«Quoniam dilexit multum»: a pecadora, a dívida perdoada e a que muito recebeu

Tradidi enim vobis in primis, quod et accepi. […] Remittuntur ei peccata multa, quoniam dilexit multum.
1Cor 15,3 e Lc 7,47
A quinta-feira da Semana XXIV do Tempo Comum põe lado a lado a fórmula de fé mais antiga que possuímos e a cena de uma mulher que chora aos pés de Jesus na casa de um fariseu. Paulo recorda o que recebeu e transmitiu, Cristo morto pelos nossos pecados e ressuscitado ao terceiro dia. Lucas mostra o que acontece quando alguém percebe o que isso significa para si. Uma leitura dá a doutrina, a outra dá o efeito, e a segunda não se entende sem a primeira.
I. A primeira leitura: 1Cor 15,1-11
Este trecho tem um valor documental que poucos textos do Novo Testamento têm. Paulo introduz o que se segue com os verbos técnicos da transmissão: «transmiti-vos em primeiro lugar o que eu mesmo recebi» (v.3). Está a citar uma fórmula que já era anterior a ele, provavelmente aprendida poucos anos depois da Páscoa, e que a carta fixa por volta do ano 56. Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras, apareceu a Pedro e depois aos Doze.
Vem a seguir a lista das testemunhas, com um pormenor que ninguém inventaria numa lenda: «apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maior parte ainda vive» (v.6). É um convite à verificação. Quem duvidasse podia ir perguntar. E a lista termina no autor, com uma humildade que não é figura de estilo: «em último lugar, apareceu-me também a mim, como o abortivo» (v.8). Paulo chama a si próprio o menor dos apóstolos por ter perseguido a Igreja, e resolve a tensão numa frase que resume toda a sua teologia: «pela graça de Deus, sou aquilo que sou» (v.10).
II. O evangelho: Lc 7,36-50
A cena é construída sobre um contraste de hospitalidade. Simão, o fariseu, convida Jesus e omite os gestos elementares de acolhimento, a água para os pés, o ósculo, o óleo na cabeça. A mulher, que entra sem convite, faz os três, e faz cada um deles em excesso, com lágrimas em vez de água, com beijos contínuos, com perfume de alabastro.
Jesus não repreende o fariseu pelo pensamento, responde-lhe com uma parábola de contabilidade. Dois devedores, quinhentos denários e cinquenta, ambos perdoados. Qual amará mais? Simão responde bem, e a resposta condena-o. Depois vem a frase que a tradição espiritual nunca mais largou: «são-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou, mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama» (v.47). O amor daquela mulher não comprou o perdão, revelou-o. O que Simão não tinha não era virtude, era consciência da própria dívida. Quem se julga com pouco a dever ama pouco, e ama pouco porque calculou mal, não porque tenha sido tratado com menos generosidade.
III. Receber antes de dar
Os dois textos assentam na mesma ordem. Paulo transmite porque recebeu. A mulher ama porque foi perdoada. Em nenhum dos casos a iniciativa é humana, e em nenhum dos casos a resposta humana é dispensável. A fé cristã não é uma descoberta pessoal que depois se comunica, é um depósito que se recebe de outros e se entrega intacto, e a santidade não é um mérito que se acumula, é uma resposta que se dá.
Isto tem uma consequência prática que atinge sobretudo os que crescem numa casa católica e nunca se afastaram. É fácil concluir que se deve pouco. É a posição exata de Simão, e Lucas mostra que é a posição mais perigosa de todas, porque não produz escândalo nenhum e apenas seca o coração devagar. A pergunta correta não é quanto pecámos, é quanto nos foi perdoado, e essa conta inclui tudo aquilo de que fomos preservados sem nunca darmos por isso.
IV. Maria, a que muito recebeu
Aqui surge uma objeção que a mariologia enfrenta há séculos e que convém não contornar. Se ama muito quem muito recebeu perdão, e Maria foi preservada de todo o pecado, terá ela amado pouco? A resposta da tradição é o inverso exato, e assenta na natureza do dom. Ela não recebeu menos, recebeu mais, porque a preservação é uma forma mais alta de redenção do que a cura. Quem é impedido de cair deve ao seu salvador mais do que quem é levantado depois da queda.
O Concílio recorda que Maria é redimida de modo eminente em vista dos méritos do seu Filho e a Ele unida por estreito e indissolúvel vínculo (LG 53), e que foi enriquecida desde o primeiro instante da sua conceição com o esplendor de uma santidade inteiramente singular (LG 56). Ela é a devedora dos quinhentos denários que nunca chegou a contrair a dívida, porque alguém a pagou antes. É por isso que o seu cântico começa onde começa: «a minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lc 1,46-47). Ela chama-lhe Salvador. Sabe do que foi salva.
E há o gesto da mulher da cidade, que a tradição sempre leu em paralelo com o de Maria em Betânia e com a permanência junto à cruz. Aquilo que a pecadora faz com o perfume, Maria fê-lo com a vida inteira, sem lágrimas de arrependimento porque não tinha do que se arrepender, mas com a mesma desproporção. O amor que responde ao dom recebido nunca faz contas, e é sempre excessivo aos olhos de quem está sentado à mesa a calcular.
A quinta-feira da Semana XXIV deixa por isso uma pergunta que se responde no silêncio. Quanto é que julgamos dever? Porque a medida do nosso amor já está decidida nessa resposta.
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