἄγγελοι αὐτῶν ἐν οὐρανοῖς διὰ παντὸς βλέπουσι τὸ πρόσωπον τοῦ πατρός μου τοῦ ἐν οὐρανοῖς
«os anjos deles nos céus continuamente veem a face do meu Pai que está nos céus» (Mt 18,10)
A Carta aos Hebreus oferece a definição bíblica mais próxima de um tratado de angeologia: os anjos são espíritos a serviço, enviados em favor dos homens.
οὐχὶ πάντες εἰσὶν λειτουργικὰ πνεύματα εἰς διακονίαν ἀποστελλόμενα διὰ τοὺς μέλλοντας κληρονομεῖν σωτηρίαν;
«Não são todos eles espíritos ministrantes, enviados para servir por causa daqueles que hão de herdar a salvação?» (Hb 1,14)
É nesse horizonte cristocêntrico que a angeologia deixa de ser uma especulação cosmológica para se tornar um capítulo da economia da salvação. Para o retrato bíblico completo, veja como são os anjos segundo a Bíblia e angeologia hebraica.
Angeologia e mariologia: a Anunciação como centro
O encontro mais denso entre angeologia e mariologia realiza-se na Anunciação. O evangelista sublinha o envio:
ἀπεστάλη ὁ ἄγγελος Γαβριὴλ ἀπὸ τοῦ θεοῦ εἰς πόλιν τῆς Γαλιλαίας ᾗ ὄνομα Ναζαρὲθ
«foi enviado o anjo Gabriel da parte de Deus a uma cidade da Galileia cujo nome é Nazaré» (Lc 1,26)
O arcanjo Gabriel, cujo nome se interpreta como «força de Deus», é enviado pelo Pai à Virgem de Nazaré para anunciar o mistério da Encarnação. Nesse gesto, a angeologia revela a sua vocação fundamental: servir o Verbo que se faz carne e servir Aquela que dá ao Verbo a sua humanidade. Maria é, por isso, a criatura em relação à qual os anjos exercem a mais alta função, a de introduzir no mundo a Palavra eterna.
A tradição teológica, retomando os Padres, contemplou os anjos diante de Maria com uma veneração peculiar, não por uma dignidade angélica, mas pela sua dignidade de Mãe de Deus. Nesse sentido, a angeologia não é uma disciplina paralela à mariologia, mas converge com ela no mistério do Verbo Encarnado, que é ao mesmo tempo Senhor dos anjos e Filho de Maria. Daí o título que a Ladainha de Loreto dá a Nossa Senhora: Rainha dos Anjos.
Os nove coros e a hierarquia dos anjos
A Escritura nomeia várias ordens de espíritos celestes. Além dos anjos e arcanjos, fala de serafins (Is 6,2), de querubins (Gn 3,24) e, em São Paulo, de tronos, dominações, principados e potestades:
εἴτε θρόνοι εἴτε κυριότητες εἴτε ἀρχαὶ εἴτε ἐξουσίαι· τὰ πάντα διʼ αὐτοῦ καὶ εἰς αὐτὸν ἔκτισται
«sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades: todas as coisas foram criadas por meio dele e para ele» (Cl 1,16)
A sistematização das hierarquias angélicas deve-se principalmente ao Pseudo-Dionísio Areopagita, cuja obra Hierarquia celeste (por volta do ano 500) organizou os anjos em três tríades: Serafins, Querubins e Tronos na primeira hierarquia, Dominações, Virtudes e Potestades na segunda, Principados, Arcanjos e Anjos na terceira. Santo Tomás de Aquino retomou e desenvolveu essa síntese na Suma teológica (I, qq. 50-64 e 106-114), oferecendo uma angeologia especulativa de rigor inigualado que permanece referência obrigatória para qualquer estudo acadêmico da matéria. Veja o tratado dos anjos de São Tomás.
| Hierarquia | Coros | Função, segundo São Tomás |
|---|---|---|
| Primeira | Serafins, Querubins, Tronos | As razões das coisas no próprio Deus: contemplação do fim |
| Segunda | Dominações, Virtudes, Potestades | As razões nas causas universais: disposição do governo do mundo |
| Terceira | Principados, Arcanjos, Anjos | A aplicação aos efeitos particulares: execução das missões junto dos homens |
São Tomás explica a razão da ordem: «prima hierarchia accipit rationes rerum in ipso Deo; secunda vero in causis universalibus; tertia vero secundum determinationem ad speciales effectus», isto é, «a primeira hierarquia recebe as razões das coisas no próprio Deus, a segunda nas causas universais, a terceira segundo a determinação aos efeitos particulares» (Suma teológica I, q. 108, a. 6). No mesmo artigo registra que São Gregório Magno ordena os coros de modo ligeiramente diferente de Dionísio: só trocam de lugar os principados e as virtudes. Por isso a lista dos nove coros é teologia venerável, não dogma definido: de fé é a existência dos anjos, não o número exato das suas ordens. Para a leitura bíblica de cada coro, veja a hierarquia dos anjos segundo a Bíblia.
Uma tese tomista ajuda a entender por que cada anjo é único: não tendo matéria, os anjos não se multiplicam dentro de uma mesma espécie, e assim «impossibile sit esse duos Angelos unius speciei», «é impossível haver dois anjos de uma mesma espécie» (Suma teológica I, q. 50, a. 4). Gabriel e Miguel não diferem como dois homens, mas como duas naturezas distintas.
A angeologia escolástica não é mero exercício intelectual. Ao precisar a natureza espiritual, a inteligência e a vontade dos anjos, a tradição teológica afirma implicitamente a realidade de uma criação que transcende o mundo material, antecipando, de certo modo, a condição escatológica do ser humano redimido. A angeologia é, nesse sentido, uma proto-escatologia: revela aquilo que a humanidade está chamada a ser na consumação final.
O que a Igreja ensina sobre os anjos
O ensino da Igreja sobre os anjos está reunido no Catecismo da Igreja Católica, nn. 328-336. Os pontos centrais são estes:
- Existência. «A existência dos seres espirituais, não-corporais, a que a Sagrada Escritura habitualmente chama anjos, é uma verdade de fé» (CIC 328).
- Natureza. «Enquanto criaturas puramente espirituais, são dotados de inteligência e vontade: são criaturas pessoais e imortais. Excedem em perfeição todas as criaturas visíveis» (CIC 330).
- Centro cristológico. «Cristo é o centro do mundo dos anjos» (CIC 331): foram criados por Ele e para Ele e são mensageiros do seu plano de salvação.
- Na liturgia. A Igreja associa-se aos anjos para adorar a Deus e celebra a memória de São Miguel, São Gabriel, São Rafael e dos Anjos da Guarda (CIC 335).
- Na vida de cada pessoa. «Desde o seu começo até à morte, a vida humana é acompanhada pela sua assistência e intercessão» (CIC 336).
Os concílios intervieram sobretudo para defender duas verdades: que o mundo espiritual pertence à criação e que o mal não é um princípio absoluto. O IV Concílio de Latrão (1215, DS 800) e o Concílio Vaticano I (constituição Dei Filius, 1870, DS 3002) afirmam a criação dos anjos a partir do nada. A Igreja também pôs limites à devoção: o Concílio de Laodiceia (século IV, cânon 35) proibiu os cristãos de deixar a igreja para «nomear anjos» em assembleias à parte, a que chamou idolatria oculta, e o Concílio Romano de 745 condenou a invocação de nomes de anjos estranhos à Escritura. Veja a angeologia magisterial, o comentário ao Catecismo, nn. 328-336 e 391-395, quais nomes de anjos a Igreja aprova e o índice das definições dogmáticas no Denzinger.
Os arcanjos e o anjo da guarda
A Escritura dá nome a três arcanjos, celebrados juntos em 29 de setembro: Miguel («Quem como Deus?»), Gabriel («Força de Deus») e Rafael («Deus cura»). A Igreja celebra os Santos Anjos da Guarda em 2 de outubro. Sobre a guarda angélica de cada pessoa, veja o anjo da guarda: o que a Igreja ensina e o comentário a Mt 18,10.
Angeologia e demonologia: distinção necessária
A angeologia inclui necessariamente a reflexão sobre os anjos decaídos, tratada na demonologia. A queda dos anjos é um dado revelado que a teologia não pode ignorar, e o IV Concílio de Latrão formulou-a assim: «Diabolus enim et alii daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali», «com efeito, o diabo e os outros demônios foram criados por Deus naturalmente bons, mas eles mesmos se fizeram maus por si» (DS 800, citado em CIC 391).
O Catecismo explica que a queda consiste na livre opção desses espíritos, que recusaram Deus de modo radical e irrevogável (CIC 392-393). A demonologia católica não é uma especulação paralela ao anúncio evangélico, mas a sua pressuposição: afirmar a redenção de Cristo implica reconhecer a realidade do mal pessoal que a redenção vence. O diabo não é um anti-Deus nem uma força igual a Ele, é uma criatura. A articulação entre angeologia e demonologia é, por isso, intrinsecamente unitária, e assim deve ser tratada no ensino teológico. Veja anjos caídos: o que a Bíblia e a Igreja ensinam e angeologia e demonologia: anjos, demônios e Maria.
Os anjos nos Padres, no Magistério e na liturgia
Santo Agostinho: «anjo» é nome de ofício
O Catecismo cita uma frase de Santo Agostinho (CIC 329). Eis o texto inteiro, do comentário ao Salmo 103 da Vulgata (104 na numeração hebraica), sobre o versículo «Fazes dos teus anjos espíritos», com a comparação que a torna clara:
«Spiritus autem Angeli sunt, et cum spiritus sunt, non sunt angeli, cum mittuntur, fiunt angeli. Angelus enim officii nomen est, non naturae. Quaeris nomen hujus naturae, spiritus est, quaeris officium, angelus est: ex eo quod est, spiritus est, ex eo quod agit, angelus est». «Os anjos são espíritos. Enquanto são espíritos, não são anjos. Quando são enviados, tornam-se anjos. Anjo, com efeito, é nome de ofício, não de natureza. Procuras o nome desta natureza? É espírito. Procuras o ofício? É anjo. Pelo que é, é espírito. Pelo que faz, é anjo» (Agostinho, Enarrationes in Psalmos 103, s. 1, 15, PL 37, 1348).
E logo a seguir dá o exemplo humano: «homem» é nome de natureza e «soldado» é nome de ofício. O homem torna-se arauto, mas o arauto não se torna homem (ibid., PL 37, 1349). No mesmo passo, Agostinho afirma que não vemos os anjos, mas sabemos pela fé que existem.
Os Padres gregos: criados pelo Verbo, santificados pelo Espírito
São Basílio, no século IV, ensinou que os anjos não são santos por natureza, mas pelo dom do Espírito Santo:
«Αἱ γὰρ καθαραὶ καὶ νοεραὶ καὶ ὑπερκόσμιοι δυνάμεις ἅγιαι καὶ εἰσὶ καὶ ὀνομάζονται, ἐκ τῆς παρὰ τοῦ ἁγίου Πνεύματος ἐνδοθείσης χάριτος τὸν ἁγιασμὸν κεκτημέναι». «As potências puras, inteligentes e acima do mundo são santas e assim se chamam porque receberam a santidade da graça dada pelo Espírito Santo» (Basílio, De Spiritu Sancto 16,38, PG 32, 136).
E conclui: «Τελείωσις δὲ ἀγγέλων ἁγιασμός, καὶ ἡ ἐν τούτῳ διαμονή», «a perfeição dos anjos é a santificação e a perseverança nela» (ibid.). À luz deste texto, a tradição pôde ler a queda dos demônios como falta de perseverança: foram criados bons e não permaneceram na santidade.
O seu amigo São Gregório de Nazianzo viu na criação dos anjos o primeiro transbordar da bondade de Deus, obra do Verbo e do Espírito:
«πρῶτον μὲν ἐννοεῖ τὰς ἀγγελικὰς δυνάμεις καὶ οὐρανίους· καὶ τὸ ἐννόημα ἔργον ἦν, Λόγῳ συμπληρούμενον, καὶ Πνεύματι τελειούμενον. Καὶ οὕτως ὑπέστησαν λαμπρότητες δεύτεραι, λειτουργοὶ τῆς πρώτης λαμπρότητος». «Primeiro pensou as potências angélicas e celestes, e o pensamento foi obra, realizada pelo Verbo e levada à perfeição pelo Espírito. Assim vieram a existir os segundos esplendores, servidores do primeiro esplendor» (Gregório de Nazianzo, Oratio 38,9, PG 36, 320).
Gregório não pretende saber demais. Acrescenta logo que os anjos são espíritos inteligentes, ou fogo imaterial, ou alguma outra natureza muito próxima destas (ibid.).
Os nove coros no original
O texto de onde vem a divisão em três tríades é breve:
«Πάσας ἡ θεολογία τὰς οὐρανίους οὐσίας ἐννέα κέκληκεν ἐκφαντορικαῖς ἐπωνυμίαις· ταύτας ὁ θεῖος ἡμῶν ἱεροτελεστὴς εἰς τρεῖς ἀφορίζει τριαδικὰς διακοσμήσεις». «A palavra de Deus chamou a todas as essências celestes com nove nomes reveladores, e o nosso divino iniciador distribui-as em três ordenações de três» (Pseudo-Dionísio, De caelesti hierarchia VI,2, PG 3, 200). Em Dionísio, θεολογία é a própria Escritura, que dá os nomes.
Um pormenor escapa a quem só conhece a tabela. Neste primeiro anúncio, Dionísio nomeia cada tríade de baixo para cima: primeiro «os santíssimos tronos» e só depois os querubins e os serafins, e na terceira «anjos, arcanjos e principados» (ibid., PG 3, 200-201). Nos capítulos seguintes (VII a IX) expõe-nas por ordem descendente, de Serafins a Anjos, que é a ordem que a tradição recebeu.
São Gregório Magno enumera as mesmas nove ordens sem citar Dionísio, somando os nomes que encontra na Escritura:
«Novem vero angelorum ordines diximus, quia videlicet esse, testante sacro eloquio, scimus angelos, archangelos, virtutes, potestates, principatus, dominationes, thronos, cherubim, atque seraphim». «Dissemos nove as ordens dos anjos, porque, pelo testemunho da Sagrada Escritura, sabemos que existem anjos, arcanjos, virtudes, potestades, principados, dominações, tronos, querubins e serafins» (Gregório Magno, Homiliae in Evangelia II,34,7, PL 76, 1249).
Os anjos e arcanjos, explica, estão em quase todas as páginas da Bíblia, os querubins e serafins nos profetas, e as outras cinco ordens em São Paulo, Ef 1,21 e Cl 1,16 (ibid., PL 76, 1250).
Pio XII: os anjos são pessoas
Em 1950, entre os erros que circulavam na teologia, Pio XII apontou a dúvida sobre o caráter pessoal dos anjos:
«Quaestio etiam a nonnullis agitur num Angeli creaturae personales sint». «Alguns levantam também a questão de saber se os anjos são criaturas pessoais» (Pio XII, Humani generis, AAS 42 (1950) 570, DS 3891).
É por isso que o Catecismo, ao dizer que os anjos são «criaturas pessoais» (CIC 330), remete precisamente para esta encíclica.
Na liturgia: 29 de setembro e 2 de outubro
A missa dos três arcanjos abre com o versículo que o artigo citou acima em hebraico, Sl 103 (Vulgata 102),20, aqui em latim: «Benedicite Dominum, omnes Angeli eius, potentes virtute, qui facitis verbum eius, ad audiendam vocem sermonum eius» (antífona de entrada de 29 de setembro). E a oração do dia une o céu e a terra:
«Deus, qui miro ordine Angelorum ministeria hominumque dispensas, concede propitius, ut, a quibus tibi ministrantibus in caelo semper assistitur, ab his in terra vita nostra muniatur». «Ó Deus, que com admirável ordem distribuís os ministérios dos anjos e dos homens, concedei-nos que a nossa vida seja protegida na terra por aqueles que vos assistem sempre no céu» (Missale Romanum, 29 de setembro, oração do dia).
Na memória dos Anjos da Guarda, a Igreja pede ao mesmo tempo a proteção deles agora e a sua companhia para sempre:
«Deus, qui ineffabili providentia sanctos Angelos tuos ad nostram custodiam mittere dignaris, largire supplicibus tuis, et eorum semper protectione defendi, et aeterna societate gaudere». «Ó Deus, que por inefável providência vos dignais enviar os vossos santos anjos para a nossa guarda, concedei aos que vos suplicam que sejam sempre defendidos pela sua proteção e se alegrem com a sua companhia eterna» (Missale Romanum, 2 de outubro, oração do dia).
Como estudar angeologia
Um percurso seguro começa pela Escritura (angeologia hebraica), passa pelos Padres (angeologia patrística), pelo Magistério (angeologia magisterial) e chega à reflexão atual (angeologia contemporânea), tendo sempre à mão o Catecismo e o tratado de São Tomás. Para quem quer estudar com método acadêmico, a Locus Mariologicus oferece a pós-graduação em Angeologia e Demonologia, 100% online, que percorre a doutrina dos anjos e dos demônios na Escritura, nos Padres e no Magistério.
Guia de artigos sobre anjos
Fundamentos da angeologia
- Angeologia hebraica: o mal’akh e os anjos no Antigo Testamento
- Angeologia patrística: os Padres da Igreja e a doutrina dos anjos
- Angeologia magisterial: os concílios e o ensino da Igreja
- Angeologia contemporânea: natureza, missão e Maria Rainha dos Anjos
- Angeologia e demonologia: anjos, demônios e Maria na tradição católica
Os anjos na Bíblia
- Como são os anjos segundo a Bíblia
- Anjo em hebraico: o que significa mal’akh
- Hierarquia dos anjos na Bíblia
- Nomes dos anjos: quais a Igreja aprova
Os coros angélicos
- Serafins: os anjos ardentes de Isaías
- Querubins: o que são segundo a Bíblia
- As rodas de Ezequiel (ofanins)
Os arcanjos
- Miguel Arcanjo: príncipe dos exércitos celestes
- São Miguel Arcanjo: defesa e oração
- Gabriel Arcanjo: o mensageiro da Anunciação
- São Gabriel, padroeiro das comunicações
- Rafael Arcanjo: o anjo da cura e guia dos viajantes
- São Rafael e Tobias: a história, o padroeiro e a festa
O anjo da guarda e Maria, Rainha dos Anjos
- O anjo da guarda: o que a Igreja ensina
- Anjos da guarda: devoção e Magistério católico
- Maria, Rainha dos Anjos
Demônios e anjos caídos
- Demonologia católica: o guia completo
- Anjos caídos: o que a Bíblia diz da queda e de Lúcifer
- O exorcismo de Leão XIII (1890): texto integral
Fontes para estudo
- Catecismo da Igreja Católica sobre anjos e demônios (nn. 328-336 e 391-395)
- Índice das fontes magisteriais sobre anjos e demônios
- Denzinger: definições dogmáticas sobre anjos e demônios
- São Tomás de Aquino: o tratado dos anjos
- Concílio Vaticano I, Dei Filius: a criação dos anjos
- Concílio de Laodiceia, cânon 35: contra o culto excessivo aos anjos
- Concílio Romano de 745: os nomes apócrifos dos anjos
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Referências
AGOSTINHO DE HIPONA. Enarrationes in Psalmos 103, sermo 1, 15. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Latina. Paris: J.-P. Migne, 1845. v. 37, col. 1348-1349.
BASÍLIO DE CESAREIA. De Spiritu Sancto 16,38. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Graeca. Paris: J.-P. Migne, [1857-1866]. v. 32, col. 136.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. n. 329-330.
DENZINGER, Heinrich e HÜNERMANN, Peter (ed.). Enchiridion symbolorum definitionum et declarationum de rebus fidei et morum. Edizione bilingue. Bologna: EDB, 1996. Número DS citado: 3891 (Pio XII, Humani generis).
GREGÓRIO DE NAZIANZO. Oratio 38,9. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Graeca. Paris: J.-P. Migne, [1857-1866]. v. 36, col. 320.
GREGÓRIO MAGNO. Homiliae in Evangelia II,34,7. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Latina. Paris: J.-P. Migne, [1844-1855]. v. 76, col. 1249-1250.
MISSALE ROMANUM cum lectionibus. Editio iuxta typicam alteram. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1977. v. 4 (Tempus per annum, hebdomadae XXII-XXXIV). Formulários de 29 de setembro e de 2 de outubro.
PIO XII. Humani generis. Acta Apostolicae Sedis, Città del Vaticano, v. 42, p. 570, 1950.
PSEUDO-DIONÍSIO AREOPAGITA. De caelesti hierarchia VI,2. In: MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Graeca. Paris: J.-P. Migne, [1857-1866]. v. 3, col. 200-201.
Perguntas frequentes sobre angeologia
O que é angeologia?
Angeologia é a parte da teologia que estuda os anjos: a sua existência, natureza, hierarquia e missão na história da salvação, segundo a Escritura, os Padres e o Magistério. O nome vem do grego ángelos («mensageiro») e lógos («estudo»). Inclui também a reflexão sobre os anjos caídos, a demonologia.
Qual é a diferença entre angeologia e angelologia?
Nenhuma de conteúdo: são duas grafias da mesma disciplina. Angelologia conserva inteiro o radical grego angel- e é a forma usada em inglês, francês e alemão. Angeologia é a forma mais breve, também usada em português.
Angeologia é o mesmo que angiologia?
Não. Angeologia é o estudo teológico dos anjos (do grego ángelos, «mensageiro»). Angiologia é a especialidade médica dos vasos sanguíneos e linfáticos (do grego angeîon, «vaso»).
A existência dos anjos é dogma de fé?
Sim. O Catecismo ensina que «a existência dos seres espirituais, não-corporais, a que a Sagrada Escritura habitualmente chama anjos, é uma verdade de fé» (CIC 328). O IV Concílio de Latrão (1215) e o Concílio Vaticano I (1870) ensinam que Deus criou os anjos do nada. Já a divisão em nove coros é teologia tradicional, não dogma definido.
Quais são os nove coros de anjos?
Segundo o Pseudo-Dionísio e São Tomás de Aquino, são nove coros em três hierarquias: Serafins, Querubins e Tronos (a primeira), Dominações, Virtudes e Potestades (a segunda), Principados, Arcanjos e Anjos (a terceira).
Quais são os arcanjos da Bíblia?
A Bíblia dá nome a três: Miguel («Quem como Deus?»), Gabriel («Força de Deus») e Rafael («Deus cura»). A Igreja celebra-os juntos em 29 de setembro. Outros nomes de anjos que circulam em livros apócrifos não são aprovados pela Igreja.
Todo mundo tem um anjo da guarda?
A Igreja ensina que toda vida humana é acompanhada pela assistência dos anjos: «Desde o seu começo até à morte, a vida humana é acompanhada pela sua assistência e intercessão» (CIC 336). Jesus fala dos anjos dos pequeninos, que veem sempre a face do Pai (Mt 18,10). A memória dos Santos Anjos da Guarda é celebrada em 2 de outubro.
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